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    Fazia um tempo desde a última vez que visitara Gwanghwamun.

    Ele foi à região quando esteve lá para comprar livros para as aulas da faculdade e para o trabalho, mas foi só isso. Em vez disso, Jaehwan via o lugar na TV e em vários noticiários. Antes, costumava ficar cheio de gente com velas e de pessoas gritando para proteger alguma coisa.

    Mas nenhuma delas estava mais ali.

    As pessoas voltaram para suas vidas normais. Para suas vidas originais. As únicas que restaram foram aquelas que não tinham para onde voltar. Jaehwan viu gente sentada dentro da barraca em frente à estátua do General Lee comendo miojo. Alguns lutavam pelos mortos, enquanto outros lutavam pelos vivos. Alguns lutavam por um bem maior, enquanto outros lutavam por sua organização.

    E, no meio de todos eles, Jaehwan ainda não havia lutado por nada.

    — Ei, por que você me trouxe aqui? Vocês dois têm emprego, mas eu ainda estou desempregado.

    Yoonhwan falou emburrado e Seoyul o repreendeu.

    — Fomos demitidos, lembra?

    Depois que Jaehwan largou o emprego, Seoyul também saiu da empresa. Foi depois de um incidente, como era de se esperar. Jaehwan se sentiu culpado por Seoyul, que se esforçara tanto para conseguir um emprego, mas ela parecia feliz. Yoonhwan acrescentou:

    — Ah, é mesmo? Haha, então estamos todos no mesmo barco.

    — Yoonhwan, você parece feliz demais.

    Yoonhwan riu e Seoyul disparou contra ele.

    — Huh? O que é aquilo? Que multidão é aquela ali?

    Conforme passavam pela área das barracas em direção à estátua do Rei Sejong, o número de pessoas aumentava. Algumas organizações gritavam algo em protesto.

    — Ugh. Este lugar é sempre barulhento demais.

    Yoonhwan franziu a testa e olhou ao redor.

    — Huh? Ei, não é ele? O médico?

    Yoonhwan então apontou para um objeto gigantesco instalado ao lado da estátua. Parecia uma torre. Para a maioria das pessoas, era uma torre estranha, mas para Jaehwan, parecia familiar. A torre era feita de vários lixos e móveis abandonados, mas Jaehwan teve uma sensação estranha a respeito dela.

    — Oh, eu também vi ele! Vi no noticiário que ele estava construindo aquilo ali.

    — Sério?

    Eles então se aproximaram da torre. Era uma torre muito alta, e era difícil acreditar que tivesse sido construída por um único homem. Havia reforços de metal e cimento segurando-a no lugar em vários pontos.

    A altura provavelmente passava dos dez metros.

    Era mais baixa que os outros prédios altos, mas alta o suficiente para matar alguém se caísse de lá. O médico estava no topo.

    -Todos! Precisamos perceber! Estamos presos dentro da torre!

    O médico, que dizia a mesma coisa todas as vezes, estava lá. As pessoas murmuravam conforme passavam.

    — Uau, ele ainda está fazendo isso?

    — Como ele sequer construiu aquilo?

    Mas os manifestantes que sempre estavam ali não pareciam ter interesse pelo médico. Alguns de seus líderes até foram confrontá-lo, dizendo que o médico estava atrapalhando os protestos deles.

    — Ouvi dizer que ele é pago para fazer isso — alguém disse. Mas Jaehwan não conseguia entender. Quem o pagaria? Ele não representava ninguém. Por quê? Por qual motivo?

    — Sério? É, acho que ele não faria isso se não fosse o caso.

    — É tudo fachada. É só política. Se ele ficar famoso, os políticos vão…

    Jaehwan quis explodir de raiva. Quis gritar para as pessoas ou para o próprio médico.

    ‘Por que você ainda está aqui? Você tinha tudo neste mundo e se adaptou melhor do que qualquer um neste mundo. Por que está sendo tratado assim aí?’

    Mas Jaehwan não falou. Não conseguiu. Não sabia por quê. Talvez ainda houvesse algo faltando dentro dele. Em vez disso, apenas olhou em silêncio para o médico. Ele gritava e continuava reforçando a torre.

    O inverno frio formava uma fina camada de gelo no chão. Ele viu Seoyul soprando as mãos. Yoonhwan, que usava uma jaqueta leve, falou emburrado.

    — Ei, até quando você vai ficar aqui? Certeza de que você não veio aqui para olhar aquilo.

    — Eu vim aqui para olhar aquilo.

    — Huh? Por quê?

    — Tem algo que eu preciso saber.

    Yoonhwan pareceu confuso, mas Jaehwan não respondeu. Não tinha resposta alguma. Ele não sabia o que queria saber, ou o que não sabia. O tempo passou e o clima ficou mais frio. Mas, estranhamente, o número de manifestantes estava aumentando. Seria um dia de grande protesto? Havia protestos cercando Jaehwan e seus amigos agora.

    — WAAAAAH!

    — EMPURREM-OS!

    Jaehwan foi então empurrado por pessoas que vinham de trás. Yoonhwan e Seoyul gritaram ao serem puxados para longe. Gritos vinham de todos os lados. A situação ficou ainda mais séria quando a polícia veio para impedir o avanço dos manifestantes.

    Jaehwan não conseguia entender nenhuma palavra que ninguém dizia. Havia gritos demais vindos de todo canto. A polícia mal segurava a linha e brigas começavam por toda parte, com repórteres atarefados tentando capturar o que estava acontecendo.

    E, no meio de tudo, o médico gritava sozinho.

    — Todos! Vocês precisam perceber!

    Era uma visão estranha. O médico continuamente gritava palavras que ninguém ouvia. Por quê? Que significado aquilo tinha? Jaehwan se viu gritando para o médico.

    Pare! Pare agora!

    Ninguém mais ouve você!

    Não importa o quanto você tente, a voz não será ouvida pelas pessoas!

    No entanto, a voz de Jaehwan foi engolida pelos manifestantes que gritavam. Conforme o protesto se intensificava, o número de pessoas que esbarravam na torre aumentava. O cimento começou a rachar e a velha estrutura de metal enferrujada começou a torcer.

    A torre estava desabando.

    Algumas pessoas ficaram chocadas, mas foi só isso. A maioria só se importava em avançar. O médico mal se segurava na torre, tentando não cair. Mas parecia indefeso, como se fosse cair a qualquer segundo.

    Por quê? Por que ninguém tentava ajudar?

    Jaehwan gritou para as pessoas. Mas ninguém olhou para ele. Ninguém salvou o médico.

    As pessoas ficavam ali paradas como árvores que tinham raízes profundas fincadas no chão. Eram como árvores que apenas estavam lá, esperando o sol chegar. Árvores cujo menor movimento as mataria.

    Jaehwan mordeu os lábios.

    Por quê?

    Um grupo de mulheres gritava por direitos femininos, um grupo de trabalhadores gritava por direitos trabalhistas, organizações universitárias protestavam pela redução das mensalidades, e a polícia bloqueava todos eles. Ninguém olhava para o médico. Agiam como se o médico nem existisse.

    Foi então que Jaehwan percebeu.

    ‘Ah…’

    Foi uma percepção triste e poderosa.

    A razão pela qual ninguém tentava salvar o médico era porque o médico não era um ‘homem deste mundo’.

    Para eles, o médico estava além de sua compreensão e fora excluído. Para eles, o médico era invisível. Estavam juntos, mas, como se o médico estivesse em um universo paralelo, ele não estava ali.

    Apenas Jaehwan olhava para o médico.

    Jaehwan então começou a se mover.

    — Jaehwan! NÃO!

    Ele viu Yoonhwan que o alcançou, tentando impedir Jaehwan de avançar, mas Jaehwan puxou a mão de Yoonhwan e caminhou para frente.

    Só mais um pouco.

    Como se avançasse por um caminho impossível, ele empurrou as pessoas. Empurrou e empurrou. Havia gente xingando ou batendo nele, mas Jaehwan suportou tudo para seguir adiante.

    E, finalmente.

    Ele estava no lugar onde o médico havia caído.

    Jaehwan ergueu o médico. Ele abria os olhos debilmente. Seu olho tremeu por um segundo e ele sorriu levemente.

    — …Jaehwan. Você finalmente veio.

    Jaehwan olhou para o médico. O que ele deveria dizer? Depois de muitas tentativas, Jaehwan mal conseguiu falar. Mas não era o que ele queria perguntar.

    — Quem é você?

    Jaehwan perguntou assim mesmo.

    — Você sabia sobre a torre desde o começo, não sabia?

    — …

    — Chunghuh? Cayman? Karlton? Runald? Ou Jay? Quem é você? QUEM É VOCÊ! Por que você fez tudo isso…

    O médico balançou a cabeça em silêncio.

    — Se eu lhe disser quem sou, você acreditará em mim?

    Jaehwan ficou sem palavras. O médico riu enquanto sangrava pela boca.

    — Sim. Talvez eu seja Chunghuh. Ele era um médico lá, então talvez eu seja Chunghuh.

    — …

    — Ou talvez eu seja Karlton. Assim como ele tinha um livro de leis, eu sempre tinha livros comigo.

    — Espere…

    — Talvez eu seja Runald. Porque posso ser o seu único Seguidor agora.

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