Capítulo 244: Ouroboros (1) (Epílogo 1/3)
[Eu preciso me lembrar. É a única forma de não desaparecer.]
— Sirwen Armelt.
Epílogo. Ouroboros.
…
— Ei, vocês acham mesmo que devemos considerar isso uma obra-prima?
Os Pesadelos que compareciam a uma festa de comemoração murmuravam entre si. Conforme a música começou a tocar, a festa teve início e os Pesadelos beberam e comeram à vontade. Mas os velhos Pesadelos do Sindicato dos Pesadelos, sentados ao redor da mesa principal da festa, estavam ocupados franzindo a testa uns para os outros.
— Ugh.
Diante de seus olhos, havia uma pequena estátua em forma de ‘torre’.
Já foi chamada de ‘Torre dos Pesadelos’, mas agora era apenas chamada de ‘Torre’. Já foi uma arte que glorificava os Pesadelos acima de todos os outros seres, mas agora era uma velha estrutura usada apenas para os velhos Pesadelos relembrarem os velhos tempos. A líder do Sindicato olhou atentamente para o interior da Torre e franziu a testa.
— O que isso está tentando dizer? Isso é apenas uma cópia do nosso mundo!
— Não era para ser a Árvore das Imagens? Acho que mostra a Árvore das Imagens.
— Árvore das Imagens? O que você sabe sobre a Árvore das Imagens? Até parece uma árvore, mas…
— Olhem o último andar. Isso é uma piada!
Eles criticavam enquanto encaravam o exterior da torre. Era a nova criação do último [Mestre], Sirwen Armelt.
— Aquela garota arrogante continua criando torres estranhas depois de se tornar uma Mestre.
— Que alvoroço é esse por causa de uma torre…
— A garota tem boa aparência. É nisso que os jovens estão interessados. Uma garota sem senso artístico!
— …Silêncio. Fiquem quietos.
Um dos velhos Pesadelos levou um dedo aos lábios e uma bela mulher com um vestido encantador passou atrás deles. Todos ficaram em silêncio com a súbita frieza. Apenas o som de seus saltos ecoou por um instante e ela subiu ao palco.
— Todos, por favor, recebam Sirwen Armelt!
Os jovens Pesadelos gritaram animados. Sirwen recebeu o microfone do anfitrião e olhou ao redor da festa. Havia alguns rostos novos, bem como os rostos que ela reconhecia. Havia também alguns que ela não queria mais ver.
‘Aqueles velhos rabugentos estão aqui de novo.’
Sirwen franziu a testa para os velhos Pesadelos do Sindicato. Eles sempre vinham à festa para arruiná-la. Eram velhos, mas não se tornaram Mestres. E agora, a morte os aguardava.
Com a palavra ‘morte’, memórias varreram Sirwen.
‘Não. Não vamos pensar nisso.’
Sirwen se acalmou e falou.
— Todos, comam, bebam e aproveitem. É tudo que tenho a dizer.
Os jovens Pesadelos gritaram novamente. As festas de Sirwen eram sempre assim. Ela apresentava seu trabalho e eles aproveitavam. Não havia palestras chatas sobre a obra. Os convidados apenas desfrutavam de um bom momento na festa. Era só isso. Mas o anfitrião, dessa vez, pareceu chocado com o jeito de Sirwen.
— Huh? Só isso? Que tal alguns comentários sobre seu trabalho ou…
Sirwen virou-se para o anfitrião. O anfitrião continuou falando.
— Este trabalho é caracterizado pelo seu contraste com o novo mundo e a Árvore das Imagens. É complicado, então se você pudesse explicar o motivo e…
— Não.
O anfitrião ficou perplexo.
— O quê?
— Não vou dizer nada.
O anfitrião estava chocado e confuso.
— Mas você deveria… uh, todos estão curiosos sobre o último andar do [Pesadelo do Princípio], por exemplo…. Pelo menos se você nos der o tema de…
— Um tema? — Sirwen zombou. — Por que eu criaria uma torre se fosse revelar tudo falando? Posso simplesmente falar sobre isso sem construí-la.
— S-sim, mas…
O anfitrião procurou freneticamente em suas fichas de anotações e Sirwen falou.
— Se você quer tanto que eu diga algo…
— O-oh! Por favor!
O anfitrião sorriu e olhou para Sirwen, mas ela não estava mais ali. Ou, metaforicamente, pelo menos.
Ela estava procurando um passado antigo. O tempo que a maioria dos seres já havia esquecido. Os dias em que todos lutavam para ser um ‘ser’. Muitas cenas passaram diante de seus olhos.
— Esta é uma torre para uma certa pessoa.
Depois que a Queda veio, a Árvore das Imagens foi destruída. Todos os seres estavam presentes quando aconteceu.
Os galhos e o tronco caíram e a Árvore das Imagens se dispersou em prata.
Senhores e Deuses. Adaptados e Despertos. Todos eles olharam para a cena. Eles sentiram o desastre que jamais poderiam esperar deter. Então eles o aceitaram.
Este era o fim. Era assim que tudo iria acabar.
Com uma explosão, o mundo girou e tudo foi coberto por poeira prateada. Levou cerca de uma semana para a poeira prateada baixar.
Sete dias prateados.
Mas mesmo depois daquela semana, as pessoas ainda sobreviveram. Os seres que sobreviveram agora percebiam que estavam vivendo em um ‘novo mundo’. Era a criação de uma mistura entre as [Profundezas], o <Caos> e as <Grandes Terras>. Era o mundo que tinha Deuses, Senhores, Adaptados, e tudo em um só lugar. Não havia Árvore das Imagens e o mundo estava livre das correntes do Sistema.
Novo Mundo.
As pessoas nomearam o novo mundo.
— Você voltou.
— Sim.
— Como foi a festa?
— Foi a mesma de sempre.
— As pessoas do Sindicato estavam rabugentas de novo?
— …
— Não ligue para eles. Eles sempre fazem isso.
— Sim, e isso não me faz sentir nem um pouco melhor a cada vez.
Sirwen sorriu e tirou o casaco, colocando-o na cadeira do quarto de hospital.
— Como está sua condição?
— Estou bem.
— Bem? Você parece estar morrendo.
Sirwen olhou para o velho deitado na cama. Ele tinha cabelos brancos e um rosto enrugado. O tempo e a idade estavam arruinando seu corpo. Sirwen lembrou-se do passado do velho, de quando ele era um garoto.
Um garoto rude das [Profundezas]. Um garoto que era tão teimoso que era fácil dizer de quem ele era Seguidor. O garoto que agia como se fosse adulto era agora um velho.
Sirwen acariciou a testa do velho e pensou em seu nome. Como se fosse se lembrar do nome dele depois que o tempo se esgotasse, ela pensou no nome.
O nome deste velho era Runald.
— Sim. Eu vou morrer algum dia, certo?
— Algum dia? Acho que será em breve.
— Ugh, não diga assim. Sinto racismo toda vez que você diz isso, sabe.
— Haha…
— Você acha que Chunghuh teria se sentido assim? Ou Karlton…?
— Runald.
— Haha, estou brincando. Brincando.
Runald sorriu, tremendo levemente os lábios.
— Eu só estou… com medo. Diferente de Chunghuh, é a primeira vez para mim… morrer. Será a primeira e a última.
— Não seja estúpido. É a primeira vez para todos.
— Sirwen. O que você acha que é a morte? É retornar ao nada? Não há nada além deste mundo? Sem memória, espírito ou…
Os lábios de Runald logo se tornaram silenciosos. Parecia que ele estava sem energia. Respirações pequenas e superficiais foram ouvidas. Sirwen acariciou a testa de Runald com um olhar triste no rosto.
— Garoto, é isso que nos torna humanos.1

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