Capítulo 338 – Órion, o {Cavaleiro Mágico das Sombras}
Surpresos por ele não apenas derrubar o verme gigante, mas também ancorá-lo ao chão com o poder das sombras ao redor da criatura como correntes de contenção, o grupo ficou atônito.
— O que estão esperando, um convite? — gritou “Órion”, puxando-os de volta à realidade com urgência. — Ataquem as frestas na couraça dessa criatura com o poder dos seus raios, antes que ela consiga arrebentar minhas restrições.
Despertando do torpor, o grupo reagiu prontamente. Aila colocou a mão no chão, e o mago élfico se alçou acima da criatura com seu poder mágico.
Em um combo devastador, a filha da senhora da cidade criou espinhos ocos de pedra para perfurar a cabeça da criatura e canalizar seus raios através deles, enquanto o mago disparava descargas elétricas diretamente sobre o alvo.
Com ambas as correntes elétricas crepitando ao colidirem em sentidos opostos, o poder combinado dos magos foi devastador, fazendo a criatura se contorcer em um guincho de dor.
Literalmente segurando as rédeas da luta com suas restrições, Alexander sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
Forçado a soltar parte das sombras atreladas à mão esquerda, apoiou-se com ela no chão para revidar.
Girando sobre o próprio eixo com o pé de pivô no |Pisão das Sombras| para manter a habilidade ativa, ele se virou já utilizando o |Chute do Rei das Feras| para se defender e contra-atacar.
A ameaça que surgira às suas costas era tão perniciosa que seus sentidos o fizeram reagir antes mesmo de esperar para ver ou identificar o que — ou quem — se aproximava.
Gerando uma explosão de força significativa ao se chocar com um dos especialistas em movimento do grupo com seu chute, ficou óbvio que algo estava errado. Haviam sido sabotados.
O sujeito foi cravado na parede pelo impacto do embate entre os golpes, mas, mesmo contra-atacando, Alexander ainda havia sido atingido em cheio na placa do peitoral.
O golpe em si não era tão pesado para o nível dele e apenas o fez tossir um pouco de sangue, mas o empurrou para trás. O impacto e o deslocamento fizeram a ancoragem da criatura sob o |Pisão das Sombras| do pé de pivô ceder.
Sentindo as restrições sobre si caírem em muito mais da metade, o {Verme Gigante Comedor de Rochas}, em sua agonia, guinchou e passou a se contorcer com toda a força para se libertar.
Mesmo com sua cabeça sendo fritada pela eletricidade dos raios — tão puros que nem pareciam feitiços —, a enorme força física da criatura não poderia ser menosprezada, muito menos subestimada.
— Caralho! Vou matar esse bastardo filho da puta assim que isso acabar — rosnou o próprio Alexander dentro da persona de “Órion” que estava representando, deixando parte de sua ira transparecer.
Mesmo não querendo usar mais poder por conta de sua identidade, aquele sujeito o forçara a usá-lo. — Afastem-se dessa coisa enquanto ainda têm tempo, se não quiserem morrer.
Valendo-se das restrições restantes em sua mão direita para se puxar em direção à cabeça da criatura, ele lançou-se sobre ela enquanto o seu verdadeiro poder começava a emergir. Em um movimento fluido, |Prominência Dourada| e |Sobrecarga| foram ativadas, fazendo seu corpo emitir uma poderosa aura.
Irrompendo em poder, a reluzente aura entre vermelho e dourado que emanou dele engolfou fugazmente tudo ao redor por uma fração de segundo antes de convergir, infundindo-se em seu braço: — |Pata do Rei das Feras|.
No instante em que o golpe de palma se conectou a uma parte desprotegida da cabeça do verme, seu poder fluiu em ondas de destruição que pareceram reverberar do topo até a parte inferior do corpo fragilizado da besta.
O impacto não foi suficiente para fazer o verme explodir como um balão, mas as partes internas já desgastadas pela eletricidade em seu caminho provavelmente foram destroçadas.
A criatura passou a se debater de forma descontrolada. Sua racionalidade parecia ter sido severamente afetada.
Ensandecido além da própria insanidade em seu debacle — possivelmente já incapaz de pensar —, o {Verme Gigante Comedor de Rochas} se lançou sobre a curandeira do grupo em uma cruel reviravolta do destino. Justamente ela, que havia perdido a mobilidade quando seu especialista em movimentação se revelara um sabotador.
Justo no instante em que a mulher acreditava que aquele seria seu fim, “Órion” entrou na sua frente para protegê-la. Ele segurou a imensa boca do verme — que a engoliria e retalharia por inteiro — e usou a própria força em atrito com o solo para deter a criatura.
Suas mãos e o pé dianteiro foram perfurados e atravessados pelas presas trituradoras de pedra da fera, que naquele ponto podiam despedaçar densas rochas como se não fossem nada, mas o guerreiro negro ainda assim a salvou.
Quando o verme finalmente morreu, Alexander arfou em dor contida. Rapidamente puxou frascos contendo sua mistura mágica de água e luz, respectivamente preparadas para limpar as feridas de qualquer sujeira ou germe.
Antes que pudesse pegar uma poção de cura ou unguento, no entanto, a curandeira que havia salvado tomou suas mãos entre as dela e passou a curá-lo. Algo como olho por olho e ajuda por ajuda através de suas magias.
Bem familiarizado e predisposto às curas de luz por conta da própria afinidade mágica com o elemento, recuperou-se rapidamente dos ferimentos.
No segundo em que terminou de se curar, Alexander marchou direto até o especialista em velocidade que os havia traído ao atacá-lo sem motivo em um momento tão crítico.
Sentindo a hostilidade emanando dele, Aila correu e se colocou à frente do homem, tentando argumentar: — Pare. Você não pode simplesmente matá-lo aqui.
Sorrindo de forma desdenhosa, o taciturno guerreiro negro apenas a afastou do caminho como se afastasse uma mosca — tamanha a diferença de força física entre ambos — antes de responder: — Não ligo para qualquer utilidade que ele possa ter para a sua causa. Não estamos sob a jurisdição da cidade, muito menos da sua mãe…
— Ele me traiu. Ele nos traiu. Esse merda tem que pagar o preço — acrescentou com um olhar que parecia vicioso. Seu tom não buscava consentimento.
Ciente de que aquele sabotador ainda possuía alguma utilidade para sua mãe, Aila viu “Órion” pisar no braço do infeliz caído que tentava se levantar. Em seguida, o pé dele girou com força suficiente para quebrar o membro do homem.
A jovem já estava prestes a presenciar o outro braço sofrer o mesmo destino quando uma ideia lhe ocorreu: — Eu pago… Ou melhor, eu e minha mãe pagamos por ele… Você só precisa levá-lo de volta conosco até a cidade.
— Proposta interessante — disse “Órion”, ainda quebrando o outro braço do homem, sem dó nem piedade. — Aceito os seus termos. Mas garanto que não vão gostar do que acontecerá caso não cumpram sua palavra.
Momentaneamente suspirando aliviada — mesmo que, internamente, estivesse suando frio e engolindo em seco —, Aila ainda o viu deslocar a mandíbula do traidor e colocá-lo entre os dentes da criatura morta.
O sujeito estava literalmente a um único aperto de ser esmagado e retalhado pelas presas da besta, enquanto sequer podia tentar se matar.
Com o fim do embate, a maior parte do verme gigante foi armazenada enquanto sua cabeça foi preparada para que o grupo pudesse puxá-la e arrastá-la até a cidade.
Aquém do que a jovem e os outros pensavam dele, Alexander raramente agia por impulso ou teatralidade, a menos que isso aumentasse seus ganhos.
Suas ações geralmente buscavam exclusivamente fazê-lo ganhar mais do que perder, e isso quase nunca mudava — nem com Aila, nem com Gilda, nem com o bandido, nem com a mulher que havia salvado.
Após retornar à cidade arrastando a fera com a ajuda da magia de terra de Aila — a mesma que lhe permitira ter o maior êxito em sua fuga anterior — e trazendo um traidor como prova de seus méritos e feitos, “Órion” chegou aos portões de Draupnir com toda a pompa.
A fama dele e do grupo como um todo não apenas disparou, como também atraiu inúmeras pessoas interessadas em contratá-lo para outras comissões pessoais ou familiares. Afinal, nem todas as jazidas e fontes de recursos próximas da cidade estavam sob sua jurisdição ou eram tão amigáveis à sua senhora.
Sem sequer cogitar outras comissões antes de ouvir sobre as recompensas, Alexander parou a cerca de cinco passos da entrada da cidade, jogou o traidor no chão e permaneceu ali, mantendo o peso cada vez mais incisivo sobre ele.
Seu ponto era óbvio para qualquer bom entendedor: não entraria na jurisdição estrita da cidade antes que lhe fosse feita uma oferta sacramentada em tinta… ou sangue.
Forçada a aparecer após ouvir da filha as nuances dos acontecimentos, a senhora da cidade precisou ir pessoalmente oferecer garantias públicas antes que o homem fosse entregue.
Havia muitas perguntas a serem feitas — e muitos métodos para fazê-lo falar. No entanto, aquele lugar não parecia o mais apropriado, especialmente porque tudo poderia se tornar ainda mais delicado diante da vontade de Gilda.
Afinal, a ação não havia sido apenas contra ela, mas também contra os interesses públicos da cidade em se livrar dos problemas em suas minas.
Chateado ao contabilizar perdas e lucros — mesmo após considerar o extra que ainda arrancaria de Aila e sua mãe por ter precisado se “arriscar” para salvar a curandeira, além do fato de o especialista em movimento ter sido comprado por terceiros para sabotá-los —, Alexander decidiu ir para o próprio canto e avaliar os prejuízos sozinho.
Tudo o que menos queria naquele momento era continuar se envolvendo com questões que não fossem suas ou de seu estrito interesse.
Embora não quisesse se envolver mais nos assuntos da cidade, a cidade parecia querer se envolver nos assuntos dele. Não havia muitos do nível dual superior que tinham tanto poder de combate em uma idade tão tenra.
A situação começou a se espalhar tanto que, nos círculos de combate, havia gente a trocar sua alcunha de “Órion, o ||Caçador da Lua||” para “Órion, o {Cavaleiro Mágico das Sombras}”. O seu novo epíteto veio em virtude de sua possível classe que lhe permitia controlar sombras.
Havia até uns certos murmúrios de boatos escusos de que, apesar de aparentar ser um lutador em seu ramo de classe, a sua linhagem era tão poderosa que lhe permitia utilizar habilidades e ataques únicos. Esse também foi um dos motivos especulados para um cavaleiro se trajar com um conjunto tão aberto e móvel.
Decidindo ignorar todo o resto, especialmente a política e a politicagem, Alexander voltou a mergulhar no seu treino e aprendizado, para se focar apenas neles.
Restavam-lhe menos de 2 meses até ter que retornar ao Império, e esse tempo teria que bastar para lhe gerar ao menos alguns avanços significativos.

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