Capítulo 83 – A Estranha Situação
“Você não está bêbada? Como consegue pensar com tanta clareza?” Ding Songyan ficou surpreso.
As coisas tinham chegado a esse ponto, então ele não teve escolha a não ser confessar honestamente.
— Irmã Sênior, não vou enganá-la, a Impressão do Coração Celestial de Yan Yong ainda está no meu mar da consciência. Como ele já foi obliterado há muito tempo, sem nenhum vestígio de sua vontade, a marca agora pode ser usada por mim.
— No entanto, seu qi só tem mais um uso. Uma vez esgotado, ele entrará em colapso completamente. No dia a dia, eu o uso apenas para despertar meus próprios dons inatos, para abrir meus olhos yin, trilhar os caminhos da sombra e sentir o fluxo do qi do céu e da terra.
Os olhos de Zheng Zhuxi se arregalaram e ela exclamou: — Minha mãe não removeu a Impressão do Coração Celestial para você?
— Ela só removeu a de Ji Hanyi. Eu escondi deliberadamente a de Yan Yong nas profundezas do meu mar da consciência, é muito útil para desistir dela. — Ding Songyan estava dizendo a pura verdade.
Zheng Zhuxi estalou a língua duas vezes e murmurou, embriagada: — Você é um verdadeiro guardião de segredos… como um vigarista… Minha mãe sabe?
— Nunca contei à Mestre, mas acredito que ela tenha suas suspeitas — respondeu Ding Songyan honestamente.
— Concederei como verdade. — Um sorriso surgiu no rosto de Zheng Zhuxi, revelando suas covinhas profundas.
Ela se virou para a frente, sentando-se ereta, encarando fixamente as árvores, os vasos de flores e os recipientes de água no pátio, com os pensamentos vagando para algum lugar desconhecido.
Ding Songyan também relaxou e contemplou a vista de seu próprio pátio.
A lua brilhante, lá no alto, lançava seu brilho nítido, envolvendo tudo num tênue véu prateado.
Depois de um tempo, Zheng Zhuxi começou a murmurar para si mesma: — Irmão Júnior, será que um dia você vai me dizer de repente: ‘Irmã Sênior, matei um herege de quarto grau, anote isso na sua conta e me ajude a manter meu segredo; Irmã Sênior, matei um demônio de terceiro grau, anote isso na sua conta e me ajude a manter meu segredo…’
— E chegará o dia em que você me dirá: Irmã Sênior, eu derrotei um Grande Mestre de segundo grau, anote na sua conta e me ajude a guardar meu segredo…
“Puxa vida, irmã sênior, você fica mais esperta quando está bêbada…” Ding Songyan não se atreveu a responder.
Zheng Zhuxi continuou atordoado,
— Então, quando eu viajar pelo mundo marcal, não virão todos os tipos de poderosos para me desafiar?
— Não, não, não! Eu não quero isso! Vou ficar completamente humilhada!
Enquanto falava, a jovem ergueu as duas mãos, levou-as à cabeça e olhou fixamente para o nada.
— Irmã sênior, seus dons são extraordinários. Se você treinar diligentemente antes de se aventurar no mundo marcial, não há razão para que você não possa se igualar a esses poderosos, até mesmo aos mais poderosos de todos os tempos — consolou Ding Songyan.
— Certo, treinamento diligente! — Zheng Zhuxi de repente se virou para a esquerda e para a direita. — Onde está minha espada? Onde está minha espada?
— Aqui está. — Ding Songyan entregou-lhe a Água do Outono juntamente com a bainha.
Durante o jantar e as bebidas, Zheng Zhuxi deixou sua espada sobre a mesa. Quando saíram para o pátio para tomar um ar, ela estava tão ocupada carregando banquinhos que se esqueceu de levar a Água do Outono. Logo atrás, Ding Songyan a pegou sem hesitar, carregando-a junto com a Sombra do Gelo, uma em cada mão.
Zheng Zhuxi pegou a espada, desembainhou-a com um som nítido e caminhou até o meio do pátio, murmurando: — Vou treinar diligentemente.
Ela assumiu sua posição e começou a praticar com afinco, iniciando com a arte da espada Aurora Penetrante e as Sete Espadas da Noite Iluminada por Tochas. Era tão graciosa quanto um dragão planando, tão veloz quanto um cisne assustado.
Ding Songyan observava com um sorriso, e um verso do Sábio da Poesia surgiu espontaneamente em sua mente: “Ela começou como um raio, descarregando sua fúria, e terminou como a calma brilhante dos rios e do mar.”
“Nada mal, agora tem uma dança com espadas para assistir depois dos drinques…” Ding Songyan se acomodou em contentamento.
Enquanto observava, ele fazia comentários silenciosos para si mesmo.
“A Irmã sênior tem uma postura impecável. Mesmo bêbada, ela mantém a mesma postura e movimento sem perder o controle. Suficiente para despachar vários ladrões de quinta categoria… Sua esgrima reflete sua personalidade original — rígida e imponente demais, sem nenhuma adaptabilidade… Mas sua personalidade já começou a mudar, e sua esgrima deverá acompanhar essa transformação com o tempo, apenas um pouco depois…”
Uma suave brisa noturna trazia um toque de frescor. No pátio, uma pessoa dançava com sua espada enquanto outra observava, cada uma satisfeita à sua maneira.
Após um período indeterminado, Zheng Zhuxi embainhou sua espada e permaneceu imóvel, com o rosto corado pela bebida e o olhar fixo, e disse a Ding Songyan: — Preciso dormir. Preciso descansar…
Ao ver os olhos de sua irmã sênior quase vidrados, Ding Songyan se levantou e chamou em direção ao pátio da frente.
— Tia Wang, venha aqui um instante.
Ao sair para o pátio com Zheng Zhuxi, ele já havia pedido à Tia Wang que esperasse na entrada da passagem coberta. Se Zheng Zhuxi vomitasse e se sujasse, seria constrangedor para ele lidar com a situação.
Tia Wang tentou pegar no braço de Zheng Zhuxi, mas a jovem se desvencilhou e murmurou: — Não estou bêbada. Consigo andar sozinha!
Com passos razoavelmente firmes, ela seguiu a Tia Wang em direção ao quarto na ala leste que havia sido preparado para ela, onde sua bagagem já a aguardava.
Ao cruzar a soleira, ela se virou de repente e acenou alegremente para Ding Songyan.
— Até amanhã, Irmãozinho!
— Até amanhã. — Ding Songyan respondeu com um sorriso.
Ele começou a ansiar por ver como Zheng Zhuxi se comportaria quando o efeito do vinho passasse, especialmente depois que ela se lembrasse de tudo o que havia feito naquela noite. Caso ela não se lembrasse, Ding Songyan teria a gentileza de refrescar sua memória, descrevendo toda a sequência de eventos em detalhes.
Em pouco tempo, a Tia Wang saiu do quarto da ala leste, fechou a porta de madeira e disse a Ding Songyan: — Segundo Mestre, a Heroína Zheng adormeceu completamente vestida.
Ding Songyan tirou um lingote de prata pesando cerca de um tael e disse à tia Wang: — Por favor, vá buscar algumas flores, especiarias e sabonete perfumado. Amanhã de manhã, aqueça um pouco de água e leve-a junto com a banheira para o quarto da Heroína Zheng. Ah, depois que ela acordar.
Tia Wang concordou e saiu do pátio. Ding Songyan sentou-se novamente no banquinho, deixando a brisa noturna acariciá-lo, contemplando a lua brilhante, com a mente vagando por diversos assuntos, ocasionalmente voltando-se para suas próprias artes marciais.
À meia-noite, ele pegou a Sombra do Gelo, saiu da Mansão Ding e dirigiu-se à casa dos Qu, na mesma rua, anunciando seu propósito ao porteiro. O porteiro, que havia sido informado com antecedência, conduziu Ding Songyan até o pátio mais interno e para dentro de um pequeno edifício construído de tijolos e pedras.
Lá fora já era outono, mas dentro do edifício ainda era pleno verão. Uma grande forja de ferreiro estava encostada na parede, ligada a uma chaminé, com um fole ao lado, e o fogo da forja ardia intensamente, com ondas de calor a propagarem-se para fora.
Qu Zhongheng, vestindo uma jaqueta curta de cânhamo, estava de pé ao lado da fornalha e virou a cabeça, estendendo a mão direita em direção a Ding Songyan.
Seus dois olhos comuns estavam cerrados com força; o olho yin em sua testa estava aberto, suas profundezas em profunda escuridão.
Ding Songyan desembainhou a Sombra do Gelo e a entregou. Qu Zhongheng, sem olhar para seu convidado, agarrou a espada cristalina com pinças de ferro e a colocou nas chamas que saltavam.
Com a mentalidade de que havia algo a aprender com quase qualquer pessoa, Ding Songyan abriu seus olhos yin, ativou o Coração Celestial e concentrou sua atenção no fluxo de qi dentro da Sombra do Gelo.
À medida que a lâmina esquentava gradualmente e a ressonância do qi estava prestes a se romper, Qu Zhongheng a retirou, colocou-a na bigorna de ferro, pegou sua ferramenta de gravação e começou a inscrever o nome da espada — às vezes rápido, às vezes devagar, às vezes parando por várias respirações.
Cada vez que a ferramenta descia, era precisamente num momento em que a ressonância do qi estava se estabilizando através de uma mudança, sem causar qualquer perturbação.
Ding Songyan observava com grande interesse e, de repente, se viu retornando àquele estado em que todas as coisas manifestavam o Dao, percebendo o fluxo e a mudança da ressonância do qi com maior clareza do que antes.
“Todas as coisas carregam ressonância de qi. Se alguém pudesse criar uma arte da espada baseada nos fluxos dessa ressonância, não seria algo incrível?” Ding Songyan ponderou distraidamente.
Ao recobrar os sentidos, lamentou que seus alicerces ainda não fossem suficientemente sólidos e resolveu considerar essa possibilidade somente após dominar as artes da espada contidas na Escritura das Estrelas Celestiais e no Sutra da Noite Iluminada por Tochas.
— Feito. — Qu Zhongheng devolveu a Sombra do Gelo, agora frio, a Ding Songyan.
Na lâmina, que parecia ter sido formada por cristais de gelo condensados, havia sido adicionada o nome Sombra do Gelo.
Ding Songyan estava admirando sua espada quando Qu Zhongheng, que acabara de notá-lo, disse de repente: — Por que você carrega um traço da aura do mundo inferior?
“Você consegue detectar isso? Seu olho yin é impressionante, um verdadeiro dom racial…” Ding Songyan embainhou Sombra do Gelo e sorriu em explicação.
— Eu consigo trilhar os caminhos sombrios.
Ao ver a expressão de Qu Zhongheng relaxar, demonstrando compreensão, algo despertou em Ding Songyan, e ele perguntou em tom pensativo: — Qu Zhongheng, você se lembra daquela vez em que sobrevoou a região em sua carruagem de madeira em forma de pipa, procurando por mim?
— Eu me lembro. Ai, como a Irmãzinha Qingyan pôde ser uma demônia… — Qu Zhongheng encarou sombriamente com seu olho yin, ainda incapaz de se conformar com a ideia.
Ding Songyan prosseguiu.
— Naquela época, no que você viu com seu olho yin, os fantasmas errantes ou o submundo, havia algo de incomum?
Qu Zhongheng ficou pensativo. Depois de um tempo, disse: — Durante esse período, as almas no submundo pareciam inquietas. Eu só tinha visto algo parecido quando os Portões Fantasma se abriam, então isso me impressionou.
“Então realmente havia algo de incomum…” O olhar de Ding Songyan se tornou ligeiramente mais penetrante. Ele havia feito a pergunta por acaso, e isso lhe valeu a pena.
Antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa, Qu Zhongheng continuou falando sozinho.
— Essas almas continuavam se reunindo ao redor da Ponte Fengshui.
“Ponte Fengshui?” Foi como se um raio tivesse atravessado o mar de consciência de Ding Songyan, iluminando uma infinidade de pensamentos de uma só vez.
Ele se lembrou de que a senhorita Xiaoqing havia mencionado isso, e ele mesmo havia verificado: o trecho da estrada entre a Rua Chengyu e a Ponte Fengshui era fresco e agradável, diferente de qualquer outro lugar em uma noite de verão.
“Será que isso aconteceu porque almas se reuniram naquela área? E por que elas estavam reunidas ali? Infelizmente, tanto a senhorita Xiaoqing quanto eu tínhamos acabado de chegar à Cidade de Dingjiang, na Província de Dingjiang, e não tínhamos como saber se aquele trecho da estrada estava diferente dos anos anteriores. Caso contrário, talvez tivéssemos notado algo…”
— Havia algo de errado perto da Ponte Fengshui? — Ding Songyan fez um esforço para manter a voz calma.
Qu Zhongheng refletiu por um longo tempo e então balançou a cabeça negativamente.
— Não descobri nada.
Ding Songyan não fez mais perguntas, pegou sua espada e saiu da casa dos Qu.
Agora eram outros tempos, e ele acreditava que aquele trecho de estrada provavelmente estava livre de qualquer anomalia, mas planejava percorrê-lo novamente na noite seguinte, para ver se seu grau atual como um Grande Mestre de elite, juntamente com o Coração Celestial, poderia revelar algo.
Ao retornar para sua residência, Ding Songyan passou pela passarela coberta em direção ao segundo complexo e, olhando para cima, viu uma figura sentada na beira do telhado. Ele olhou com mais atenção e percebeu que era Zheng Zhuxi, com sua saia de gaze verde-clara, quase branca.
As bochechas da jovem já não estavam tão coradas, embora seus olhos ainda estivessem um pouco atordoados.
— Irmã Sênior, o que a senhorita está fazendo aí em cima? — perguntou Ding Songyan enquanto caminhava em direção à ala leste.
Zheng Zhuxi esboçou um leve sorriso, ainda com um traço de seu olhar vago.
— Acordei e vi que a lua estava linda lá fora, pela janela, então subi ao telhado para admirá-la.
Suas pernas pendiam da beira do telhado, balançando suavemente para frente e para trás, suspensas no ar.
“Chega de deixar a Irmã Sênior Zheng beber tanto…” Ding Songyan suspirou, saltou para cima, girou no ar e pousou suavemente ao lado de Zheng Zhuxi.
Zheng Zhuxi inclinou a cabeça para trás e contemplou, em transe, a lua gibosa, fria e límpida. Ding Songyan olhou com ela, e uma onda de sentimentos o invadiu — nostalgia, tristeza e saudade, tudo ao mesmo tempo.
Em sua vida passada, ele fora forçado a partir antes de ter a chance de se despedir adequadamente.
No longo silêncio, Zheng Zhuxi sussurrou de repente: — Sinto um pouco de falta… do meu pai.
Pix da equipe:
Vento Leste (tradutor) – cd257395-b041-4a84-ac90-7489444b88cd
Porta (revisor) – ccb30f8a-8453-4908-a0c5-955a825ec93f
Os outros dois integrantes, Douglas (revisor que faz as notas) e Asu (tradutor auxiliar do chinês e revisor), decidiram não colocar os deles.

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