“O Trono Imperial… isso se refere à posição do Imperador Celestial? E o Imperador Humano é o governante do reino mortal?” Ding Songyan de repente se viu imensamente interessado no livro em suas mãos.

    Ao ouvir a pergunta, Ding Qingyan olhou para ele com uma súbita compreensão:

    — Não há necessidade de tanta pressa, não é? Segundo Irmão, você deveria descansar mais alguns dias primeiro.

    — Ler também é uma forma de descansar. — Ding Songyan sempre tinha uma resposta pronta.

    Ding Qingyan não tentou persuadi-lo mais. Ela foi para trás do biombo e trouxe livros, papel, pincéis, tinta e um tinteiro.

    — Vou praticar minha caligrafia agora. — disse ela, com um tom leve, enquanto se virava para a sala principal.

    Ding Songyan acenou com a mão, voltando sua atenção para o livro de histórias.

    O texto era bastante conciso. Em relação à história antiga, mencionava apenas que Zhuanxu ascendeu ao Trono Imperial e ordenou a Chong e Li que “rompessem a conexão entre o Céu e a Terra”. Depois disso, o Imperador Celestial continuou a percorrer o reino mortal, servindo simultaneamente como Imperador Humano — sucessivamente Tang Yao1, Yu Shun e Xia Yu. Quando Xia Houqi se tornou Imperador Humano, não havia mais rumores sobre o aparecimento do Imperador Celestial no mundo.

    — De acordo com as anotações do Legado Secreto do Clássico das Montanhas e Mares, o Imperador Zhuanxu não seria o Imperador do Norte, o Imperador Negro do Norte? Embora ele seja um dos Cinco Imperadores das Cinco Direções2, certamente não é o supremo. Por que todos esses livros de histórias o listam como o Imperador Celestial que veio depois do Imperador Amarelo e antes de Tang Yao? Para nós, que não temos uma linhagem adequada hoje em dia, a história antiga é realmente difícil de verificar, mas certamente não deveria haver erros em relação a um evento monumental como ‘Romper a Conexão entre o Céu e a Terra’? E todos os relatos são tão consistentes… Se não foi o Imperador Celestial que liderou o ‘Romper’, então quem foi? — Ding Songyan folheou rapidamente outros livros.

    Ele ponderou por um longo tempo, tentando adivinhar com incerteza:

    — Diz-se que o Legado Secreto do Clássico das Montanhas e Mares foi transcrito do Clássico Imperial Comentado das Montanhas e dos Mares, e é tão respeitado pelas principais seitas; não deveria estar errado quanto a isso.

    — Será possível que ‘Imperador Celestial’ não seja um título hereditário, mas sim uma posição? Que alguém possa se tornar Imperador Celestial ao se alinhar com o Grande Dao? Ou talvez a linhagem e a posição possam ser separadas? Mesmo que alguém possua a linhagem, se não tiver alcançado o reino correspondente, não poderá se tornar o Imperador Celestial, e o cargo deverá ser preenchido por aquele dos Imperadores Negro3, Verde4, da Chama5 ou Branco6 que se alinhou com o Grande Dao, para só então renunciar ao cargo quando alguém da linhagem correspondente alcançar o reino do Imperador Celestial?

    — Mas mesmo após o ‘Rompimento da Conexão’, o Imperador Celestial continuou a governar o reino mortal, desaparecendo repentinamente apenas quando Qi estabeleceu a Dinastia Xia. Que razão poderia estar escondida por trás disso?

    Ding Songyan não conseguiu entender e não se deteve no assunto. O que os segredos da era mitológica tinham a ver com um contador de histórias comum como ele? Não havia necessidade de perder tempo com isso.

    Ele continuou navegando pelo conteúdo subsequente:

    A dinastia Xia entrou em declínio após um milênio, e a tribo Youqiong substituiu os Xia, desfrutando do mandato por seiscentos anos… 7

    Segundo o livro de histórias, a Dinastia Xia durou mil anos completos — muito mais tempo do que a Dinastia Xia de sua vida anterior. Essa foi a primeira discrepância. 8

    E quem substituiu os Xia não foi o Shang do Pássaro Negro9, mas sim uma tribo chamada Youqiong. Ela deteve o poder por mais de seiscentos anos, embora os últimos duzentos anos tenham sido marcados pela ascensão de vários senhores feudais. Ding Songyan convenientemente equiparou isso ao período da Primavera e Outono. 10

    Após a queda da dinastia Youqiong, seguiram-se quatrocentos anos de guerras entre as massas. Houve a contenda das “Cem Escolas de Pensamento”11; o sábio Zuo, em sua juventude, liderou uma reforma militar, em sua meia-idade ensinou o confucionismo12 e o respeito pelos rituais, e em sua velhice fundou o daoísmo13, pregando os ensinamentos do Dao e da Virtude.

    Quem pôs fim à era das guerras foi o Estado de Ying14. Depois de unificar o mundo e subjugar as cem tribos, adotaram “Qin” como nome dinástico, e o soberano da época se autodenominou o Primeiro Imperador15.

    A dinastia Qin floresceu por mais de duzentos anos antes de ceder lugar à dinastia Han16. A dinastia Han também durou oitocentos anos, seguida pelo período dos Três Reinos17.

    Depois disso veio a dinastia Wei18, mas não a Jin19. A dinastia Wei durou menos de trezentos anos antes que o mundo mergulhasse no caos, e o Taizu20 da dinastia atual ascendeu de sua posição como Marquês de Zhao para unificar o reino.

    — Os Qin se destacaram na poesia fu21, os Han na poesia shi22 e os Wei na poesia ci23… isso… — Ding Songyan sentiu uma sensação de vertigem mental.

    Toda a história parecia familiar, mas ao mesmo tempo errada. Muitas coisas que ele conhecia estavam lá, mas haviam sido combinadas de maneiras estranhas, dando-lhe a sensação de “Zhuangzi sonhando com a borboleta”. 24

    Forçando-se a se acalmar, ele buscou friamente informações e padrões potencialmente úteis.

     — Muitas dinastias estão faltando, e várias novas surgiram, mas as dinastias que eu conheço: Xia, Qin, Han e Wei, estão na ordem cronológica correta…

    — A ordem de nascimento de fu, shi e ci também está correta, só que não nas dinastias de que me lembro… Para descrever em uma palavra, seria…

    Ding Songyan franziu ligeiramente as sobrancelhas:

    “Desorganização!”

    Um espaço-tempo deslocado? Tendo terminado o livro de histórias e adquirido certa compreensão da história do mundo atual, ele pegou os Quatro Tesouros do Estudo25, saiu da sala do lado oeste, sentou-se em frente a Ding Qingyan, abriu o papel e tentou, desajeitadamente, moer a tinta.

    Ding Qingyan, que estava concentrada em sua caligrafia, olhou para ele e empurrou seu próprio tinteiro em direção ao centro:

    — Use a minha primeiro.

    — Certo. — Ding Songyan acatou prontamente a sugestão dela.

    Ele só havia praticado caligrafia com pincel por dois ou três anos na infância. Embora sua postura não estivesse errada, seus traços eram extremamente desajeitados e os caracteres que escrevia eram horríveis.

    O mais importante é que ele só sabia escrever em caracteres simplificados e já havia esquecido como escrever muitos deles. Decidiu deixá-los em branco por enquanto e pedir a Ding Qingyan que o ensinasse mais tarde.

    — Segundo Irmão, que tipo de caracteres são esses que você está escrevendo? — Ding Qingyan esticou o pescoço, branco como jade, para observar os caracteres no papel à sua frente.

    Ding Songyan respondeu com um ar calmo e sábio:

    — Não perdi a maior parte da minha memória? Esqueci muitos caracteres, então tenho que escrevê-los em sua forma simplificada. Vou precisar da sua ajuda com alguns deles.

    “Viu? Escolher a “honestidade” desde o início foi de fato a melhor estratégia. Não havia necessidade de quebrar a cabeça procurando desculpas depois; uma resposta casual e indiferente poderia resolver a maioria dos problemas.”

    — Você também se esqueceu de como escrever… — Ding Qingyan largou o pincel, levantou-se e inclinou-se sobre Ding Songyan. Ela examinou o papel por um instante e disse com um toque de tristeza: — Os antigos usavam essa parte dos caracteres, então eu os reconheço… Segundo Irmão, o que você está escrevendo?

    — Tive uma inspiração repentina ontem à noite. Quero escrever um livro de contos sobre um romance entre um demônio e um humano, — disse Ding Songyan, após pensar por um instante. — Quando eu terminar, você pode me ajudar a transcrevê-lo. Vou levá-la ao clube do livro para ver quanto conseguem pagar e, então, separarei uma parte para te ajudar a juntar algum dinheiro.

    Os olhos de Ding Qingyan brilharam instantaneamente:

    — Isso parece ótimo!

    A menção de dinheiro a fez lembrar de algo:

    — Segundo Irmão, você comprou o presente para o terceiro filho da família Qu?

    “…” Ding Songyan ficou em silêncio. — Eu esqueci.

    — Está tudo bem, está tudo bem. Vou procurar um quando sair para comprar comida com o papai ou a mamãe hoje à noite, ou amanhã também serve. — Ding Qingyan acenou com a mão com um sorriso radiante e sentou-se novamente para continuar sua caligrafia.

    Ela escrevia uma caligrafia linda e delicada, em letras pequenas.

    Ding Songyan baixou a cabeça, mergulhando sua mente na criação de A Lenda da Serpente Branca.

    Essa parte teve que se desenvolver a partir do ponto da história que ele se lembrava — Xu Xian e a Dama Branca abrindo uma farmácia — até o momento em que o vinho de realgar26 durante o Festival do Barco-Dragão27 forçou a Serpente Branca a revelar sua verdadeira forma, assustando Xu Xian até a morte.

    Quanto aos outros pontos da trama que ocorreram nesse meio tempo, ele já os havia esquecido há muito tempo e teve que inventá-los por conta própria. Sua abordagem foi partir do choque entre as identidades demoníacas das duas serpentes e a sociedade mortal, destacando a singularidade de toda a história.

    Assim, primeiro, a Dama Branca usa magia para criar doenças menores a fim de ajudar os negócios da farmácia, apenas para ser tocada e influenciada pela preocupação genuína de Xu Xian com os pacientes, vizinhos e pobres, o que a leva a desenvolver um “coração humano”. Em seguida, Xiaoqing pune um libertino frívolo, desencadeando uma série de eventos que permitem à ingênua demônio serpente entender gradualmente o que é o amor e compreender o vínculo entre sua irmã e Xu Xian. Finalmente, as duas demônios usam suas habilidades mágicas para ajudar os parentes de Xu Xian, os vizinhos e os fracos que sofrem, buscando justiça para eles.

    Esta parte focou na gratificação, ao mesmo tempo que incorporou o crescimento e a mudança dos personagens. Ding Songyan escreveu com grande satisfação e quase acrescentou mais alguns capítulos.

    No entanto, ele manteve a razão e conteve-se. Também eliminou a maior parte das trivialidades domésticas e assuntos oficiais envolvendo os parentes de Xu Xian, pois a moça de vestido branco não era da Prefeitura de Dingjiang e não ficaria ali por muito tempo.

    Numa situação dessas, uma história muito curta não seria propícia para criar uma conexão, enquanto uma história muito longa impediria que as partes mais essenciais fossem ouvidas antes que ela fosse embora, não deixando uma impressão profunda. Escrever assim trouxe o dia ao crepúsculo. Ding Songyan trocou o pincel para a mão esquerda e sacudiu o pulso direito.

    “Demorou tanto só para escrever um resumo…” Ele pensou consigo mesmo enquanto revisava as páginas que secavam, contemplando a possibilidade de transcrever a canção “Sob o Monte Qingcheng vive Bai Suzhen”. 28

    Ele achava que a garota de vestido branco era jovem, então sua receptividade a novidades deveria ser alta; ela não deveria se sentir repelida por uma melodia tão “especial”.

    E quanto mais especial algo fosse, mais profundamente deixaria uma impressão nela, fazendo-a se lembrar de uma pessoa chamada Segundo Jovem Mestre Ding. Essa foi uma das razões. Outra foi que Ding Songyan sentiu que essa música teria um efeito de toque final se cantada durante certos momentos da trama, como quando as emoções da Dama Branca estivessem no auge ou mais profundas.

    Felizmente, a letra dessa música era simples e já havia sido regravada por muitas pessoas, então ele a ouvira com frequência… Ding Songyan terminou rapidamente de escrever a letra, preenchendo as poucas partes de que não se lembrava claramente.

    — Segundo Irmão, Xu Xian simplesmente morreu assim? — Aproveitando a oportunidade enquanto a tinta secava e os papéis eram empilhados, Ding Qingyan leu o esboço da história e ficou bastante cativado.

    Ding Songyan deu um “Mhm”:

    — Isso mesmo.

    — E então, o que acontece? O que virá a seguir? — Os olhos de Ding Qingyan se arregalaram.

    — E depois? — Ding Songyan olhou para a irmã. — Não há depois.

    — … — Ding Qingyan ficou um pouco atônita a princípio, depois percebeu que seu irmão estava brincando com ela e começou a bufar de irritação. Só então Ding Songyan disse:

    — O próximo capítulo mostra a Dama Branca roubando a erva da imortalidade para salvar Xu Xian.

    Se o “público principal” reagisse bem, ele poderia até adicionar um capítulo onde a Dama Branca invade corajosamente o Submundo para arrebatar a alma de Xu Xian das mãos da Senhora Meng.

    — Erva da imortalidade? Ah, o elixir da imortalidade! — A expressão de Ding Qingyan relaxou.

    “Certo, de acordo com os costumes deste mundo, “elixir da imortalidade” era mais fácil de entender do que ‘erva da imortalidade’…” Ding Songyan estava perdido em pensamentos quando a porta entreaberta foi aberta.

    Liu Yuzao, usando um véu preto, entrou.

    — Mãe! O problema do Segundo Irmão está resolvido! — Ding Qingyan, ainda conservando um pouco de sua natureza infantil, pulou para cumprimentá-la.

    — É mesmo? — Liu Yuzao removeu o véu e lançou seu olhar para Ding Songyan.

    Ding Songyan repetiu o que havia dito à irmã, omitindo o Legado Secreto do Clássico das Montanhas e Mares e seu verdadeiro criador. A expressão de Liu Yuzao relaxou gradualmente; embora não fosse muito evidente, um lampejo de alegria ainda cruzava seu rosto.

    Ela assentiu com a cabeça, dizendo “Hum”, e acrescentou:

    — Se você estiver livre amanhã, vá à Mansão Zhen. Sua irmã Nansheng tem sido de grande ajuda, e o Sr. Yu também. Você deve agradecê-los pessoalmente; nossa família não pode ser descuidada com a etiqueta.

    Assim que Ding Songyan concordou, Ding Qingyan já estava puxando a manga de Liu Yuzao, implorando:

    — Mãe, vamos comemorar hoje, que tal?

    Liu Yuzao acenou com a cabeça levemente:

    — Então irei à rua comprar comida. O que você gostaria?

    — Qualquer coisa serve. — Ding Songyan ainda não conhecia muito bem o lugar, então acrescentou: — Contanto que tenha carne.

    — O pato crocante da Casa Peônia! — exclamou Ding Qingyan. — Mãe, deixe-me ir com você. Posso comprar o presente para o terceiro filho da família Qu no caminho. 

    Liu Yuzao não se opôs. A mãe e a filha colocaram seus véus, pegaram a caixa de comida e saíram.

    Ao anoitecer, a mesa quadrada da família Ding estava posta com diversos pratos: pato crocante, frango cozido fatiado, carneiro cozido em molho vermelho, berinjela cozida no vapor, alface variada, vários pães achatados, um balde de arroz e um balde de sopa doce de feijão para acompanhar, servida gelada.

    — Vamos tomar um vinho hoje? — Ding Shengyi lançou um olhar para sua esposa.

    Liu Yuzao assentiu.

    O rosto de Ding Shengyi iluminou-se de alegria. Ele pegou um pequeno jarro de vinho e disse a Ding Songyan:

    — Este é o ‘Orvalho de Rosas’29 oferecido pelo yamen durante as festas. Você quer uma tigela…?

    O “vocês” se referia a Ding Songyan e Touro Ding30.

    Antes que Ding Shengyi pudesse terminar a frase, Liu Yuzao olhou para ele em silêncio e imediatamente se calou.

    — Me dê uma tigela, — disse Liu Yuzao, desviando o olhar.

    — Sim, sim, sim! — Ding Shengyi riu enquanto abria a garrafa de vinho e servia uma tigela para si e para sua esposa.

    Touro Ding sentiu o aroma do vinho que se espalhava pelo ar e seu pomo de Adão subiu e desceu, mas ele não se atreveu a pedir um pouco.

    Depois que Ding Songyan serviu sopa fria de feijão doce para seu irmão, sua irmã e para si mesmo, Ding Shengyi ergueu sua tigela de vinho, olhou ao redor da mesa e disse, animada:

    — Que nossa família transforme a adversidade em fortuna e que as bênçãos acompanhem nossas provações!

    Ding Songyan, Liu Yuzao e os outros pegaram suas respectivas “tigelas de vinho” e brindaram com sorrisos, alguns radiantes, outros discretos. Enquanto o tilintar ecoava, suas vozes ressoavam animadas:

    — Transforme a adversidade em fortuna, e que as bênçãos acompanhem nossas provações!

    1. O Imperador Yao, também conhecido como Tang Yao (唐尧), é um dos mais reverenciados soberanos lendários da antiguidade da China e uma das figuras centrais entre os chamados Sábios Imperadores. Nas tradições clássicas chinesas, Yao era lembrado como um governante virtuoso, sábio e benevolente, cujo reinado representava um ideal de harmonia e justiça. Ele é frequentemente associado à organização do calendário, astronomia, rituais e administração do império. As lendas também afirmam que foi durante seu reinado que ocorreram as grandes enchentes que mais tarde seriam controladas por Yu, o Grande. Em vez de passar o trono ao próprio filho, Yao teria escolhido Shun como sucessor por mérito e virtude, tornando-se símbolo do antigo ideal confucionista de governo moral e sábio.[]
    2. Os Cinco Imperadores das Direções (五方五帝) são antigas divindades supremas da cosmologia da China, associadas aos cinco pontos cardeais — leste, sul, oeste, norte e centro — além dos Cinco Elementos, estações, cores, astros e ciclos do universo. Diferente dos “Três Soberanos e Cinco Imperadores” da tradição histórica, esses imperadores pertencem a uma cosmologia religiosa e metafísica muito mais antiga e profundamente ligada ao daoísmo, aos rituais imperiais e às teorias do Yin-Yang e dos Cinco Elementos (Wu Xing). Cada Imperador governa uma direção do mundo, um elemento natural, uma estação do ano, uma cor sagrada e aspectos específicos da ordem cósmica. Em muitas tradições daoístas, eles são vistos como manifestações do próprio funcionamento do universo.[]
    3. O Imperador Negro (黑帝), também chamado de Imperador Negro do Norte (北方黑帝), é o soberano da direção norte dentro da cosmologia dos Cinco Imperadores das Direções. Está associado ao elemento Água, ao inverno, à cor negra e ao princípio do recolhimento, profundidade e ocultação. Em várias tradições religiosas chinesas, o Imperador Negro é ligado às águas profundas, rios, mares, tempestades, frio e ao ciclo da morte e renascimento natural. Também possui relação com Xuanwu, a Tartaruga Negra do Norte, uma das Quatro Bestas Sagradas da astronomia chinesa. Em textos daoistas e esotéricos, o norte era considerado uma direção profundamente ligada ao mistério, ao Yin extremo e aos poderes ocultos do céu e da terra. Por isso, o Imperador Negro frequentemente aparece como uma figura austera, silenciosa e ligada ao julgamento espiritual, ao submundo e às leis invisíveis do cosmos. Em algumas interpretações posteriores, Zhuanxu acabou sendo associado ao Imperador Negro devido à sua ligação com o norte e com o evento de “Separar Céu e Terra” (绝地天通).[]
    4. O Imperador Verde (青帝), também chamado de Imperador Azure do Leste (东方青帝), é o soberano da direção leste e representante do elemento Madeira dentro da cosmologia chinesa. Está ligado à primavera, ao nascimento da vida, ao crescimento, vitalidade, vento e renovação da natureza. O leste era visto como o lugar onde o sol nasce, tornando o Imperador Verde uma manifestação da expansão da vida e do despertar das forças do mundo após o inverno. Em tradições religiosas e alquímicas daoístas, o Imperador Verde governava florestas, vegetação, energia vital e o fluxo ascendente do qi. Também era associado ao Dragão Azul do Leste (青龙), uma das Quatro Bestas Sagradas da astronomia chinesa. Em alguns sistemas cosmológicos, o Imperador Verde era identificado com Fuxi ou Taihao, ancestrais civilizatórios ligados à criação da cultura humana e às leis fundamentais do mundo. Seu domínio representa crescimento, nascimento, criatividade e o início dos ciclos naturais.[]
    5. O Imperador das Chamas (炎帝), também chamado de Imperador Vermelho (赤帝) em alguns sistemas cosmológicos, é uma das figuras mais antigas e importantes da mitologia chinesa. Tradicionalmente identificado com Shennong, o Divino Agricultor, ele é associado ao sul, ao elemento Fogo, ao verão, ao calor, à agricultura, à medicina e à civilização humana. As antigas lendas afirmam que Shennong ensinou os humanos a cultivar plantações, reconhecer ervas medicinais e utilizar remédios naturais, sendo considerado um dos fundadores da medicina tradicional chinesa. Como Imperador do Sul, representa expansão, luz, vitalidade, transformação e atividade máxima do Yang. O sul era visto como a direção do calor, da abundância e da prosperidade. O Imperador das Chamas também possui enorme importância política e ancestral, já que muitas linhagens chinesas antigas afirmavam descender dele. Em várias tradições, ele trava guerra contra o Imperador Amarelo antes da unificação das tribos Huaxia. Em cosmologias daoistas posteriores, o Imperador Vermelho tornou-se uma autoridade divina ligada ao fogo celestial, às estrelas do sul e ao equilíbrio das energias quentes do universo.[]
    6. O Imperador Branco (白帝), soberano do oeste dentro da cosmologia dos Cinco Imperadores das Direções, está associado ao elemento Metal, ao outono, à cor branca e aos conceitos de colheita, declínio, guerra e punição. O oeste era visto como a direção do pôr do sol e do encerramento dos ciclos naturais, fazendo do Imperador Branco uma entidade ligada ao fim das coisas, ao amadurecimento e à inevitabilidade da decadência após o auge da vida. Em antigas crenças chinesas, o Metal simbolizava corte, disciplina, julgamento e autoridade militar. Por isso, o Imperador Branco frequentemente aparece associado a armas, exércitos, punições celestiais e justiça severa. Também possui ligação com o Tigre Branco do Oeste (白虎), uma das Quatro Bestas Sagradas da astronomia chinesa. Em tradições daoístas e esotéricas, o oeste representava a transição entre vida e morte, além do retorno de todas as coisas ao silêncio após completarem seu ciclo. O Imperador Branco governava justamente esse processo de encerramento, purificação e transformação final.[]
    7. Aqui ele está se referindo à uma espécie de tribo ligada ao arqueiro Hou Yi. Apenas relembrando, o nome “Youqiong” significa algo próximo de “Os Possuidores do Grande Arco”.[]
    8. A Dinastia Xia foi a primeira dinastia da tradição histórica da China, tradicionalmente fundada por Xia Yu. Nas fontes clássicas chinesas, sua duração varia conforme os registros, mas geralmente é descrita como tendo existido por cerca de quatrocentos a quinhentos anos.[]
    9. O “Shang do Pássaro Negro” refere-se à dinastia Shang. Segundo antigas lendas chinesas, a linhagem real Shang teria surgido após Jiandi engolir o ovo de um pássaro negro enviado pelos céus, fazendo do pássaro negro um símbolo ancestral da dinastia.[]
    10. O Período da Primavera e Outono foi uma era da história antiga da China marcada pelo enfraquecimento da autoridade central da dinastia Zhou e pela ascensão de inúmeros senhores feudais. O período recebeu esse nome a partir dos Anais de Primavera e Outono, uma crônica histórica tradicionalmente associada a Confúcio.[]
    11. As “Cem Escolas de Pensamento” foram diversas correntes filosóficas que surgiram durante os períodos de guerra e fragmentação da China antiga. Entre elas estavam o confucionismo, daoísmo, legalismo, moísmo e outras tradições intelectuais que disputavam influência política e filosófica.[]
    12. Confucionismo é a tradição filosófica baseada nos ensinamentos de Confúcio. Defendia a importância da moralidade, hierarquia social, dever familiar, rituais e governo virtuoso como fundamento da ordem social.[]
    13. Daoísmo é uma tradição filosófica e religiosa chinesa associada aos ensinamentos do Dao De Jing e de pensadores como Laozi e Zhuangzi. Seus ensinamentos enfatizam harmonia com o Dao, simplicidade, naturalidade e afastamento das excessivas interferências humanas.[]
    14. O Estado de Ying (嬴国) utiliza “Ying”, sobrenome ancestral da casa real Qin. Nas tradições históricas chinesas, a linhagem Ying foi a família governante que posteriormente fundou a dinastia Qin.[]
    15. A dinastia Qin (秦朝) foi a primeira dinastia imperial unificada da história chinesa, fundada por Qin Shi Huang após a conquista dos Estados Combatentes. Embora tenha durado pouco tempo, a dinastia Qin transformou profundamente a estrutura política da China ao substituir o antigo sistema feudal por um governo centralizado controlado diretamente pelo imperador. O governo Qin seguia fortemente a filosofia legalista, defendendo leis rígidas, autoridade absoluta e severo controle estatal. Muitas das bases administrativas e territoriais estabelecidas pelos Qin continuaram influenciando as dinastias posteriores por milhares de anos. O próprio nome “China”, segundo algumas teorias, pode ter derivado da pronúncia de “Qin”.

      Qin Shi Huang, conhecido como o Primeiro Imperador (始皇帝), foi o fundador da dinastia Qin e o primeiro soberano da história da China a unificar grande parte dos antigos estados combatentes sob um governo imperial centralizado. Originalmente rei do Estado de Qin, derrotou os demais reinos durante o Período dos Reinos Combatentes e adotou o título de “Huangdi” — Imperador — para simbolizar que sua autoridade superava a dos antigos reis. Durante seu governo ocorreram grandes reformas políticas, administrativas e militares, incluindo a padronização da escrita, moedas, pesos, medidas e estradas. Também é amplamente associado à construção inicial da Grande Muralha e ao famoso Exército de Terracota enterrado próximo de seu mausoléu.[]
    16. A dinastia Han foi uma das mais importantes dinastias da história chinesa, sucedendo a dinastia Qin. Durante seu governo ocorreram grande expansão territorial, fortalecimento burocrático, consolidação do confucionismo e abertura de rotas comerciais como a Rota da Seda.[]
    17. O período dos Três Reinos foi uma era de fragmentação e guerra após a queda da dinastia Han. Os reinos de Wei, Shu e Wu disputaram o controle da China, tornando-se um dos períodos mais famosos da história e literatura chinesa.[]
    18. A dinastia Wei (魏朝) normalmente se refere ao Cao Wei, um dos Três Reinos da história da China após a queda da dinastia Han. Fundada por Cao Pi, filho do famoso senhor da guerra Cao Cao, a dinastia Wei controlava o norte da China e era considerada o reino mais poderoso entre Wei, Shu e Wu. O período ficou marcado por guerras constantes, intrigas políticas e pelo surgimento de figuras lendárias da literatura chinesa, especialmente através do Romance dos Três Reinos. Culturalmente, a era Wei também foi importante para o desenvolvimento da filosofia, poesia e pensamento metafísico, especialmente com o crescimento do chamado “Estudo do Mistério” (玄学), que misturava conceitos daoístas e confucionistas.[]
    19. A dinastia Jin (晋朝) sucedeu o reino Wei após a família Sima tomar o poder e encerrar oficialmente o período dos Três Reinos. A dinastia conseguiu reunificar temporariamente a China, mas enfrentou graves disputas internas, revoltas e invasões de povos não han pouco tempo depois. Um dos eventos mais famosos do período foi a Guerra dos Oito Príncipes, uma série de conflitos entre membros da família imperial que enfraqueceu profundamente o império. A partir daí, o norte da China mergulhou em séculos de fragmentação e migrações.[]
    20. Taizu era um título póstumo frequentemente dado aos fundadores de dinastias chinesas. Normalmente designava o soberano responsável por conquistar o império e estabelecer uma nova linhagem imperial.[]
    21. Fu (赋) é um estilo literário clássico chinês que mistura prosa e poesia em composições longas e descritivas, muito popular durante as dinastias Han e anteriores.[]
    22. Shi (诗) é a forma poética mais tradicional da literatura chinesa, caracterizada por versos estruturados e ritmo formal. Tornou-se especialmente influente durante a dinastia Tang.[]
    23. Ci (词) é uma forma poética chinesa composta para acompanhar melodias musicais específicas. Diferente do shi, seguia padrões rítmicos ligados a canções e floresceu especialmente durante a dinastia Song.[]
    24. “Zhuangzi sonhando com a borboleta” é uma famosa alegoria filosófica do pensador daoísta Zhuangzi. Na história, ele sonha que é uma borboleta e, ao despertar, questiona se era Zhuangzi que sonhou ser uma borboleta ou uma borboleta sonhando ser Zhuangzi. O trecho discute a natureza da realidade, identidade e ilusão.[]
    25. Os Quatro Tesouros do Estudo são os instrumentos tradicionais da caligrafia e erudição chinesa: o pincel, a tinta, o papel e a pedra de tinta usada para moer a tinta sólida. Eram considerados itens essenciais para estudiosos e oficiais letrados.[]
    26. O vinho de realgar (雄黄酒) era uma bebida ritual tradicional preparada com realgar, um mineral contendo arsênico. Na cultura popular chinesa, acreditava-se que ele podia expulsar venenos, insetos, demônios e espíritos malignos.[]
    27. O Festival do Barco-Dragão (端午节), também chamado de Festival do Duplo Cinco, é um tradicional festival da China celebrado no quinto dia do quinto mês do calendário lunar. Sua origem mais famosa está ligada ao poeta e ministro Qu Yuan, do antigo Estado de Chu, que teria se lançado ao rio após o colapso de sua pátria. Segundo a tradição, o povo saiu em barcos para procurar seu corpo e jogou bolinhos de arroz nas águas para impedir que peixes e espíritos o devorassem, dando origem às corridas de barcos-dragão e ao costume de comer zongzi.[]
    28. “Sob o Monte Qingcheng vive Bai Suzhen” faz referência à canção 《青城山下白素贞》, uma música extremamente famosa ligada às adaptações televisivas da Lenda da Serpente Branca.[]
    29. “Orvalho de Rosas” (蔷薇露) era o nome dado a bebidas aromáticas, licores suaves ou águas perfumadas produzidas a partir de rosas e outras flores na antiga China. Produtos desse tipo eram considerados refinados e frequentemente associados a festividades, banquetes e presentes oficiais.[]
    30. Apenas relembrando, mantivemos essa adaptação seguindo a escolha do tradutor em inglês. O termo 大牛 (“Daniu”) transmite a ideia de alguém simples, forte e trabalhador, literalmente algo próximo de “Grande Boi” ou “Touro”. É um tipo de nome relativamente comum em áreas rurais da China e carrega um tom popular e pouco refinado, reforçando a origem humilde do personagem. O nome em si não é particularmente respeitoso ou sofisticado; o autor o utiliza justamente para destacar sua natureza bruta e direta.[]

    Pix da equipe:
    Vento Leste (tradutor) – cd257395-b041-4a84-ac90-7489444b88cd
    Porta (revisor) – ccb30f8a-8453-4908-a0c5-955a825ec93f

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