Capítulo 2876 - Resíduo Mental
Tudo aconteceu exatamente como Mordret havia previsto.
O nome da Criatura dos Sonhos se espalhou como uma praga, infectando as pessoas para que elas acelerassem ainda mais a disseminação. Estrela da Mudança e o Senhor das Sombras se esforçaram para detê-la, mas foi em vão.
Em pouco tempo, Asterion anunciou sua existência ao mundo e, em questão de dias, não havia uma alma nos dois mundos que não o tivesse em mente. Então, ele contaminou a humanidade com outra ideia…
Será que a Estrela da Mudança é confiável?
Mesmo que as pessoas respondessem que sim, a semente da dúvida já estava plantada em suas mentes. E essa semente abriu os portões de seus corações para que a Criatura dos Sonhos pudesse passar. Ao mesmo tempo, Estrela da Mudança e o Senhor das Sombras hesitaram em atrair Asterion para uma batalha aberta, pois ele estava usando todas as pessoas em Bastion como escudo.
Cada vez mais humanos caíam sob o feitiço da Criatura dos Sonhos, alimentando seu Domínio. E à medida que seu Domínio se tornava mais poderoso, Asterion também se tornava mais poderoso. Ele já era mais temível do que nunca e mais forte a cada dia.
Mordret esperou, sabendo que o tempo de observar e se preparar havia acabado. Agora era a hora de agir. Ele queria viver…
Então todos os outros tiveram que morrer. Finalmente, Mordret deixou as Montanhas Ocas e desceu até a Colina Vermelha. Havia inúmeras pessoas vivendo ali, então ele travou incontáveis duelos de almas simultaneamente. De pessoas comuns ao senhor transcendente da cidade, ele derrotou todos.
Foi estranho, no entanto…
Quando um milhão de encarnações de Mordret entraram em um milhão de almas. Ele não estava sozinho lá.
As almas das pessoas comuns eram fracas demais para lhe oferecer qualquer resistência. Afinal, eram Adormecidas e, portanto, desprovidas de consciência. Tudo terminou num instante.
Aqueles que eram Despertos ou de Nível superior, porém, tinham que ser enfrentados em combate. Lá fora, no espaço liminar da arena da alma, Mordret só podia empunhar as mesmas armas que seus inimigos — ele podia refletir seus Aspectos e Memórias, mas nada além disso.
Ainda assim, ele era um Supremo. Lidar com os guerreiros da Colina Vermelha não representava grande problema. Contudo, mesmo destruindo suas almas, Mordret não conseguia se livrar de uma sensação sinistra.
Foi então que ele percebeu uma estranha anomalia. Parecia haver uma terceira figura na arena — uma presença que não podia ser vista nem sentida, mas que sussurrava aos ouvidos das pessoas fascinadas.
Não podia ser visto nem ouvido, mas refletia-se nas águas calmas de inúmeros Mares da Alma, como uma figura vaga pintada na superfície plácida.
E enquanto Mordret usava os corpos dessas pessoas como receptáculos, os sussurros fantasmagóricos daquela figura continuavam a chegar aos seus ouvidos.
‘Caramba…’
Era disso que Mordret tinha medo, e também a razão pela qual ele se mantinha o mais longe possível de Asterion.
Mesmo que sua mente fosse tão vasta que até ele lutasse para mantê-la íntegra, por mais poderosa e feroz que fosse a grande massa de suas encarnações, construída como uma fortaleza com muralhas inexpugnáveis… mesmo que sua alma estivesse marcada com a marca do Demônio do Destino…
Ele ainda não era totalmente imune aos poderes insidiosos de Asterion.
A conquista da Colina Vermelha o expôs à Criatura dos Sonhos. Ele resistiu em grande parte aos pensamentos e emoções que o terrível Supremo tentara implantar em sua mente e coração, mas algum resíduo ainda permaneceu… como uma camada de poeira cobrindo um imenso espelho.
Não foi o suficiente para convencer Mordret, mas foi o bastante para preocupá-lo. Contudo, agora não havia como detê-lo. Ele estava absolutamente convencido de que Asterion se tornaria imparável assim que toda a humanidade fizesse parte de seu Domínio, então o tempo era essencial.
Mordret precisava destruir a humanidade antes que Asterion pudesse devorá-la. E assim, começou sua guerra contra o mundo inteiro.
Mordret conquistou o Inferno de Vidro, a Sepultura dos Deuses, as Planícies do Rio da Lua, as Ilhas Acorrentadas e todas as regiões entre elas e as Montanhas Negras. Ele paralisou a bacia do Rio das Lágrimas e empurrou as forças do Domínio Humano para o sul.
No processo, ele massacrou um grande número de pessoas. O número de mortos na Colina Vermelha foi de longe o maior, mas as baixas entre os guerreiros Despertos do Domínio Humano também não foram insignificantes. A cada morte, Mordret sentia o mundo se tornar um pouco mais sem graça. Ele não estava gostando nem um pouco da guerra que tinha que lutar.
Mas o que ele poderia fazer? Era preciso lutar e vencer. Do contrário, seria a morte dele que tornaria o mundo menos interessante. Então, ele persistiu. Tentou travar alguns duelos de almas enquanto podia, não querendo deixar as garras de Asterion penetrarem ainda mais fundo em sua mente.
Mas, por mais que Mordret se esforçasse, algum grau de contaminação era inevitável. Ele precisava conquistar mais corpos para estancar o desgaste de seu exército, e mesmo que não se envolvesse em duelos de almas, a mera proximidade com os servos da Criatura dos Sonhos piorava um pouco sua condição.
E ele também tinha que enfrentar Asterion cara a cara em algumas ocasiões, como durante a batalha pelo Lago das Lágrimas. A cada confronto, a mente de Mordret ficava um pouco mais contaminada.
Lentamente e gradualmente — era assim que ele se entregava aos poderes da Criatura dos Sonhos. E não é que a solução apareceu por conta própria? Olhando para o corpo inconsciente da Canção dos Caídos, Mordret deu uma risadinha.
Ali estava a única mulher existente capaz de apagar a maldição de Asterion da mente de uma pessoa. Então, no fim das contas, ele tinha um uso para ela. Ao olhar para a Princesa das Sombras, Mordret sorriu.
“Sabe de uma coisa? Decidi não te matar, afinal. Não precisa me agradecer.”
A jovem o encarou em silêncio por um instante.
“Que ótimo! Muito gentil da sua parte. Mas…”
Ela fez uma pausa e então perguntou em tom exasperado:
“Quem diabos é você, senhor? Onde diabos estamos? Que diabos está acontecendo?”
Mordret riu.
“Eu? Ah… eu não sou ninguém.”

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