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    Liberação, Revolução, Conspiração, Et Cetera – Parte II


    O líder do órgão autônomo de El Facil era um homem de quarenta anos chamado Francesicu Romsky, que originalmente era médico. Desde os tempos antigos, médicos, professores, advogados e estudantes vinham sendo importantes fontes de revolucionários, de modo que também se poderia dizer que ele estava dando continuidade à antiga tradição.

    Onze anos antes, na época da chamada Fuga de El Facil, ele havia sido um dos civis que cooperaram com o Subtenente Yang Wen-li, o oficial encarregado da evacuação, embora, para Yang, qualquer lembrança de seu nome ou rosto tivesse afundado nas profundezas do esquecimento e nem sequer aparecesse à superfície para ele. De qualquer forma, ele havia esquecido até mesmo sua atual esposa, Frederica, até que ela o lembrasse de quem era, então não havia a menor chance dele se lembrar de algum coadjuvante qualquer.

    Frederica, cuja memória era muito mais organizada do que a do marido, não havia esquecido Romsky. Ele havia tratado sua mãe doente em mais de uma ocasião e ela o havia convidado para tomar café e comer sanduíches. 

    Romsky também se lembrava daquela garota loira de olhos castanhos impressionantes. Sorrindo de orelha a orelha, o médico que se tornou revolucionário apertou as mãos do Sr. e da Sra. Yang. 

    Yang Wen-li recuou interiormente; a imprensa que cercava Romsky tinha suas câmeras alinhadas como uma bateria de canhões. 

    No dia seguinte, 10 de dezembro, os jornais eletrônicos de El Facil estavam repletos exatamente do tipo de manchetes que Yang havia previsto.

    “Yang Wen-li está de volta! O milagre de El Facil se repete!” 

    “Aí está”, disse Yang. “É por isso que eu não queria fazer isso.”

    Yang segurou a cabeça com as mãos, mas, no fim das contas, não teve escolha a não ser desempenhar o papel da imagem projetada que suas próprias ações e sucessos haviam estabelecido. Ele havia passado de herói de uma nação democrática a herói de uma revolução democrática — e sua reputação como um almirante brilhante e invencível só iria se tornar ainda mais amplamente divulgada.

    Quanto ao governo revolucionário de El Facil, ter o grupo de Yang se juntando às suas fileiras não significava apenas um salto quântico no poder de suas forças militares, significava que eram eles que o maior líder da Aliança dos Planetas Livres havia reconhecido como uma administração legítima, empenhada na política comprovada da democracia republicana. Paralelamente à sua alegria, eles queriam usar isso ao máximo.

    Era óbvio por que Romsky pretendia manter um relacionamento próximo com os jornalistas, tanto do ponto de vista dos ideais da democracia republicana quanto da estratégia de inteligência da revolução. 

    Yang, é claro, não podia revelar publicamente seu repúdio interior. O acesso público era um pilar da democracia republicana. Se ele preferisse o sigilo e a não divulgação, teria sido melhor se aliar aos totalitários; em vez disso, Yang teve que subjugar seus sentimentos pessoais e sorrir para as câmeras.

    Apesar disso, na magnífica cerimônia de boas-vindas realizada em sua homenagem, Yang conseguiu terminar seu discurso em meros dois segundos: “Sou Yang Wen-li. Prazer em conhecê-los.”

    Isso decepcionou os dez mil participantes, que pareciam estar esperando um discurso comovente e apaixonado, mas se ele produzisse resultados, isso acabaria compensando tais decepções. 

    Quando Yang se sentou novamente, Romsky disse-lhe em voz baixa: “Almirante Yang, acho que nosso novo governo precisa de um nome…”

    “Sim, claro…”

    “Gostaria de anunciar isso formalmente amanhã, mas o que você acha de ‘Governo Legítimo da Aliança dos Planetas Livres’?”

    Seguiu-se um longo silêncio — o equivalente psicológico de Yang a dar uns três passos vacilantes. Ele queria acreditar que Romsky estava brincando, mas era óbvio que não era o caso. Quando Yang não respondeu imediatamente, Romsky olhou para ele novamente, um tanto inquieto.

    “Você não gostou?”

    “Não é isso. É só que… você realmente acha que é necessário discutir sobre a legitimidade nacional? Acho que você deveria enfatizar o fato de que está começando do zero…”

    Yang expôs seu argumento da forma mais discreta possível. Ele não queria que pensassem que estava impondo sua opinião a Romsky com as forças armadas como pano de fundo.

    “É isso mesmo”, disse Dusty Attenborough, que havia adivinhado o estado de espírito de Yang e vindo para dar reforço. “Em primeiro lugar, chamar-se de ‘governo legítimo’ é simplesmente azar. Lembra-se do exemplo recente do ‘Governo Imperial Galáctico Legítimo’?”

    Attenborough, ao que parecia, havia conseguido sintonizar-se com a frequência psicológica do Dr. Romsky. O revolucionário assentiu e disse que isso certamente era um mau presságio e que tentaria pensar em outra coisa. Mesmo assim, ele parecia um pouco decepcionado.

    “Almirante Yang, por favor, não se irrite com pequenas coisas como essa”, sussurrou Dusty.

    “Montanhas mais altas do que essa certamente surgirão no futuro.”

    “Eu sei disso”, sussurrou Yang de volta, e não era inteiramente uma formalidade vazia.

    Mesmo que tivesse algumas — ou melhor, muitas — falhas, ele não podia se dar ao luxo de deixar esse minúsculo e impotente broto de democracia ser cortado. Se ficasse de braços cruzados, todo o espaço habitado seria envolvido pelas palmas brancas de uma personalidade mais eminente e elegante. A questão agora não eram as próprias habilidades ou a consciência de Reinhard. Nem a impressão favorável que Yang tinha de Reinhard pessoalmente era um problema. O que não podia ser permitido era que todo o universo fosse governado por um sistema ingênuo de governo dependente dos talentos e qualidades de um único indivíduo.

    Em vez de terem as justificativas de um deus solitário e absoluto impostas a eles, era infinitamente melhor ter muitas pessoas insignificantes agitando suas próprias justificativas mesquinhas e tolas e prejudicando umas às outras. Misture todas as cores em uma e tudo fica preto; uma confusão caótica de muitas cores era preferível à pureza sem cor. Não havia nada de inevitável em todas as sociedades humanas serem unidas sob um único sistema de governo.

    Em certo sentido, poderia-se dizer que esses pensamentos de Yang não eram inteiramente desprovidos de elementos contrários às repúblicas e democracias. Afinal, a maioria dos republicanos democráticos sem dúvida desejava que o universo fosse unido por suas ideias e rezava pelo fim da autocracia.

    Mesmo assim, isso também não poderia ser mais irônico. Quando o enorme corpo do Império Galáctico da Dinastia Goldenbaum, abatido pela idade, desmoronou com ruídos silenciosos, a Aliança dos Planetas Livres, após dois séculos e meio de resistência inabalável, havia se tornado oca e devorada por cupins.

    “Será, então, que o significado histórico da Aliança dos Planetas Livres não terminou com sua oposição à tirania, mas com sua oposição a von Goldenbaum?”

    Isso era algo em que Yang já havia pensado antes e, embora as coisas, na sua opinião, parecessem realmente ser assim, teria sido impróprio da parte dele decidir que era mesmo assim. Toda a história desde que seu pai fundador, Ahle Heinessen, partiu corajosamente na Longa Marcha de 10.000 Anos-Luz, todas as esperanças, paixões, ideais e ambições acumuladas de inúmeras pessoas — uma camada de dois séculos e meio de alegria, raiva, tristeza e deleite — seriam todas essas coisas apenas coisas empilhadas sobre o cadáver de um único homem, Rudolf von Goldenbaum?

    É claro que, quando se coloca dessa forma, até mesmo o belo conquistador Reinhard von Lohengramm talvez não fosse diferente. Ele partiu para derrotar a Dinastia Goldenbaum e, embora tivesse realizado essa ambição, isso não teria sido nada mais do que empurrar o fantasma de Rudolf de volta para debaixo de sua lápide? 

    Romsky ainda falava em tom acalorado sobre um novo nome, uma nova bandeira e um novo hino para sua nação. 

    Enquanto acenava com a cabeça nos momentos apropriados, os pensamentos de Yang corriam pela escuridão do passado, bem como pelo labirinto do futuro…

    Foi assim que os “Irregulares” se tornaram a “Reserva Revolucionária”. 

    O Comandante Olivier Poplin diria mais tarde sobre o assunto: “Roupas de inverno no inverno, roupas de verão no verão. Seja o que for que você vista, porém, o que está por dentro não muda.”

    O Oficial Comandante era o Marechal Yang Wen-li, e seu Chefe de Estado-Maior era o Almirante Sênior Wilibard Joachim von Merkatz. O Vice-Almirante Alex Caselnes tornou-se Gerente de Serviços de Retaguarda. O Presidente do Governo, Romsky, acumulava a função de Presidente de Assuntos Militares. Yang sentiu um leve alívio. Ter apenas um chefe era algo pelo qual se sentir grato.

    Mas a chegada de Yang a El Facil foi recompensada por uma alegria ainda maior — seu reencontro com Julian Mintz e Olivier Poplin.

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