Capítulo 7 - Jogo de Combate - Parte I (Combo 36/50)
Jogo de Combate – Parte I
MUROS DE CHAMAS LARANJAS haviam transformado um trecho da rodovia em uma pintura a óleo viva. Bombeiros e equipes de resgate circulavam entre os cadáveres e os destroços de carros, enquanto as sirenes aumentavam a inquietação das pessoas. A noite estava repleta de tensão, espalhando-se pela capital da aliança, Heinessen.
Em uma colina a um quarteirão de distância, um grupo de soldados armados observava a carnificina tanto a olho nu quanto com binóculos de visão noturna.
Três ex-soldados das Forças Armadas da Aliança, vestidos com uniformes militares, estavam no centro do grupo: o Vice-Almirante aposentado Walter von Schönkopf, o Vice-Almirante aposentado Dusty Attenborough e a Capitã-Tenente aposentada Frederica G. Yang, agora comandantes de uma “força rebelde” contra o governo da Aliança. Quando Frederica se casou com Yang e os outros dois entregaram suas cartas de demissão, eles já haviam feito sua escolha entre Yang Wen-li e o governo da Aliança.
Seguindo a definição de que “estratégia é a arte de criar uma situação, e tática, a arte de tirar proveito de uma situação”, era seguro dizer que von Schönkopf e Attenborough haviam agido como estrategistas de primeira linha esta noite.
“Primeiro, provocamos um grande alvoroço.”
O governo da Aliança planejava secretamente matar o Almirante Yang, a quem havia prendido injustamente sem nenhuma prova. O medo de uma invasão da Marinha Imperial estava se transformando em pânico e, mesmo sem o envolvimento do Almirante Yang, eles se iludiam ao pensar que poderiam proteger a nação do perigo. Nesse momento, o objetivo da força rebelde era provocar uma invasão imperial, permitindo assim que resgatassem Yang.
“Em segundo lugar, controlamos esse tumulto.”
Se o caos resultante não fosse controlado, então suas negociações com a Marinha Imperial também se tornariam difíceis demais de lidar, e eles poderiam acabar invocando não o Comissário Lennenkamp, a raposa, mas o Imperador Reinhard, o tigre.
Ao organizar o caos, por assim dizer, Lennenkamp se sentiria confiante o suficiente para enfrentá-los sozinho. De qualquer forma, eles precisariam ganhar algum tempo. Assim que tivessem Yang em seu poder, fugiriam de Heinessen e se reuniriam com Merkatz e os demais.
O que se seguiu foi a ideia de Yang Wen-li. E era por isso que estavam resgatando-o, em primeiro lugar — para tornar essa ideia realidade.
“O problema é se o Almirante Yang vai aceitar?”
“Ele provavelmente não dirá que sim, mesmo que o pressionemos. Naturalmente, será diferente se for a esposa dele quem propuser isso. Caso contrário, ele pode apodrecer na prisão e então ninguém será capaz de salvá-lo.”
Enquanto von Schönkopf dizia isso, Attenborough deu de ombros.
“Tenho pena do Almirante Yang. Ele finalmente tinha tirado aquele uniforme e sido devidamente abençoado com uma esposa e uma pensão.”
Von Schönkopf piscou para Frederica.
“Os jardins existem apenas para serem devastados por necrófagos. Ninguém deveria guardar uma bela flor só para si.”
“Oh, muito obrigada. Mas talvez eu queira ser guardada só para alguém.”
Os dois Vice-Almirantes aposentados então notaram a mala aos pés dela.
“O que há com a mala, Tenente-Comandante?”, perguntou Attenborough.
“É o uniforme militar dele”, respondeu Frederica com um sorriso aberto.
“Acho que fica melhor nele do que qualquer roupa formal.”
Então nenhuma outra roupa lhe fica bem, não importa o que ele vista, pensou von Schönkopf consigo mesmo.
“Talvez eu devesse renunciar à minha vida de solteiro também”, sussurrou Attenborough para o céu noturno.
“Parece-me uma boa ideia. Mas antes de fazê-lo, vamos despachar este trabalho, e rápido.”
Von Schönkopf soltou um assobio agudo, incitando seus soldados armados à ação.
Temendo que o governo da Aliança fosse notificado da situação pela Marinha Imperial, eles duvidavam que houvesse algo que pudessem fazer para encobrir o fato e, assim, decidiram marchar de cabeça erguida em direção à tempestade. Talvez essa força rebelde fosse bem sucedida, afinal.
O Presidente do Conselho da Aliança dos Planetas Livres, João Lebello, soube do incidente no momento em que estava prestes a sair do escritório ao final do dia.
O rosto impassível do Almirante Rockwell na tela de comunicação fitava o Presidente, que ficou surpreso ao saber do motim do Regimento Rosen Ritter e concluiu seu relatório.
“Assumo humildemente toda a culpa por este fracasso, embora, para que conste, eu sempre tenha sido contra esse tipo de tática dissimulada.”
“É um pouco tarde para dizer isso agora.”
Lebello mal conseguiu se conter para não gritar de raiva. Tinha-lhe sido garantido que não haveria problemas técnicos na fase de execução. E antes de se eximir de qualquer responsabilidade, precisava derrotar essa força rebelde.
“É claro que vou derrotá-los. Mas se a situação sair do controle e a Marinha Imperial ficar sabendo, eles certamente intervirão. Seria bom você ter isso em mente.”
Rockwell já não via muita necessidade em tentar ganhar o respeito do Presidente. Sua expressão descarada desapareceu da tela.
Após alguns segundos de deliberação, Lebello ligou para o homem que o havia instruído sobre essa “tática astuta”, o Presidente da Universidade de Governança Autônoma Central, Oliveira. Ele já havia voltado para casa, mas quando soube que von Schönkopf e o outros haviam conseguido fugir e lançado um contra-ataque total e depois de ser repreendido por seu plano fracassado, ele havia ficado sóbrio do conhaque fino que vinha saboreando.
“Como você pode dizer uma coisa dessas?”
Agora era o cérebro por trás da operação que o acusava de injustiça. Ele sempre interpretara a lei tal como estava escrita e no melhor interesse daqueles que a aplicavam.
Por legalizar certos privilégios, colhera pequenas recompensas e nunca assumira a responsabilidade por qualquer efeito cascata de suas decisões. Ele simplesmente propunha planos e deixava a implementação para os outros. Elogiava suas próprias habilidades de planejamento, mesmo enquanto menosprezava a capacidade dos outros de fazer as coisas acontecerem.
“Presidente, não me lembro de ter forçado sua mão quando lhe apresentei minha proposta. Tudo o que aconteceu desde então é resultado de seu próprio julgamento. Além disso, exijo proteção armada para que nenhum mal me aconteça.”
Percebendo que não podia contar nem com força física nem com inteligência, Lebello saiu do prédio do conselho e entrou em seu carro. Ele era um navio afundando. Não, disse a si mesmo, o governo da Aliança era o navio e ele era seu capitão incompetente.
Para Lebello, não passava de retribuição cármica o fato de estar programado para assistir a uma ópera naquela noite com o Alto Comissário Imperial. Se ele não aparecesse, o Comissário poderia suspeitar de algo. E assim, ele seguiu para a Ópera Nacional para desperdiçar as próximas duas horas de sua vida.
O carro de Lebello estava ladeado por veículos de escolta de ambos os lados. Enquanto normalmente um carro era o padrão, tal proteção aumentava na mesma proporção em que diminuía a capacidade de governar. Até o final do ano, quatro carros provavelmente se transformariam em oito. Seu arrependimento crescia a cada segundo que passava. Lebello cruzou os braços e olhou com cara feia para a nuca do motorista. O secretário que viajava com ele tentava ao máximo evitar olhar para o chefe, voltando sua atenção para a paisagem noturna lá fora, quando de repente ele levantou a voz. Lebello voltou o olhar para a janela e congelou. Vários carros haviam feito repentinamente conversões em U ilegais e corriam em direção a eles, contra o tráfego. Aparentemente, eles haviam desativado os controles automáticos e estavam dirigindo totalmente manualmente.
Os motoristas gritavam insultos para o secretário. Do teto solar de um carro que se aproximava sobre eles, viram um soldado emergir com uma arma de mão.
O homem encostou a arma ao ombro, cruzou o olhar com o de Lebello e riu sem emitir som. Lebello sentiu um pedaço de gelo deslizar por suas costas. Como alguém em uma posição de alto poder, ele já havia se resignado a ser alvo de terroristas, mas ter o cano de uma arma tão grande apontado para si esmagou sua determinação teórica e despertou um medo profundo em seu lugar.
Flechas de fogo foram disparadas, e um rugido estrondoso rasgou a noite. Os veículos de escolta explodiram em bolas de chamas amarelas, rolando pela estrada. Quase no mesmo instante, aquelas duas bolas de fogo se dividiram em quatro, cercando o veículo de Lebello em um anel ofuscante.
“Não pare. Continue”, gritou Lebello, com a voz subindo em tom.
Mas o motorista decidiu render-se. A ordem de Lebello foi ignorada e a paisagem em rápida mudança fora de sua janela parou de repente. Cercado por veículos desconhecidos, Lebello saiu de seu carro terrestre no meio deles, sem sentir grande dignidade ao fazê-lo. O Presidente do Conselho, cujos ombros agora carregavam um sentimento de derrota, foi abordado pelo mesmo homem que acabara de destruir os carros de escolta com uma pistola. Seus ombros estavam agora livres daquele fardo.
“Presidente do Alto Conselho, Sua Excelência Lebello, presumo?”
“E quem é você?! O que significa tudo isso?”
“Meu nome é Walter von Schönkopf e, a partir deste momento, o senhor acaba de se tornado nosso refém.”
Lebello tentou freneticamente acalmar o coração e a respiração. “Ouvi falar muito de você.”
“O prazer é todo meu”, respondeu von Schönkopf sem um pingo de entusiasmo.
“Por que todo esse drama?”
“Eu deveria perguntar o mesmo a você. Entre nós dois, você pode realmente dizer com orgulho que tratou Yang Wen-li de forma justa?”
“Por mais que me doa dizer isso, o destino de uma nação não é algo a ser examinado através do prisma dos direitos de um único indivíduo.”
“Uma nação que faz tudo o que pode para salvaguardar os direitos humanos individuais seria uma nação democrática, não seria? Sem falar no fato de que Yang Wen-li fez mais por esta nação do que todos nós juntos.”
“Você acha que meu coração não está angustiado? Eu sei que é injusto. Mas garantir a sobrevivência de nossa nação está acima de tudo.”
“Entendo. Então, você é um político íntegro quando se trata do bem comum?” Um sorriso amargo traçou uma linha oblíqua no rosto elegante de von Schönkopf. “E, no entanto, no fim das contas, vocês, figurões, sempre acabam ficando do lado dos danos colaterais. Cortar as próprias mãos e pés é doloroso, sem dúvida. Mas, da perspectiva desses mesmos membros, quaisquer lágrimas que você derrame soam simplesmente como hipocrisia. Que homem lamentável — não, que grande homem — você é por ter sacrificado seu próprio interesse em nome da nação. Como é mesmo aquele ditado? ‘Derramar lágrimas ao abater seu cavalo’? Hmph. Enquanto você conseguir sobreviver sem se sacrificar, pode derramar quantas lágrimas de alegria quiser.”
Lebello desistiu de tentar se justificar. Claramente, submeter-se à desonra não passava da arrogância de um homem no poder.
“E o que você pretende fazer agora, Vice-Almirante von Schönkopf?”
“Apenas o que é mais sensato nesta situação”, disse o Vice-Almirante aposentado com calma. “Yang Wen-li nunca foi adequado para desempenhar o papel de herói trágico. Como membro da plateia, tenho a intenção de manipular o roteiro. Não tenho aversão a usar violência, conforme a situação exigir. E a situação”, acrescentou von Schönkopf com outro sorriso, “de fato exige isso.”
Lebello não percebeu qualquer concessão ou conciliação naquele sorriso. Ele nunca se comprometeu a ser uma ferramenta para os outros.
[TR/Leandor: von Schönkopf, por incrível que pareça, é mais pró-democracia que todos esses palhaços do governo, se você sacrifica a liberdade e seus direitos em nome da segurança, você fica sem os direitos/liberdades e sem a segurança. No momento que o governo sacrifica os direitos alheios em nome da nação, ele está verdadeiramente deixando de ser uma democracia, o estado democrático de direito se faz sob a lei, se a lei só serve para justificar as arbitrariedades do governo e é solenemente ignorada na hora de defender os direitos do cidadão, já não é mais estado democrático de direito, se tornou uma ditadura. A democracia nesse sentido não precisa ser defendida, ou ela existe e as leis são cumpridas ou as leis são ignoradas e ela deixou de existir, desconfie de todos aqueles que se dizem salvadores da democracia, são na realidade lobos em pele de cordeiro, verdadeiros tiranos.]

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