Capítulo 1: Pureza (4)
Tradução: Nimsay
A facção de Hegrian anunciou oficialmente a sua retirada do projeto e essa grande notícia logo se espalhou por toda Éden, mostrando que o projeto Escolha-me! Gacha Infinito foi frustrado.
— Esta noite, uma frota de fuga será preparada na pista de pouso em frente ao quartel-general. — O discurso de Hegrian foi transmitido em um canal da televisão dedicado à Éden. — Esta frota será a última a deixar Mobius. Se você quiser escapar, junte-se sem hesitação. Não rejeitaremos ninguém.
O gelo no copo tremeu por um instante, antes que Tell tomasse um gole de vinho tinto.
— Vou dizer de novo. Esta noite, uma frota de fuga chega na pista de pouso em frente ao quartel-general…
Tell gesticulou e a tela desligou. — Você está determinado a dividir a cidade e está abertamente fazendo uma transmissão só para dizer que você está fugindo.
Tell está sentada sozinha no escritório vazio das CEOs. Ela girou a cadeira de couro e tomou um gole de vinho.
— Quantas pessoas vão sair daqui?
Mas ninguém respondeu às perguntas dela. Ikar estava ausente, dizendo que tinha um trabalho urgente a fazer.
— Pelo menos um terço. Se isso continuar, será difícil operar.
O estilo de governo de Tell e Ikar está mais próximo da democracia de alguns países do planeta Terra1. Individualismo, priorizando a própria opinião em detrimento da opinião de um todo.
Ikar disse para aos espíritos e deuses para fazerem o que quiserem, pois a liberdade estava garantida e que eles têm o direito de viver sua própria vida.
— Então será assim que acaba.
Se a cidade tivesse sido rígidamente controlada, tal transmissão não teria perturbado a atmosfera. Deve estar acontecendo um alvoroço por toda parte e quase metade dos habitantes provavelmente está se preparando para escapar.
— Hum…
Tell pode impedir esse incitamento trivial com um único aceno de mão, mas não fez isso.
Não há frustração pelo fracasso do projeto. Não há arrependimento que Mobius tenha acabado. Apenas estava esperando.
‘Mas… o que estou esperando?’
Ontem à noite, Ikar na sala de conferências me veio à mente. Minha irmã mais nova estava em conflito. Eu não sabia qual era a resposta certa e não sabia o que fazer.
‘Se eu fosse humana… isso não teria acontecido?’
— Vamos parar. Vamos desistir e sair daqui juntos. Vamos viver uma nova vida… — Hegrian continuou na televisão.
‘Isso não vai acontecer.’
Como deusa da pureza, Tell não podia negar sua essência ou a pureza de Ikar.
‘Porque eu vi.’
Tell não pode negar sua pureza, porque ela nasceu assim. Minha irmã mais nova esperava desesperadamente por isso.
‘Contanto que você desista.’
Se você desistisse dessa misericórdia poderíamos começar de novo. Não como as deusas da misericórdia e da pureza, mas como outra coisa.
Como um ser com mente humana.
Às vezes é bom e às vezes é mau. Que às vezes amam e às vezes odeiam. Seriam um ser muito complexo.
— Hehehe… — Tell bebeu sua taça de vinho de uma só vez e uma risada vazia lhe escapou. — Eu sei.
‘Eu sei porque eu sou a outra você. Sei qual decisão irá tomar. E você também sabe as minhas, eu acho. Você sabe o que vou fazer, não é? Porque nós somos uma.’
Vrrrr. O celular no meu bolso tremeu com a mensagem de texto da minha irmã.
Gostaria que você fosse ao décimo segundo andar do subsolo da nossa sede.
Tell levantou-se da cadeira e entrou no elevador, enquanto a noite se aproximava lentamente.
Ela estava indo para o porão da sede da Mobius, um local onde poucos funcionários entravam e saíam. Porque era domínio de Rucadis, o diretor do jogo.
A entrada não era permitida, exceto para os altos executivos e alguns espíritos diretamente relacionados ao diretor.
‘O décimo segundo andar subterrâneo.’
Ding. A porta do elevador se abriu e o ar único, denso e estagnado entrou no nariz de Tell. Seus olhos percorreram as linhas grossas e finas que se cruzam de forma vertiginosa nas paredes e no teto.
Era uma sala de aparência tecnológica.
— Ah, irmã. — Ikar estava parada no centro da sala, sorrindo alegremente.
— O que esta sala está fazendo? É a primeira vez que vejo esse lugar.
Os olhos de Tell estavam focados na máquina no centro da parede. Uma grande máquina feita de vidro cilíndrico.
O propósito era desconhecido.
— É o acordo que o vovô estava fazendo secretamente.
— Aquele velho?
— Uhum. — Ikar acenou e apertou um botão ao lado da máquina. Uma parte do vidro cilíndrico abriu-se para revelar o interior. — Você coloca uma bateria aqui e tudo começa a funcionar.
‘Bateria? Como aquelas pequenas baterias usadas na Terra?’
Mas essa máquina é grande demais para usar aquele tipo de baterias. E é grande o suficiente para uma pessoa entrar sem dificuldade2.
— Vovô é incrível. Não acredito que ele fez algo assim sozinho. — Ikar riu de maneira estranha.
— … E o que isso faz?
— Ele disse que se operar isso, um sistema de defesa especial será ativado. Uma barreira dimensional em escala cósmica! — Ikar abriu bem as mãos. — Assim podemos finalmente pará-los. Mesmo que esse desastre aconteça, podemos pará-los com uma barreira dimensional!
Os olhos da minha irmã estavam brilhando, como se estivesse sonhando. Tell estranhou o estado dela, mas continuou em silêncio.
— Se Hegrian visse esta máquina, não mudaria de ideia? Isso não é tudo. Poderia até conectar um portal ao planeta Terra.
‘Ah, ela está falando dos problemas que Hegrian apontou na reunião de ontem?’
Pelo que Ikar falou, dois problemas poderiam ser resolvidos usando esta máquina.
‘Mas isso não é simples demais?’
— O jogo também poderá ter sucesso! — Ikar continuou falando com entusiasmo. — Eu sei. O que eu inventei não foi divertido, mas o da minha irmã é diferente. Você sabe, o vovô me contou esta manhã. Ele disse que você apresentou um planejamento sem meu conhecimento. Tão original e inovador!
— … — Tell continuou em silêncio.
— Um jogo que com certeza será um sucesso! — Ikar continuou. — Sabe, o vovô estava desenvolvendo um jogo baseado no planejamento da minha irmã desde o início3. Meu projeto era muito ruim! Hehe, não é incrível?
Tell relembrou um antigo incidente. Obviamente, quando tive a ideia do jogo, apresentei um planejamento para Rucadis.
‘Mas… achei que tivesse sido cancelado.’
Porque era um sistema que Ikar nunca aceitaria.
— Irmã, o vovô resolveu todos os problemas do projeto! Não há necessidade de se preocupar! Portanto…
— Ikar.
— Huh?
— Você enlouqueceu — Tell disse com uma expressão sonolenta.
— Enlouqueci?
— Talvez tenha sido desde aquela época? Quando Mobius foi destruído e as ondas de emoção se intensificaram.
Uma torrente de emoções se espalhou quando inúmeras dimensões foram destruídas. Ikar, a deusa da misericórdia, foi diretamente exposta à torrente.
‘Por que essa garota teve que sentir coisas tão inúteis?’
Ela tinha empatia e aceitava os sentimentos dos outros como se fossem seus. Portanto, Ikar simpatizou com o medo da morte desencadeado por centenas de bilhões de vidas ao mesmo tempo.
Porque isso é misericórdia e porque é isso que a Deusa da Misericórdia tem que fazer.
— Irmã — Ikar disse. — Ontem eu estava preocupada e pensei nisso o dia todo. O que é certo e o que é errado e o que devo fazer.
— E então? — Tell perguntou.
— Eu não sabia o que era o quê, então acabei consultando o vovô.
— E então…?
— Eu obtive minha resposta. — Ikar sorriu para a irmã, como se estivesse extremamente feliz. — Decidi sacrificar minha vida.
— …
— Porque é mais importante. Porque não posso abandonar os últimos desejos dessas crianças — Ikar falou sorrindo como se tudo aquilo não fosse algo absurdo. — Irmã, isto é o que está puramente em meu coração.
Ikar, a Deusa da Misericórdia, finalmente se abandonou em favor dos outros. Ela decidiu seguir puramente o que dizia seu coração.
— Vou deixar o resto com você.
— Por que? — Tell perguntou ainda atônita.
— Porque você me ama. — Ikar riu. — Porque você me ama puramente. Porque eu nasci assim.
— …
— Mas eu não. Essas crianças são mais importantes para mim do que minha irmã. Então, decidi abandonar minha irmã e me tornar o que for necessário para aquelas crianças.
Tell estava paralisada no lugar, enquanto via Ikar andando para dentro da máquina.
Qual é a utilidade dessa máquina? Na verdade, percebi isso desde o início.
— Você não pode recusar meu pedido, pode? Sempre foi assim.
As luzes do mecanismo começaram a acender e uma fonte de energia de alta densidade foi detectada.
Tell estendeu a mão em direção a Ikar.
— Você vai me impedir? — Ikar olhou para sua irmã. — Isso não será possível. Você é a deusa da pureza.
Porque eu não sou humana. Porque ela respeita a pureza do coração. Não consigo pará-la. Não posso impedir que minha irmã mais nova se vá.
— Porque eu não sou humana. — Ikar sorriu como se uma flor estivesse desabrochando. — Adeus.
Quando Ikar entrou, a máquina cilíndrica começou a fechar e um líquido amarelo preencheu a parede de vidro. Lá dentro, a Deusa da Misericórdia fechou lentamente os olhos.
Vrrruuum! O dispositivo que detectou a fonte de energia começou a funcionar e luzes se acenderam em todos os lugares. As linhas conectadas à parede passaram a fornecer energia ao sistema.
E a fonte de energia é a própria Deusa da Misericórdia.
Como a divindade de mais alto escalão, sua própria existência era uma massa de denso poder de interferência. Ela se usou como bateria.
— …
Ikar dentro da máquina está com os olhos fechados e já havia perdido a consciência.
Não morreu, estava viva. Porém, como está viva, a força de interferência estava sendo absorvida.
‘De fato. Se usar sua irmã mais nova como fonte de bioenergia, poderá fornecer a enorme quantidade de energia necessária para o projeto.’
Ninguém a forçou a desempenhar esse papel, foi sua própria escolha.
— Por que não a parei? — Tell murmurou. Subjugar Ikar seria simples, mas isso não aconteceu. — Porque não adiantaria impedi-la4.
Meu coração está morto. E o coração morto da minha irmã não retornará até que seu sonho se torne realidade.
— Sonhe — Tell observou as bolhas subirem do líquido dentro da máquina. A deusa lá dentro provavelmente está sonhando. — Sonhe puramente.
Que está salvando essas crianças e vendo-as mais uma vez. Que vamos reverter o destino de Mobius.
O peso do sonho é maior que o Tell, que era sua outra metade.
A misericórdia abandonou até seu corpo, por sua pura vontade. Porque pureza é poder jogar tudo fora por apenas uma coisa.
— Entendo… — Tell estava convencida e não culpou Ikar por ir embora.
Todos acabam fazendo isso. Mesmo que existam muitas coisas preciosas, sempre existe uma superioridade ou inferioridade entre elas.
Ikar abandonou todos os outros por um objetivo: reviver Mobius.
— Você… me usou? — O canto da boca de Tell se alargou. Se você disser isso e desaparecer, você sabe como sua irmã vai agir. Foi um sacrifício feito com cálculo minucioso. — Porque eu não posso fazer isso sozinha. Porque eu não acho que posso fazer isso. Você passou tudo para mim? Todo esse trabalho sujo. Toda essa porqueira. Deixou tudo comigo.
Tell tropeçou enquanto murmurava para si mesma.
— Você está me pedindo para assumir o controle do seu sonho egoísta, me sacrificar até o fim e depois morrer?
Por um momento, ódio girou no coração da garota, fazendo Tell bater a testa em Ikar através do vidro. Uma escuridão floresceu dos olhos vermelhos.
— Porque não quero sujar minhas mãos. Porque não quero desempenhar um papel absurdo e fingir fazer sacrifícios para parecer bem. Você quer que eu faça tudo isso?
Lágrimas de sangue escorreram pelos cantos dos olhos de Tell.
— Eu não me importo com o que acontece com Mobius. Não me importo se este mundo será destruído ou se o universo será destruído.
Hipocrisia. hipocrisia. hipocrisia. De qualquer maneira, é isso. Você disse que estava fazendo isso pelas crianças, mas no final, você só queria preencher seu próprio sentimento de perda.
Você disfarçou o desejo do seu coração como misericórdia, mas por dentro você era extremamente egoísta.
— Responda-me! — Tell gritou pressionando a testa contra o vidro. Mas Ikar dentro da máquina ficou em silêncio.
Vingança. Ressentimento. ódio. Todos os tipos de emoções sombrias surgem como uma tempestade.
‘Tenho que descartá-la.’
Se ela atender aos desejos de uma pessoa enlouquecida, será incondicionalmente destroçada. Tell tropeçou e se afastou da máquina.
Na verdade, ela já devia saber que Ikar agiria assim.
E mesmo sabendo, não a parou.
— Hahaha. — Uma risada seca escapou. — Porque eu não sou humana.
Eu não posso te odiar. Nem posso transformar afeto em ódio. Porque eu nasci assim.
Como deusa da pureza, Tell tinha algo impresso em sua alma desde que foi criada. Puro amor por Ikar.
É impossível.
Assim como Ikar não pode jogar fora a vida de Mobius, Tell também não pode abandonar Ikar. Não poderia abandonar o último pedido da sua querida irmã.
— Hehe, hehe, hehe… — Tell segurou a cabeça e riu. Unhas afiadas cravaram-se em seu couro cabeludo. Seus longos cabelos negros estavam desgrenhados e o sangue escorria por eles. — Hahaha, hahaha, hahahahaha… — Risadas loucas encheram o porão.
— Oh sim. isso mesmo. Porque eu te amo, não posso recusar. Seu pedido, sua última vontade. Não posso lhe negar. — Tell olhou para Ikar com olhos distorcidos. — Eu farei o que você quiser. Não importa o que eu faça, não deixarei Mobius falhar. É isso que você quer? — O sangue escorria pelo rosto de Tell em pedaços espalhados. — Hihihi, hihihihi…
A deusa caminhou pelo corredor mancando.
‘Ah, sim. Este final. Talvez devesse ser assim desde o início.’
— Sinto-me aliviada, sinto-me aliviada, sinto-me aliviada.
Ficou mais simples.
As coisas tornaram-se muito simples.
Agora só preciso perseguir um único objetivo.
Tell riu.
No momento em que a misericórdia desapareceu, só então ela poderia se tornar completamente pura.
- Amo que o autor disse que todo o planeta está sobre uma democracia. Se ele falar igual ao autor de SUN, dizendo que as pessoas da Amazônia conseguem chegar facilmente em São Paulo, eu não vou estar surpresa.[↩]
- Ihhhh… já sabemos onde isso vai dar…[↩]
- Então foi o mizerento do Rucadis que deu corda para toda aquela insanidade?[↩]
- Eu acho que ela está conversando com ela mesma… Ou seja, enlouqueceu também.[↩]
… E agora vemos a descida sem fim da Tell ao laguinho da loucura ahsuhaushuahsuhasuha
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