Capítulo 2978 - O Pássaro Vil, Perverso, Repugnante, Desprezível e Sem Valor
“Aaaargh…”
Deitado no chão e segurando a cabeça com as duas mãos, Sunny soltou um gemido de agonia.
‘Que diabos… que diabos mesmo… não, mas que diabos, sério?!’
Ao que parecia, em seu desejo febril de recuperar seu destino e ser lembrado pelo mundo, Sunny havia esquecido um detalhe vital — ele havia esquecido o que significava ser Predestinado.
Bastaram alguns instantes após recuperar o Atributo [Destinado], e Sunny já havia sido roubado por um deus insano. Que tipo de porcaria foi essa?!
Sunny gemeu novamente.
Mas por mais que quisesse negar a realidade, era inegável que havia sido enganado. O Pássaro Ladrão parecia ter planejado usá-lo para se purificar da Corrupção… e, após atingir seu objetivo, a maldita criatura desapareceu na noite, levando consigo boa parte dos pertences de Sunny.
Era uma ideia genial, se ele parasse para pensar. Afinal, a morte era uma arma contra a Corrupção; purificadas, as sombras daqueles que morriam viajavam para o Reino das Sombras, onde eram destruídas por suas leis impiedosas ou devoradas pelos seres terríveis que habitavam a escuridão.
Havia apenas uma exceção a essa regra, pelo que Sunny sabia: ser morto por ele. Então, depois de ser morto por ele, o Repugnante Pássaro Ladrão — ou melhor, sua sombra — cautelosamente entrou em seu Mar da Alma. Lá, de alguma forma, transformou-se em uma Criatura das Sombras… e escapou.
Sunny estava perplexo. Ele não havia previsto aquilo. Embora, em retrospectiva, devesse ter previsto. Acontece que pouquíssimas sombras lhe haviam causado problemas. Havia a sombra da Condenação, que ele não conseguira controlar completamente… e havia também a Caçadora, que precisou ser subornada com sangue e só mais tarde passou a agir como uma Sombra de verdade.
O Lobo, a Abundância, o Marionetista — nenhuma de suas sombras sagradas o havia desobedecido antes, então Sunny nem cogitou que o Repugnante Pássaro Ladrão seria diferente. Ou talvez tivesse cogitado, e a criatura repugnante roubou esse pensamento de sua mente. De qualquer forma…
‘Aquela coisa maldita.’
O Repugnante Pássaro Ladrão não apenas se libertou de um Pesadelo, voltando à vida, como também escapou imediatamente da Corrupção morrendo — apenas para escapar da morte também.
Se existisse um mestre da fuga melhor no mundo, Sunny desconhecia a sua existência.
E agora, havia um Terror Sagrado desvairado à solta em algum lugar no Reino dos Sonhos. Sunny não tinha dúvidas de que o Repugnante Pássaro Ladrão conseguiria escapar do Túmulo de Ariel, de alguma forma, e mesmo que não soubesse em que era teria o azar de receber aquele patife de volta… ele tinha a sensação de que inúmeros seres poderosos teriam uma baita dor de cabeça mais cedo ou mais tarde.
Inclusive ele mesmo. Na verdade, Sunny tinha um pressentimento sinistro de que sofreria mais dores de cabeça do que a maioria… porque parecia que o gosto do Repugnante Pássaro Ladrão havia mudado quando ele se tornou uma Criatura das Sombras.
Caso contrário, por que roubaria tantos de seus pertences sombrios e melancólicos? Ao se lembrar de todas as coisas que havia perdido, Sunny não pôde evitar um gemido.
Os danos… foram consideráveis.
Foi realmente trágico.
A primeira coisa que Sunny viu ao mergulhar em seu Mar da Alma foi que havia menos sombras do que se lembrava. O Repugnante Pássaro Ladrão não as havia levado todas, mas sim escolhido as que lhe agradavam…
Mas tinha um gosto refinado.
Muitas das sombras que Sunny havia colecionado ao longo de longos anos de derramamento de sangue, em muitos campos de batalha, haviam desaparecido. O Rei Rato, a Procuradora da Verdade Profanada… e muitas outras. Milhares delas, talvez dezenas de milhares. Além disso, ele se lembrava vagamente de ter ouvido que uma de suas sombras havia sido destruída, não perdida.
Então… parece que o Repugnante Pássaro Ladrão comeu a Abundância. Deve ter sido uma verdadeira alegria encontrar um verme tão gordo e delicioso em sua alma…
‘Maldito ladrão.’
Sunny rangeu os dentes.
As sombras não foram a única coisa que o detestável Terror roubou. Algumas das Memórias de Sunny também desapareceram. [Pulseira Útil], [Pérola da Quintessência], [Definitivamente Não Sou Eu]… por algum motivo, ele até roubou a sela superfaturada do Pesadelo!
O que mais doeu, porém, foi que aquele maldito pássaro tinha levado a cadeira de Sunny. A [Cadeira das Sombras] tinha sumido, o que foi um golpe duro para Sunny.
‘Noctis me deu aquela cadeira, droga…’
Bem, na verdade, foi mais como se Sunny tivesse pegado uma das cadeiras luxuosas do feiticeiro excêntrico sem pedir. Mas mesmo assim…
Ele adorava aquela cadeira!
‘Maldito seja aquele pássaro vil!’
Sunny rangeu os dentes, furioso.
E então, houve o desaparecimento de sua Cidadela.
Ele governara duas Cidadelas. O Repugnante Pássaro Ladrão deixou o Templo Sem Nome intacto — possivelmente o Guardião o espantou — mas tomou a Cidadela que Sunny havia conquistado na Floresta Queimada. Sua réplica havia desaparecido do Mar da Alma de Sunny.
Na verdade, tudo havia desaparecido. Sunny nem sequer se lembrava de como era ou onde ficava. Era como se a guerra contra os Centopeias Negras nunca tivesse acontecido. Ele não sabia como aquilo era possível, mas suspeitava que sua preciosa Cidadela estivesse sendo transformada em um dos ninhos do Pássaro Ladrão naquele momento.
‘Tudo bem, fique com ela! Eu não tinha utilidade para aquela Cidadela mesmo!’
Não é como se tivesse sido planejado para se tornar o palco de uma futura conquista da Floresta Queimada… de jeito nenhum! Então, quem foi o tolo agora?!
Sunny fechou os olhos com um suspiro de exasperação.
O que mais o frustrava…
O fato era que o Repugnante Pássaro Ladrão havia roubado outra coisa dele.
Roubou-lhe o momento pungente de recuperar o seu destino. Sunny esperou por tanto tempo para reconquistar o que perdera. Ele enfrentou o Deserto do Pesadelo e o Túmulo de Ariel, desafiou um Terror Amaldiçoado em batalha, tudo para recuperar o direito de se chamar Perdido da Luz mais uma vez. E justamente quando se deleitava com a sensação agridoce de voltar a ser ele mesmo, justamente quando se permitia imaginar como seria ser lembrado pelas pessoas que amava…
Ele foi atingido em cheio pela crise irritante de ter sua alma violada por uma divindade morta. Agora, toda vez que se lembrasse do momento em que se tornou o Destino novamente, teria que se lembrar de ter sido roubado por um pássaro repugnante.
Sunny não conseguiu evitar soltar um rosnado baixo.
“Aquele pássaro odioso, repugnante e vil!”
Em resposta, ouviu-se o farfalhar de tecido e uma voz amigável ressoou acima dele.
“Vil!”
Sunny abriu os olhos e olhou para cima. Certo… e lá estava aquela coisa também. Sua nova Sombra — a criança demoníaca deixada sob seus cuidados pela mãe irresponsável.
Era a Prole Repugnante.

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