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    “Acabou. Não adianta mais lutar, Canção dos Caídos. Não seria mais fácil simplesmente desistir?”

    As palavras de Asterion ecoaram na escuridão do salão vazio, refletindo nas paredes que continham as verdades proibidas que Nether, o Demônio da Escolha, havia esculpido.

    Cassie ergueu uma mão trêmula, a ponta afiada de sua adaga apontada para o inimigo. Ela sabia onde a Criatura dos Sonhos estava porque ele havia falado, permitindo que ela mirasse sua arma na origem da voz calma e gélida.

    Caso contrário, tudo o que Cassie conseguia perceber era escuridão.

    Seu corpo estava machucado e cheio de hematomas, e seu rosto ensanguentado. Ela estava coberta de inúmeros cortes… estava exausta. A fadiga a pressionava contra o chão, e sua mente ardia com a terrível dor pulsante que se aninhava em algum lugar nas profundezas de sua órbita ocular vazia.

    E parecia não haver mais esperança.

    O Domínio do Anseio estava perdido. O Domínio do Espelho também estava perdido. Sua única opção era fugir, mas não havia mais para onde correr. Ela estava encurralada. Tudo iria terminar ali, naquele salão escuro, com apenas as runas proibidas espalhadas pelas paredes como testemunhas de sua derrota.

    Então… talvez Asterion estivesse certo. Talvez desistir fosse mesmo mais fácil.

    Mas, contrariando toda a lógica, Cassie ergueu sua adaga e se preparou para um último ato de resistência, em vão. Sua voz soava sombria e firme:

    “O que fazer? A dificuldade é o objetivo.”

    Assim era a vida. A vida era um desejo… era o desejo de estar vivo, e como o mundo sempre se esforçava para acabar com ela, a vida era uma luta constante.

    Era guerra.

    Asterion deu uma risadinha.

    Dessa vez, quando sua voz ecoou na escuridão, pareceu estar mais perto.

    “Como desejar…”

    Ele se preparou para subjugá-la, enquanto ela se preparava para se defender. Mas então…

    Algo mudou.

    Algo mudou no mundo.

    Foi como se uma rajada de vento etéreo tivesse soprado pelo corredor escuro e, de repente, algo imperceptível tivesse mudado.

    Sobre tudo.

    Cassie ficou paralisada.

    Asterion pareceu ter sentido o mesmo. Olhou em volta, franzindo a testa, e então perguntou em tom sombrio:

    “O que foi isso? O que você fez?”

    Mas Cassie não respondeu. Ela não conseguia responder, porque naquele momento, sentiu que inúmeras novas lembranças invadiam sua mente.

    Não… não exatamente. Era como se elas sempre tivessem estado lá, mas ela não se dava conta disso — até agora. A maioria das pessoas não teria percebido imediatamente, mas ela era sensível às memórias. Ela sabia imediatamente quando as suas próprias memórias mudavam.

    ‘O que…’

    Uma torrente de sons, aromas e sensações familiares inundou sua mente. O murmúrio de vozes no auditório da Academia Desperta… e uma presença silenciosa ao seu lado.

    A sensação da corda dourada amarrada em sua cintura afrouxando. A voz de um jovem ressoando suavemente na escuridão, perguntava por que alguém se daria ao trabalho de mantê-la viva.

    Aquela voz…

    Cassie cambaleou.

    Sunny… era Sunny. O Senhor das Sombras. O Perdido da Luz.

    Como ela pôde ter esquecido?

    Como se invocada por seu Nome Verdadeiro, as memórias preencheram o vazio de sua mente fragmentada, tornando-a inteira novamente. A Costa Esquecida, onde ele cuidara dela como um irmão mais velho… e tudo o que se seguiu. O tormento de ter que abandonar um de seus amigos para salvar outro. A agonia de ter escolhido errado — de estar errada por ter escolhido.

    E então, todos aqueles anos observando em silêncio, preparando e planejando. Empurrando e puxando para ver como as correntes do destino mudavam, mas permaneciam as mesmas…

    Até que o destino foi quebrado.

    As Ilhas Acorrentadas, a cela sufocante no Templo da Noite, o esplendor de sua antiga tranquilidade no Reino da Esperança, os dias radiantes passados ​​no Santuário de Noctis, a batalha pela Torre de Marfim.

    O frio pavor da Antártida, o terror incinerador do Deserto do Pesadelo, a imensidão do Grande Rio… o Túmulo de Ariel. O repouso final do Demônio do Esquecimento.

    Onde suas memórias de Sunny haviam sido enterradas. Essas memórias foram desenterradas agora.

    ‘Foi… o…’

    Da Costa Esquecida a Sepultura dos Deuses, e além… eles sempre caminharam lado a lado — às vezes de livre e espontânea vontade, às vezes contra a própria vontade.

    Mas foram eles.

    Foram Cassie e Sunny… eles haviam desafiado o destino. Sunny foi a lâmina que cortou, e Cassie foi a mão que apontou a lâmina.

    “O que você fez?!”

    Cassie se moveu ligeiramente, virando-se na direção do grito de Asterion.

    Ele também devia saber da existência de Sunny em algum momento. E agora, o homem que construiu seu reino manipulando mentes humanas se deparava com a verdade de que sua própria mente também havia sido adulterada.

    Cassie abriu a boca, pretendendo dizer algo — qualquer coisa. Mas nenhuma palavra saiu. Ela estava sobrecarregada pela magnitude da revelação… e pela carga emocional que ela provocou, escancarando todas as portas que havia construído em sua mente.

    Lágrimas escorriam do olho que lhe restava, misturando-se ao sangue que cobria seu rosto.

    … Foi então que o feitiço sussurrou em seu ouvido, fazendo Cassie estremecer.

    Sua voz parecia satisfeita. Triunfante, inclusive. O feitiço sussurrou:

    [Você praticou um ato de desafio.]

    [Você desafiou o destino.]

    [O quinto selo foi rompido.]

    Os olhos de Cassie se arregalaram, mas antes que ela pudesse processar a proclamação do Feitiço do Pesadelo, a voz vagamente familiar falou novamente.

    [Você recebeu um Legado de Aspecto.]

    [Canção dos Caídos! Prepare-se para receber a herança…]

    ‘Um Legado Aspecto? O quê…’

    Nesse instante, o Feitiço do Pesadelo lhe concedeu uma dádiva — uma digna de seu Aspecto. Uma dádiva assustadora que Cassie não estava preparada para receber.

    Seu Legado de Aspecto… Eram lembranças.

    Era uma crônica ilimitada de memórias que pertenciam a diferentes pessoas, diferentes seres, grandes e pequenos. Uma crônica do mundo tal como fora testemunhado por aqueles que povoaram sua vasta e aterradora extensão ao longo de incontáveis ​​eras — desde os primórdios dos tempos na Era de Deus… até os dias de hoje.

    Para o que estava acontecendo naquele momento, em outro lugar. E se Cassie achasse que as próprias lembranças que voltavam à tona eram demais para avassaladoras…

    Então, essa dádiva calamitosa foi simplesmente devastadora.

    Era um fardo que nenhuma mente humana — nem mesmo uma mente transcendente — poderia suportar. Somente a mente de um semideus supremo poderia. Cassie queria gritar, mas se viu paralisada.

    Ela queria fechar a mente para o turbilhão devastador de memórias, mas não conseguia.

    E assim…

    Sua mente se despedaçou.

    Essa foi a última coisa que Cassie se lembrou antes de se encontrar no oceano de memórias fragmentadas. Antes de tentar se reconstruir a partir dos incontáveis ​​pedaços.

    ‘Certo.’

    Foi assim que aconteceu. Foi assim que ela se quebrou. À deriva no oceano de memórias, Cassie finalmente soube quem era, como havia chegado a esse estado…

    E o que ela teve que fazer.

    Os tentáculos de sua Vontade mergulharam no vasto turbilhão de fragmentos de memória, absorvendo-os por completo.

    Transformando-a em uma criatura capaz de suportar o fardo de seu Aspecto… de seu Domínio.

    Tornando-a Suprema.

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