Capítulo 2992 - Nunca me deixe
Sunny desbravou o labirinto do tempo fragmentado, guiado pelo fio da essência de seda de Ananke. Seu único companheiro nessa jornada perigosa era a prole vil do Pássaro Ladrão, que agora era sua Sombra.
Enquanto procuravam uma forma de voltar ao presente, o vocabulário de Vil foi se expandindo gradualmente.
Agora, além de “vil”, “maldito” e “porcaria”, ele também podia dizer “tolo”, “bastardo”, “desgraçado”, “inferno” e “merda”.
Ah, e “maldição”, claro.
Essa parecia ser a favorita dele.
“Maldição! Maldição!”
Sunny cobriu o rosto com a mão e gemeu.
Ele não tentou ser uma má influência para a criança demoníaca… ele realmente não tentou…
Ora, tudo era culpa daquele miserável filho da puta. Afinal, Sunny não era um canalha tão boca-suja assim. Ele apostaria que o idiota estava fazendo essa palhaçada de propósito, só para irritá-lo.
Do contrário, onde Vil encontraria todas essas obscenidades?
‘Tal pai, tal filho, imagino.’
Com um progenitor como o Pássaro Ladrão, não era surpresa que o jovem Diabo estivesse aprendendo todas as coisas erradas, apesar de estar em uma companhia tão ilustre.
… Pelo menos foi divertido.
Sem Vil, Sunny poderia ter enlouquecido há muito tempo — principalmente porque não havia tempo no labirinto da eternidade fragmentada, e, portanto, nem um “há muito tempo” nem um “em breve”.
Sunny havia perdido a noção do tempo há muito tempo. Eles vagavam pela escuridão estranha e insondável que se escondia entre os instantes, seguindo o fio de seda prateada — sem ele, refazer seus passos teria sido praticamente impossível.
Às vezes, eles emergiam do labirinto nos mesmos lugares e momentos por onde Sunny e o Pássaro Ladrão haviam passado durante a batalha. Alguns desses lugares eram seguros, permitindo que descansassem. Outros eram repletos de perigos, então Sunny tentava deixá-los para trás o mais rápido possível.
Antes, ele talvez quisesse ficar e explorar as diferentes eras do Grande Rio. Mas agora, uma profunda ansiedade o invadia o coração.
Ele queria encontrar Nephis. Estava preocupado com ela, considerando que ela havia sido deixada completamente sozinha no labirinto da eternidade. Também estava preocupado com o que ela estaria pensando agora que parecia ter se lembrado dele.
A perspectiva de encontrá-la sendo ele mesmo — e não o Senhor das Sombras — o encheu de excitação e pavor. Assim, quanto mais se aproximavam do presente, mais lento se tornava o seu progresso.
Mas eles seguiram em frente…
E, no final, Sunny a encontrou.
Parecia que Ananke também havia prendido um fio de seda em Nephis, e Nephis o seguia de volta ao coração do Estuário, assim como Sunny. Eventualmente, seus caminhos se cruzaram e ambos chegaram ao mesmo fragmento de tempo.
Em Verge.
Não a vibrante e próspera Verge como fora antes da Corrupção, mas a desolada cidade de ossos em que se transformara após a destruição da Corrupção.
Uma noite profunda envolvia o Grande Rio. Suas correntes já haviam desaparecido, mas o Pássaro Ladrão ainda não havia roubado os sóis, então a água brilhava com um radiante brilho iridescente.
Ao perceber a presença de Nephis, Sunny dispensou Vil e caminhou na direção onde estava, na beira da água, olhando rio abaixo com uma expressão distante no rosto. Sunny parou a alguns passos de distância e permaneceu em silêncio, sem saber o que dizer. Por fim, tentou sorrir.
“Ei, Nephis. Está feito. Matei aquele pássaro ladrão detestável.”
Ele fez uma pausa por um instante e depois coçou a cabeça, sem jeito.
“Bem, e então ele escapou. Então, aquele pássaro odioso está à solta em algum lugar por aí agora. Não tenho ideia de para onde ele foi.”
Nephis permaneceu imóvel por um longo tempo, depois se virou para olhá-lo. Seu rosto estava inexpressivo, como sempre… na verdade, estava ainda mais inexpressivo do que o normal.
Mas Sunny conseguia sentir a terrível turbulência de emoções conflitantes fervilhando sob sua fachada calma.
Nephis parecia…
Radiante? Magoada?
Triste? Feliz?
Ele não sabia. Ela o observou por um longo tempo.
Então, ela disse baixinho, com a voz revelando uma fragilidade que ele nunca a vira demonstrar antes:
“Você me deixou.”
Sunny desviou o olhar.
Infelizmente, Verge era o pior lugar para ele contemplar. Afinal, fora ali que abandonara Nephis e seus amigos. Aquela cidade, soterrada sob uma espessa camada de ossos, era praticamente um monumento ao seu pecado.
Sunny se virou para Nephis e permaneceu em silêncio por alguns instantes.
“Mas eu voltei. Isso… tem que significar alguma coisa, não é?”
Ela não respondeu e ficou olhando para a bela extensão de água radiante. Após um longo tempo, Nephis disse calmamente:
“Você sempre me abandona.”
Ela suspirou pesadamente.
“Na Cidade das Trevas. Durante a Cadeia de Pesadelos. E aqui em Verge, novamente.”
Sunny olhou para ela, um lampejo de antiga dor aparecendo em seus olhos.
“Isso não é justo.”
Sua voz calma era rouca.
“Você também me abandonou, Nephis. Você me abandonou primeiro.”
Nephis respirou fundo e então olhou para ele. Seu rosto revelava uma expressão estranha. Seria medo? Seria saudade?
Sunny não sabia.
Ele a conhecia melhor do que qualquer outra pessoa no mundo, e mesmo assim, agora, não conseguia dizer o que ela sentia, no que estava pensando… O que ela ia dizer.
Nephis expirou e então assentiu lentamente com a cabeça.
“Sim… eu abandonei. Talvez eu não devesse ter feito isso. Mas…”
Um sorriso frágil surgiu em seu rosto.
“Eu faria tudo de novo, Sunny. Porque era o único jeito que eu conhecia de garantir que você sobrevivesse.”
Sunny deu um sorriso amargo e depois se virou, soltando uma risada discreta. Ele contemplou a extensão brilhante do Grande Rio.
“… Eu também.”
Ele suspirou.
“Eu faria tudo de novo também. Porque eu precisava ir embora para poder voltar para você.”
Sunny sorriu.
“Eu sou uma pessoa bastante egoísta, sabe? Assim como você.”
Assim que ele terminou de falar, Nephis deu um passo à frente e o envolveu num abraço apertado e desesperado.
Ela enterrou o rosto no ombro dele.
“Sunny… é você? É você mesmo?”
Ele permaneceu imóvel por um instante, depois a envolveu com os braços.
“Claro que sou eu. Quem mais eu seria?”
Nephis respirou fundo.
Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo.
Por fim, ela disse:
“Obrigada por voltar, Sunny.”
Ela o abraçou com mais força e então falou em um tom lento e hesitante:
“Nunca vá embora… prometa…”
Nephis ficou em silêncio por um instante.
“Você pode prometer que nunca mais vai me deixar?”
Sunny sorriu e olhou para cima, aconchegando-a em seus braços. Por fim, ele assentiu com a cabeça.
“Eu prometo.”
Ele fez uma pausa por um instante e depois riu:
“Nephis… nem todos os deuses nem todos os daemons do mundo conseguirão me fazer te deixar de novo. Então não me deixe para trás também.”
O horizonte oriental já se iluminava com um belo brilho dourado. Os sóis nasciam sobre o Grande Rio, anunciando um novo dia.
Mas Sunny e Nephis não estavam destinados a testemunhar esse amanhecer. O caminho deles era diferente — um caminho através da eternidade fragmentada que levava a um mundo mergulhado em trevas. As trevas eram frias e perigosas.
Mas eles iriam enfrentar isso lado a lado… Porque estavam perdidos na escuridão juntos.

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