Capítulo 1106
『 Tradutor: Crimson 』
Comparada à extravagância do Adepto Holly, a abordagem de Cherisha era muito mais simples e modesta.
Ela não possuía um golem poderoso para servir de guarda, tampouco servos gratuitos para atendê-la. Não. Cherisha fez tudo sozinha e gastou uma hora inteira apenas para arrumar a pequena casa onde ficaria hospedada.
Depois de terminar a limpeza, Cherisha ficou parada no centro do quarto. Ela retirou uma esfera verde do tamanho de uma pedra e a lançou ao chão.
A esfera imediatamente se transformou em um líquido verde e infiltrou-se pelo piso.
Uma barreira verde extremamente fina e quase imperceptível envolveu a casa, isolando-a completamente do mundo exterior. Diversas runas ilusórias estranhas piscavam continuamente sobre a barreira, espalhando ilusões mentais para enganar qualquer olhar curioso.
Lá do céu, os cinco espíritos do vento não conseguiam enxergar nada dentro da residência do Adepto Holly. Tudo o que viam era um borrão branco.
Enquanto isso, a casa da Adepto Cherisha parecia completamente exposta e sem qualquer proteção. Os espíritos do vento conseguiam observar cada um de seus movimentos através das frestas da madeira.
Entretanto, era justamente por enxergarem tudo com tanta clareza que Greem não conseguia evitar suspeitas de que aquilo fosse apenas uma ilusão.
Afinal, Cherisha era extremamente habilidosa com poderes mentais!
O céu lentamente escureceu, e o vasto tapete de estrelas brilhantes surgiu acima deles.
Contudo, uma estranha coloração avermelhada pairava sobre o céu noturno, fazendo com que o luar adquirisse um perturbador tom carmesim.
Uma lua carmesim.
Aquilo era um mau presságio em qualquer plano.
Era a manifestação instintiva das emoções da própria consciência do plano.
Frequentemente significava que algum acontecimento aterrorizante estava ocorrendo em algum lugar daquele mundo silencioso e pacífico. Um evento sangrento o suficiente para provocar a reação da consciência do plano.
Só de imaginar isso já era possível compreender o quão assustador tal acontecimento deveria ser.
Greem observou a lua carmesim por algum tempo antes de fechar lentamente as janelas de madeira e retornar para sua mesa.
Ele não era bom em adivinhação.
Se Alice estivesse ao seu lado, certamente conseguiria descrever o que estava acontecendo ao longe com base em um presságio planar tão evidente.
Infelizmente, Greem não sentia nada além de uma sufocante aura de massacre crescendo em seu coração.
Talvez uma nova onda de invasão tivesse começado em algum lugar do Plano Morrian.
Era a única explicação plausível para um massacre grande o bastante para enfurecer a própria consciência do plano.
Quem estaria invadindo o Império Arcano?
Os Lorde do Flagelo? Os Deuses? Ou talvez os Demônios Abissais?
Possibilidades demais. Suposições demais.
Aquilo o deixava particularmente irritado.
A ameaça da Grande Bruxa Maysa, a trajetória imprevisível do Destino, o ambiente perigoso ao seu redor e os desdobramentos incontroláveis da guerra.
Tudo isso pesava sobre os ombros de Greem, causando-lhe uma pressão imensa.
Qualquer outro adepto provavelmente teria mudado sob tamanha pressão.
Muito provavelmente acabaria se tornando um pervertido distorcido ou um hedonista obcecado apenas por prazeres físicos.
Entretanto, Greem apenas se tornava ainda mais calmo e racional diante dessa pressão.
Ele continuava evoluindo em um ritmo incompreensível para pessoas comuns, utilizando todos os meios e recursos disponíveis para fortalecer a si mesmo.
Afinal, poder significava tudo no Mundo Adepto!
Somente com poder absoluto estaria verdadeiramente seguro.
Somente com força incontestável ele poderia desacelerar e desfrutar da vida.
Por isso, apesar de tudo o que havia feito até agora, o objetivo de Greem permanecia o mesmo — sobreviver.
No passado, quando ainda era apenas um aprendiz, seus inimigos desejavam apenas seu corpo e sua alma.
À medida que continuou evoluindo e crescendo, seus antigos inimigos desapareceram.
Porém, novos inimigos continuavam surgindo.
Agora, embora tivesse alcançado conquistas espantosas e inimagináveis para qualquer outro, também havia criado para si adversários extremamente problemáticos.
Tudo aquilo que seus inimigos desejavam era algo que ele não podia se dar ao luxo de perder.
Caso algum dia caísse em uma armadilha inimiga sem conseguir escapar, seu destino não seria muito melhor do que quando ainda era apenas um aprendiz.
Essa era a tragédia de ser um adepto!
Na maior parte do tempo, não eram os adeptos que escolhiam a vida que desejavam viver.
Era a própria vida que os forçava, que os empurrava para seguir em frente.
Se desacelerassem sequer um pouco, talvez acabassem encarando uma cena aterrorizante que jamais desejariam testemunhar.
Assim como o Destino lhes concedia poder, também os empurrava para um caminho distorcido onde a morte aguardava aqueles que deixassem de avançar.
A mão do Destino brincava com eles e os açoitada continuamente.
Um único instante de hesitação seria suficiente para colocar um fim em suas vidas!
Greem não apenas precisava se adaptar e suportar uma vida como aquela, mas também precisava encontrar uma maneira de transcendê-la.
Somente quando se tornasse poderoso demais para que a mão do Destino brincasse com ele é que poderia realmente assumir o controle da própria vida.
………………
A noite estava escura e silenciosa.
Uma lua carmesim e sangrenta pairava no céu.
O luar derramado sobre a terra carregava um insuportável cheiro de sangue.
Sytance Illhoof permanecia orgulhosamente de pé sobre um penhasco colossal, observando o mundo à sua frente com a arrogância de um imperador.
Ele inspirava profundamente o odor sangrento do ar, saboreando a densa aura de massacre ao redor.
Seu olhar atravessava as leis do plano, permitindo-lhe vislumbrar as almas atormentadas das presas ou até ouvir seus últimos gritos trágicos antes da morte.
Vida também era um recurso.
E a alma de cada criatura planar carregava uma história que não podia ser apagada tão facilmente!
Entretanto, todas aquelas almas haviam agora se tornado propriedade pessoal de Sytance Illhoof.
Como o grandioso Lorde da Noite Eterna, retornar ao Mundo dos Desastres com tamanha riqueza seria suficiente para conquistar o favor da consciência do mundo.
Isso bastaria para elevar mais um pouco o seu grau.
As dezenas de milhares de bestas mutantes espalhadas pelo Continente Kentos haviam invadido cidades e destruído vilarejos ao longo de seu avanço.
Elas colheram para Sytance Illhoof uma quantidade incontável de energia vital e almas.
Infelizmente, havia poucas almas verdadeiramente valiosas entre aquela colheita.
Por isso, sob as ordens de Sytance Illhoof, as bestas mutantes espalhadas pela terra começaram a se reunir.
Havia apenas um alvo diante delas:
Jardim Reisin, a grande cidade arcanista flutuando nos céus do centro do continente.
Jardim Reisin era um alvo que Sytance Illhoof havia escolhido já fazia algum tempo.
Inclusive, ele travara várias batalhas brutais contra outros Lordes do Flagelo por causa disso.
Depois de experimentarem os ataques selvagens e implacáveis do Lorde da Noite Eterna, aqueles fracotes não tiveram escolha além de engolir o orgulho e procurar outro caminho.
Os alvos deles passaram a ser as outras duas cidades flutuantes.
A bela e delicada cidade flutuante Jardim Reisin tornou-se o alvo ideal de invasão e massacre para Sytance Illhoof!
O exército de bestas mutantes continuava saqueando e massacrando desenfreadamente durante a noite.
As auras de vida e alma que percorriam as leis do plano continuamente fluíam em direção a Sytance, fundindo-se ao seu corpo.
Era uma sensação relaxante e prazerosa…
Até que seu deleite foi interrompido por alguns intrusos desagradáveis.
Sytance Illhoof endireitou o corpo e farejou o vento noturno que soprava contra seu rosto.
Ele captou um odor que não pertencia às criaturas do desastre.
Um traço de ordem e cautela misturado ao caos e à maldade.
Um toque de astúcia combinado com compostura e experiência.
Maldição!
Era o cheiro dos adeptos!
Pensar que alguns adeptos haviam invadido seu território de caça e ainda massacrado alguns de seus subordinados!
Uma aura maligna e cruel elevou-se do corpo enorme e grotesco de Sytance Illhoof.
Ele impulsionou-se com os quatro cascos, saltou do penhasco e começou a correr freneticamente em direção ao oeste.
Os ventos gelados da noite uivavam ao seu redor.
Sytance avançava sob o luar com a postura de um cavalo, movendo-se a uma velocidade superior até mesmo à das criaturas voadoras no céu.
Campos de trigo, florestas e rios passavam rapidamente sob seus pés.
Ele atravessou inúmeros vilarejos e cidades humanas pelo caminho.
Esses assentamentos humanos estavam sempre repletos de gritos de terror, do brilho de incêndios e, claro, das figuras de bestas assassinas despedaçando os humanos.
Sytance ignorava tudo isso.
Cada salto e investida fazia seu corpo percorrer centenas de metros. Um assentamento humano após o outro era deixado para trás enquanto ele seguia obstinadamente em direção ao oeste.
As bestas mutantes que massacravam nesses vilarejos aceleravam ainda mais suas chacinas ao sentirem a aura de Illhoof. Em seguida, abandonavam as cidades e passavam a seguir seu líder, avançando descontroladamente rumo a algum destino desconhecido à distância.
Dessa forma, uma pequena horda de bestas mutantes rapidamente se formou sob o céu noturno!
Illhoof saltou sobre uma pequena colina e finalmente parou.
Seus olhos brilhavam com uma luz cruel e sinistra enquanto observava o vilarejo humano mergulhado na escuridão à distância.
Ele conseguia sentir vagamente três auras de alma de intensidades diferentes dentro do vilarejo.
Também podia farejar formas de vida elementais ao redor da área.
Se os inimigos fossem fracos demais, Illhoof jamais teria se dado ao trabalho de viajar tão longe apenas para adverti-los.
Ele conseguia perceber.
As auras dos adeptos escondidos naquele vilarejo haviam alcançado um nível que até mesmo ele precisava tratar com cautela.
Por isso, antes de iniciar sua caçada final, Illhoof precisava eliminar todos os possíveis fatores de instabilidade ao redor.
Esses adeptos frágeis eram, sem dúvida, alguns dos insetos mais irritantes que existiam.
Não apenas irritantes.
Eles eram genuinamente detestáveis!
Suas auras talvez já tivessem alcançado o limite de poder permitido dentro do plano, mas Illhoof não os considerava verdadeiros oponentes devido ao desprezo natural que sua raça nutria pelos adeptos.
Afinal, tornar-se um adepto era um caminho normalmente escolhido por espécies inteligentes de talento e potencial inferiores.
Ou possuíam corpos frágeis, ou Espíritos fracos.
Sempre existia alguma fraqueza enorme e desprezível em suas existências.
Uma raça como essa… uma fundação como essa…
Mesmo que conseguissem fortalecer suas almas até o Quarto Grau, ainda continuavam sendo presas aos olhos do grandioso Sytance Illhoof.
Sytance Illhoof já possuía presas mais fáceis ao alcance das mãos.
Ele havia perdido todo o interesse em caçar e massacrar aquelas presas espinhosas.
Contudo, Illhoof também não queria que esse momento de “compaixão” levasse os adeptos a terem ideias equivocadas.
Ele não desejava que interferissem no banquete de sangue e carne que estava prestes a começar.
Era necessário um aviso.
E também uma demonstração de força!
Se aqueles intrusos fossem fracos demais, Illhoof não se importaria em transformar alguns adeptos em aperitivos antes do grande banquete.
Afinal, as almas daqueles que conseguiam alcançar o Quarto Grau eram bastante deliciosas!

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