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    Ela escapou da lembrança daquela noite iluminada pela lua, sentindo-se assombrada por ela. Noctis, o Abençoado da Lua… havia outras lembranças dele também no mar escuro de seu ser despedaçado.

    Ali, uma lembrança mostrou Noctis ensinando-a a pilotar o Quebrador de Correntes. Ali, uma lembrança mostrou Noctis vestindo um manto preto e uma máscara de madeira. Havia também lembranças daquele no Norte.

    E o resto…

    Ela absorveu essas memórias avidamente, reconstruindo lentamente a base de quem ela havia sido. A Costa Esquecida, o Reino da Esperança, o Túmulo de Ariel… sua casa de infância em NQSC, a mansão isolada do clã Chama Imortal, o opulento complexo do Grande Clã Valor…

    E muito mais.

    Os anos estranhos que ela passou tendo esquecido grande parte de si mesma, vagando pela vida como uma pessoa cega perdida na neblina. À medida que os contornos imperfeitos de quem Canção dos Caídos havia sido tomavam forma lentamente, ela foi tomada por uma sutil ansiedade.

    Nada naquelas memórias explicava como ela acabou despedaçada em milhões de lembranças, vagando no espaço escuro entre os segundos. Nada indicava o que lhe havia acontecido, nem qual propósito ela buscava ao se agarrar desesperadamente ao fantasma de seu verdadeiro eu.

    ‘O passado é passado, e o futuro já não existe. Mas o presente… e o presente?’

    Incomodada, ela diminuiu o ritmo por um breve instante, depois estendeu seus tentáculos a memórias mais recentes. Ela queria saber o que estava acontecendo agora, não o que tinha acontecido no passado… mas a resposta era evasiva. Tanto que ela temia que somente completando o quadro geral ela conseguiria descobrir a verdade.

    Mas ela encontrou uma pista…

    Curiosamente, a melhor pista que ela encontrara não estava escondida em suas próprias memórias. Em vez disso, estava escondida nas memórias de um ser diferente, que, no entanto, parecia constituir uma vasta parte de sua vida.

    Aquele ser pareceu estranhamente familiar, de alguma forma. 

    “Ah, é ele…”

    O menino cruel que queria deixá-la morrer. Só que, naturalmente, ele não era mais um menino… Mesmo que continuasse tão cruel quanto antes, ou até mais.

    O Senhor das Sombras.

    Pressentindo uma possível resposta, ela mergulhou nas memórias que havia compartilhado com ele — ou possivelmente roubado dele.

    ‘Mostre-me…’

    Onde você estava quando a Criatura dos Sonhos chegou?

    ***

    O mundo onde Sunny nascera já não o acolhia de braços abertos. Na verdade, rejeitou-o ferozmente.

    Era um pouco desconfortável, mas, pensando bem — se ele fosse honesto consigo mesmo — a Terra nunca o tratara bem. Na verdade, sempre fora uma mãe cruel e indiferente, deixando-o à própria sorte, cercado por ventos frios e lobos famintos.

    Metaforicamente falando, é claro, já que nem mesmo os lobos sobreviveram à sua extensão envenenada. Agora, Criaturas do Pesadelo dominavam a região selvagem devastada, enquanto as pessoas sobreviviam em vastas cidades como NQSC… os afortunados viviam muito bem, mas os infelizes como ele não. Por isso, ele não conseguia sentir saudades da Terra.

    Mesmo assim, ele ainda precisava fazer visitas de vez em quando. Os motivos de suas visitas raramente eram benignos, e hoje não foi exceção. As coisas não andavam bem para o Domínio Humano ultimamente.

    Fazia apenas um mês, mais ou menos, que Sunny havia retornado da Cidade Eterna, mas muita coisa tinha acontecido desde então. Os problemas estavam se acumulando e, mesmo com sete corpos, ele estava tendo dificuldades para lidar com todos eles — especialmente porque precisava manter segredo e esconder sua existência.

    ‘Como é que isto faz algum sentido?’

    Antes, uma caravana comercial levava cerca de um mês para viajar entre a Deusa Chorosa e Havenheart. Mas agora, um dia foi acrescentado a esse tempo.

    Isso não aconteceu porque os mercadores se tornaram preguiçosos, nem porque alguma poderosa Criatura do Pesadelo os obrigou a mudar de rota. Em vez disso, foi porque a distância entre Ravenheart e a antiga Cidadela do Clã da Dor havia mudado.

    O que foi bastante desconcertante.

    O Reino dos Sonhos sempre fora repleto de ocorrências bizarras, mas se sua geografia estava mudando, havia apenas uma explicação. Significava que mais do mundo desperto estava se infiltrando pela fronteira do reino, mergulhando no pesadelo — os fragmentos de seu mundo natal estavam sendo engolidos pelo reino do Deus Esquecido, forçando-os a repensar o cronograma de reassentamento total.

    Como se eles não tivessem outros problemas para resolver. O maior e mais assustador desses problemas era, naturalmente, o nome de Asterion, a Criatura dos Sonhos, que se espalhava pelos dois mundos como uma praga. Aquela praga silenciosa e aparentemente inofensiva fez com que todos os outros problemas que afligiam o Domínio Humano parecessem triviais em comparação.

    A expressão de Sunny escureceu ao pensar na Criatura dos Sonhos. Ele queria encontrar as palavras certas para descrever o quão desconfortável aquele homem o fazia sentir.

    Tudo aconteceu exatamente como Cassie havia previsto, logo após ele escapar de Miragem1. O nome da Criatura dos Sonhos se espalhou como um vírus, infectando todos que o ouviam ou viam. Aqueles infectados pelo conhecimento de Asterion se tornaram portadores da doença, ajudando-a a se espalhar ainda mais.

    Algumas pessoas apresentaram apenas sintomas leves, pronunciando o nome assustador sem sequer perceber o que estavam dizendo de vez em quando. Em outras, a doença pareceu progredir muito mais, afetando a própria maneira de pensar e influenciando suas ações.

    Existiam meia dúzia de pequenos cultos que faziam proselitismo em nome de Asterion, como a Igreja da Lua, que estava ganhando popularidade nos antigos territórios do Domínio da Espada. Também existiam organizações seculares, como clubes privados e gangues do mercado negro, fazendo o mesmo.

    O poder cumulativo desses agentes adormecidos não era nada grande… na verdade, era insignificante e até patético. Se Sunny e Nephis quisessem, poderiam tê-los eliminado a todos em um dia.

    Mas aquilo foi a coisa mais estranha do mundo.

    Pela primeira vez na vida, Sunny se deparou com um inimigo que tornava toda a sua força inútil. Não que ele e Nephis fossem mais fracos que Asterion — longe disso —, mas Asterion atacava de uma maneira que tornava impossível usar a força para repeli-lo.

    Eles não podiam exterminar milhares, senão centenas de milhares, de pessoas inocentes. Embora, talvez… devessem ter feito isso. Porque, se não o fizessem, o número de pessoas infectadas pelo conhecimento da Criatura dos Sonhos logo chegaria a milhões, e centenas de milhões depois disso.

    Até que cada pessoa no mundo — ou melhor, em ambos os mundos — fosse infectada pelo nome de Asterion. O que eles iriam fazer então?

    Ao entrar em uma fábrica subterrânea abandonada nos arredores de NQSC, Sunny proferiu um palavrão.

    ‘Porra…’

    Seu tom de voz, geralmente leve, estava sombrio e pesado.

    1. aquela cidade que ele foi com effie e a santa no grande espelho[]

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