Capítulo 2728 - Futuro Passado
Uma lembrança diferente, esta repleta de ruína e devastação…
Uma vasta planície de ossos despedaçados estendia-se infinitamente sob um céu cinzento e nublado. Metal líquido chovia sobre os cadáveres de inúmeros homens enquanto um abismo de chamas brancas e ferozes derretia uma tempestade furiosa de espadas, transformando-a numa chuva incandescente.
Entre os cadáveres, um homem com um manto vermelho e armadura pesada cruzara espadas com uma jovem envolta em chamas. A espada dela também sucumbira à vontade dele, então ela a descartou e forjou uma lâmina a partir de sua própria alma.
Originada da luz pura e de um anseio feroz e insaciável.
E ódio, claro.
A batalha havia ferido os próprios alicerces do mundo, de modo que a realidade estava se desfazendo ao seu redor, revelando as profundezas angustiantes das leis divinas ocultas por baixo.
É desnecessário dizer que essa batalha também ceifou inúmeras vidas.
O homem fora arrogante e orgulhoso, mas agora estava espancado e coberto de queimaduras horríveis. Sua espada, que outrora fora capaz de cortar ideias, estava perdendo o fio. Seu rosto, antes belo, agora se assemelhava a uma máscara horripilante de cera derretida.
Mas seus olhos cinza-aço ainda ardiam. Sua esgrima era precisa, transcendente e sublime. Sua autoridade sobre tudo o que era de metal era insidiosa e intransigente. Sua Vontade era como uma imponente muralha de ferro, inexpugnável e devastadora.
A jovem também era uma mestra da espada. Ela dominava inúmeros estilos e inventara vários outros… mas hoje, ela se apegava teimosamente a apenas um. Uma técnica fluida e imprevisível, versátil e extremamente adaptável. A técnica de seu pai, que o Rei das Espadas conhecia muito bem.
Mesmo assim, isso não o impediu de sucumbir ao legado da Espada Quebrada.
No fim, a muralha de aço indestrutível de sua Vontade foi derretida pelo desejo ardente. A lâmina terrível de sua espada que tudo cortava foi engolida pela luz. E seu coração frio e insensível foi transpassado pela lâmina forjada em ódio incinerador. Anvil cambaleou, agarrando o raio de luz branca que havia mergulhado em seu peito — mas foi inútil, pois a lâmina afiada simplesmente decepou seus dedos, fazendo-o cambalear e cair de joelhos. Quando ergueu o rosto, uma vela derretida e horripilante, um sorriso distorcido brincava no que restava de seus lábios enegrecidos. Uma voz horrível e gutural emanou das profundezas de sua garganta queimada:
“Impecável… você finalmente é impecável…” Erguendo-se acima dele no brilho imaculado de suas impiedosas chamas brancas, Nephis contemplava seu rosto desumanamente deslumbrante sem qualquer expressão.
Seus lábios se moveram, como se ela quisesse responder, mas no fim, tudo o que ela lhe ofereceu foi silêncio.
“Eu queria dizer alguma coisa?”
Sim… sim, ela se lembrou que tinha feito isso. Ela queria dizer algo — até demais. Mais do que palavras poderiam expressar. Afinal, ela passara a maior parte da vida sonhando com esse momento. Ansiando por matar aquele homem temível e reduzir a cinzas tudo o que ele havia construído.
Ela queria que ele se lembrasse do pai dela. Queria que ele se lembrasse dela… de cada perda, cada lágrima, cada ferida, cada momento de amarga desesperança que ela havia suportado. Queria que ele se engasgasse com o próprio fracasso, a própria fraqueza, com a traição desperdiçada.
Mas naquele momento, ela não conseguia se lembrar por que quis dizer alguma coisa. Ela não se importava muito…
Nem sobre esse homem, nem sobre a dor que ela havia sofrido. Afinal, era apenas dor. Olhando para Anvil de Valor, Nephis não sentiu nada. Seu coração era um belo e árido deserto de chamas. Era puro de todos os sentimentos, de todas as dúvidas.
E todos os desejos também. Ela nem sequer se sentia entediada, porque o tédio exigia uma inclinação para a excitação. Uma gargalhada borbulhante escapou do rosto derretido de Anvil.
“Perfeito…”
Com um semblante de desgosto, Nephis retirou sua lâmina radiante do peito dele e o decapitou com um golpe preciso. Ao se afastar indiferente, o corpo decapitado do antigo Rei das Espadas caiu entre os demais cadáveres carbonizados, já em chamas.
Seu trono erguia-se sobre esses cadáveres, construído com ossos enegrecidos.
… O ser que fora a Canção dos Caídos descartou a memória, enviando-a à deriva na escuridão. Ela não precisava daquela coisa desgastada e inútil — um vislumbre de um futuro que já havia sido apagado e, portanto, jamais se concretizaria. De um futuro perdido, destinado a existir apenas em sua memória, esquecido por todos. Havia muitos fragmentos como aquele ao seu redor, repletos de cenas fadadas a permanecer para sempre sem testemunhas. Mas ela não estava interessada nessas relíquias de um futuro arruinado naquele momento.
Em vez disso, ela aproximou-se de uma lembrança diferente, contemplando suas profundezas sombrias. Nessa lembrança, ela era, mais uma vez, um ser assombroso de imensa imensidão. Ela vestiu novamente o manto nebuloso e a máscara de madeira preta.
Ela caminhava pelas sombras, aproximando-se de um solitário lampejo de luz. Uma noite profunda envolvia o mundo, e a lua cheia subia pela superfície aveludada do céu estrelado. Mas ali, a alguma distância…
Uma luz branca e cintilante dançava na escuridão, no centro de um pequeno vale formado por várias colinas. Uma figura humana solitária estava sentada diante de uma pequena fogueira. Sua cabeça estava baixa e seu rosto oculto pelos cabelos que caíam sobre ele. Estava nu da cintura para cima, sua pele pálida coberta de sangue seco. Contudo, não parecia haver ferimentos no corpo do estranho… na verdade, não havia uma única cicatriz.
Sobre uma pedra à sua frente, repousava uma foice de diamante, com a lâmina pintada de carmesim. Ao pressentir algo, o homem inspirou lentamente e olhou para cima. Seu rosto era jovem e belo, com pele macia e sedosa, maçãs do rosto altas e traços delicados. Curiosamente, havia um símbolo de lua crescente desenhado em sua testa.
Sem se esconder do olhar dele, ela saiu das sombras e pairou sobre ele. Seu olhar desceu como um presságio sombrio, silenciando os ventos de medo. Apesar disso, um sorriso agradável e despreocupado surgiu de repente nos lábios do homem.
Ele ergueu a mão, que antes estivera oculta na escuridão. Nela, segurava com firmeza um coração humano sangrando, ainda quente de quando o arrancara do próprio peito. O belo homem falou com uma voz brilhante e melodiosa.
Ele disse:
“Salve Weaver, Demônio do Destino. Primogênito do Deus Esquecido!”
Ela inclinou um pouco a cabeça.
A resposta dela foi categórica:
“Besta do Crepúsculo… Não estou nada feliz em reencontrá-lo.”
O belo homem olhou para ela confuso.
“Ah, é? Já tive o duvidoso prazer de encontrar o grande e terrível Weaver antes?”
Ele permaneceu em silêncio por um momento, depois sorriu.
“Ora, sem surpresas! Afinal, sou o homem mais afável e sociável de todo o Reino da Esperança…”

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