Capítulo 3027 – Percepção Súbita
Numa câmara iluminada da torre principal do Castelo de Miragem, Nephis permanecia sozinha, rodeada de mármore e tapeçarias suntuosas. O mármore era branco; as tapeçarias também eram brancas, bordadas magnificamente com fios de ouro. As cortinas transparentes, tecidas com a mais fina seda chiffon, ondulavam ao vento como as asas de uma criatura celestial.
Nephis olhava para o chão, com uma expressão plácida. Permaneceu imóvel por alguns segundos, depois suspirou profundamente e ergueu os olhos.
Sunny saiu de sua sombra, caminhou até uma das paredes e se encostou nela com os braços cruzados.
“Nervosa?”
Para qualquer outra pessoa, Nephis pareceria a personificação da compostura, mas ele percebeu que ela estava desconfortável — afinal, corvos grandes e falar em público não eram exatamente a sua praia.
A vasta multidão reunida do lado de fora aguardava para contemplar a deusa da humanidade, fascinada por sua majestosa imagem. Contudo, nenhum deles poderia imaginar que sua deusa estivesse, na verdade, sentindo-se ansiosa e desconfortável com a perspectiva de aparecer diante de tantas pessoas.
Nephis olhou para Sunny, hesitou por um instante e depois deu de ombros.
“Um pouco.”
Ela suspirou.
“É engraçado, não é? Acho que me sentiria muito mais à vontade enfrentando uma horda de abominações poderosas do que uma multidão de pessoas. Sou um Supremo agora, e ainda assim, em momentos como este, não me sinto diferente de como me sentia quando era um jovem inexperiente e ignorante.”
Sunny sorriu.
“Eu não diria que é engraçado. Talvez um pouco divertido.”
Ele balançou a cabeça e acrescentou em tom tranquilizador:
“Existe um truque que aprendi com a Effie. Quando você estiver lá fora, na frente de todas aquelas pessoas, imagine que todas elas são…”
Ele ficou em silêncio por um instante.
O senso comum sugeria que se deveria imaginar a plateia nua para superar o medo do palco, mas quando Sunny pensou nisso… era um conselho péssimo! Se ele fizesse algo assim, se sentiria perturbado e confuso em vez de calmo — sem mencionar que ficar imaginando como pessoas aleatórias seriam sem roupa era algo que só pervertidos faziam.
Além disso, era de Nephis que ele estava falando. Ela não ficaria perturbada ou confusa — na melhor das hipóteses, ficaria completamente indiferente. Na pior, começaria a se perguntar por que todas aquelas pessoas estavam nuas e se seria necessário alocar mais recursos para desenvolver uma indústria têxtil mais robusta no Reino dos Sonhos.
Sunny pigarreou.
“Imagine que todos eles são Criaturas do Pesadelo.”
Nephis inclinou a cabeça e assentiu com a cabeça.
“Obrigada. Na verdade, isso ajudou.”
Sunny abriu a boca para dizer algo, mas naquele instante, bateram na porta — eram os atendentes informando Nephis que sua entrada estava a poucos minutos de distância. Com um suspiro, ela caminhou até a porta e parou perto dela.
Então, Nephis olhou de soslaio para uma das belíssimas tapeçarias que adornavam a parede. Sua expressão mudou levemente. Por fim, ela ergueu a mão e a deslizou pela superfície da tapeçaria.
“Quando é que eles mudaram isso?”
Sunny ergueu uma sobrancelha.
“Mudar o quê?”
Nephis fez um gesto vago em direção à câmara circundante.
“As tapeçarias, as cortinas… tudo aqui costumava ser vermelho-vivo. A cor do Clã Valor.”
Ela observou o delicado bordado por um instante, depois se virou.
“Alguém teve que encomendar tudo isso e reformar a decoração de toda a torre principal… de todo o castelo? E eu nem sei quem foi, nem quando aconteceu.”
Um sorriso pálido surgiu nos lábios de Nephis.
“Isso demonstra quão vasto e imenso é o Domínio Humano, eu acho. É maior do que você e eu, pelo menos.”
Sunny suspirou, afastou-se da parede e caminhou até ficar atrás dela. Colocando as mãos nos ombros dela, ele os massageou suavemente.
“É isso mesmo. E agora, você precisa lidar com esse seu imenso Domínio. Relaxa… Vou cozinhar algo delicioso para você quando terminar. Podemos até dar uma escapadinha para fazer um piquenique.”
Nephis sorriu.
“Um piquenique… parece ótimo.”
Ela suspirou e então colocou a mão na porta, pronta para empurrá-la e abri-la. Então, porém, ela parou. Passaram-se alguns segundos em silêncio, e então Nephis disse lentamente:
“Dia da Lembrança…”
Sua voz parecia um pouco distante. Sunny cruzou as mãos atrás das costas.
“E daí?”
Nephis balançou a cabeça negativamente.
“Não, é que… eu estava pensando naquele nome, Dia da Lembrança. Então, dei uma olhada no passado para me lembrar também. E aí me ocorreu.”
Ela expirou lentamente.
“Eles estão mortos. Os três… Aster, Song, Vale. Eles se foram.”
Ela encarou a porta, com uma expressão distante no rosto.
“Eu… eu não parei para pensar nisso até agora. Nunca me passou pela cabeça. Toda a minha vida, sobrevivi desafiando-os — tanto que minha eu passou a ser definida em oposição a eles. E agora que eles se foram… esqueci de reconhecer esse fato.”
Nephis fechou os olhos por um instante e então disse:
“Parece o fim de algo profundo. O fim de uma era.”
Sunny permaneceu em silêncio por um instante. Então, falou em tom sincero:
“Olha, eu detesto ser esse cara… mas tecnicamente, a Criatura dos Sonhos não está morta. Ele ainda está por aí, embora selado por toda a eternidade.”
Nephis riu baixinho.
“Certo. Como eu poderia esquecer?”
Dito isso, ela empurrou as portas e saiu. Sunny se fundiu a uma sombra e deslizou pelo chão de mármore também, escondendo-se na sombra de Nephis.
Juntos, eles entraram numa tribuna de pedra que se erguia sobre um vasto pátio, estendendo-se para dentro dele como uma enorme ponta de lança. O pátio estava repleto de inúmeras pessoas, a multidão espalhando-se pelos níveis inferiores do Castelo, até às margens do Lago Espelhado.
A multidão vibrou de entusiasmo, recebendo a Estrela da Mudança, do clã Chama Imortal, no palco. Nephis sorriu, olhou para a multidão por um breve instante e então ergueu a mão.
“Pessoas do Domínio Humano…”

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