Capítulo 3054 - Sangue da Lua
Em frente aos portões da cidade, Effie e Jet estavam envolvidas em uma luta feroz contra o Rei dos Reis. Mesmo subjugado, enfraquecido pelo poderoso encantamento da Lâmina da Névoa e sofrendo a agonia de uma profunda ferida na alma — seu núcleo espiritual coberto por uma rede de finas rachaduras — ele ainda era tão opressor como sempre, levando ambas ao limite.
Nas ameias, Kai lutava para impedir que os Guerreiros do Terror subjugassem os defensores da cidade e tomassem o controle da muralha. Sua voz inflamava os corações dos soldados e fortalecia sua determinação, evitando uma derrota devastadora, e sua lâmina abria caminho até uma das duas torres de cerco restantes…
Mas ele não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo, e por isso, a situação piorava a cada minuto.
No leito seco do rio, um massacre terrível estava acontecendo, com ambos os lados resistindo bravamente apesar das perdas esmagadoras. Na linha de frente, Morgan enfrentava os seis Generais do Medo restantes, enquanto Andarilho da Noite impedia que os campeões Transcendentes das legiões menores da Horda de Aço viessem em seu auxílio.
Morte e destruição reinavam no campo de batalha, o cheiro avassalador de sangue impregnando o ar. Envolvido por aquele aroma enlouquecedor, Seishan subiu lentamente a muralha.
Ela se movia lentamente, mantendo uma das mãos sobre as pedras desgastadas. A doença devastava seu corpo, fazendo com que cada passo parecesse uma luta mortal — curvada, escondendo seu rosto pestilento atrás de um manto carmesim, envolta nele e tremendo de um frio fantasmagórico, ela subiu os degraus um após o outro, até finalmente alcançar as ameias acima do leito do rio.
Abaixo dela, Morgan e Andarilho da Noite resistiam bravamente, e mais adiante, dois exércitos enfurecidos se massacravam na lama ensanguentada. Ao longe, uma terrível tempestade de violência sacudia todo o campo de batalha, rachando a terra — eram Effie e Jet lutando contra um Supremo invencível. E não muito longe dali, miríades de guerreiros da Horda de Aço invadiam as muralhas, vindas da boca de uma colossal torre de cerco.
Seishan contemplou a torre por alguns instantes. Nesse momento, figuras velozes vestidas de carmesim passaram por ela, correndo em direção à torre — eram seus guerreiros, elites escolhidas a dedo, agraciadas com o dom de seu sangue. Agora que haviam se juntado à batalha, a torre de cerco cairia em breve…
No mínimo, a Horda de Aço não avançaria mais nessa seção da muralha, dando a Kai tempo para derrubar a outra torre.
Mas não era isso que Seishan tinha vindo realizar.
‘Ah… o cheiro… está me enlouquecendo…’
Seishan era capaz de extrair poder do sangue derramado. E naquele campo de batalha aterrorizante, rios de sangue eram derramados a cada instante — assim, seus poderes atingiram níveis inimagináveis, elevando sua força a um nível tremendo. Contudo, seu Defeito tornava difícil resistir ao odor avassalador, levando Seishan ao limiar de um frenesi assassino.
Inspirando profundamente, ela reprimiu sua sede insaciável nas profundezas mais obscuras de sua consciência e então invocou seus poderes. Ao longe, desviando de um golpe de Jet e fazendo Effie cambalear para trás com um ataque devastador, Azarax franziu a testa.
O pequeno corte em seu antebraço mal sangrava… então, porém, o fluxo aumentou. Poucos instantes depois, o sangue escorria novamente por seu braço em um filete, tingindo toda a sua mão de vermelho. Esse era o poder do Aspecto de Seishan, o poder que tornava até mesmo o menor ferimento letalmente perigoso.
O próprio Azarax não se mostrou muito preocupado com o novo desenvolvimento — por mais poderosa que Seishan fosse, levaria meses para ela o drenar completamente. No entanto, ele não era o alvo principal do ataque dela.
Longe dali, na foz do leito seco do rio, Morgan lutava contra os Generais do Terror — os maiores campeões da Horda de Aço e seus troféus mais valiosos. Depois de matar um deles, ela ainda não havia conseguido derrotar nenhum dos seis restantes… ainda. Contudo, eles não haviam escapado ilesos do feroz confronto.
Cada um estava coberto por inúmeros cortes, alguns finos e superficiais, outros profundos o suficiente para deixar marcas em seus ossos. E todos aqueles cortes estavam sangrando.
Os cortes sangravam pouco antes, mas agora o sangramento aumentava gradualmente. Filetes de sangue já escorriam por seus corpos, manchando suas roupas e armaduras de vermelho — era como se os Generais do Terror estivessem sendo drenados de vida por centenas de ferimentos menores, transformando-se lentamente em aparições mórbidas e ensanguentadas.
Azarax lançou um olhar sombrio naquela direção.
Enquanto a Donzela da Guerra e o espectro aterrador que a servia continuavam seu ataque desesperado, ele bloqueava e se esquivava de seus golpes, sempre avaliando a situação.
Azarax tinha confiança de que poderia levar adiante esse ataque, dizimando eventualmente os defensores da cidade. No entanto, a questão era: a que custo? Estaria ele disposto a perder os melhores de seus servos, que havia reunido ao longo de longos anos de conquistas incessantes? Seus troféus mais preciosos… os testemunhos vivos de sua glória. A própria Horda de Aço também sofreria perdas graves — o suficiente para adiar sua próxima conquista, talvez, e dar a seus inimigos restantes tempo para acumular mais poder.
Mesmo que a Donzela da Guerra e seus cinco tenentes mortais viessem substituir os Generais do Terror, isso seria suficiente para saciar sua ambição? A resposta foi… sim, talvez. Quanto mais eles resistiam a ele, mais ele desejava tê-los para si.
Mas ele não precisava apostar tudo em uma única batalha.
As muralhas da cidade já estavam rompidas, e por mais que o covarde Rei Pedreiro tentasse, não conseguiria fechar a brecha em poucos dias. Haveria outra batalha, e outra depois dessa, e outra depois dessa…
Em número suficiente para reduzir lentamente os defensores da cidade a pó, sem precisar sacrificar tantos. E assim, Azarax sorriu sombriamente.
Empurrando a Donzela da Guerra para trás, ele se desvencilhou e criou distância entre si e o temível espectro, aproximando-se da fronteira do poder do Rei Pedreiro. Ali, ele parou por um instante e então ergueu os braços, como se desejasse abarcar a extensão macabra do campo de batalha ensanguentado.
“Diga-me, sacerdotisa… quantas batalhas como esta você acha que consegue suportar?”
Effie baixou seu escudo surrado, cansada demais para responder. Jet pairou perto dela, observando Azarax friamente, pronta para repelir seu próximo ataque.
… Mas nenhum ataque ocorreu.
Em vez disso, o Rei dos Reis recuou com um sorriso, e logo em seguida, os chifres de guerra da Horda de Aço rugiram, ordenando que os inúmeros guerreiros recuassem.
Effie cambaleou, apoiando-se em seu escudo para se manter de pé. Lá no alto, na muralha, Seishan suspirou e se apoiou no parapeito da ameia, as pedras antigas manchadas de sangue.
Kai observou uma torre de cerco em chamas com uma expressão distante.
Andarilho da Noite praguejou baixinho, lutando para abrir caminho de volta através de um tapete de cadáveres e lamentando o destino de suas botas. Morgan assumiu sua forma humana, observando os Generais do Terror em retirada com uma expressão fria e sombria.
A batalha havia terminado…
A cidade ainda estava de pé.
***
Após o término da batalha, os defensores da cidade estavam exaustos e atordoados, demorando a se recuperar do choque da carnificina sem limites. No entanto, a longa e tediosa limpeza ainda precisava ser feita.
Os feridos foram encaminhados aos curandeiros. Os mortos foram contabilizados. Os corpos foram recolhidos, despojados de suas armaduras e queimados. Desta vez, havia mortos demais para serem cremados com fogo comum, então os Despertos com Aspectos adequados foram convocados para realizar a tarefa macabra.
Ao entardecer, enquanto o sol se punha no horizonte, Effie caminhou lentamente em direção ao templo do Deus das Bestas.
Ela havia conquistado mais uma vitória… mas seu coração estava pesado.
Porque essa vitória tinha pouco significado. O rio ainda havia desaparecido. Ainda havia um buraco enorme na muralha da cidade. A peste ainda devastava suas ruas…
E Azarax não ia ficar parado enquanto eles se recuperavam.
Haveria outro ataque, e outro, e outro depois desse. Eles poderiam repelir um ataque, ou dois… ou talvez até uma dúzia.
Mas tudo foi em vão. Na verdade, o destino da cidade já estava selado, e tudo o que faziam era prolongar seu sofrimento. Effie entrou no templo, que havia sido transformado em hospital, e foi conduzida aos aposentos de Seishan. Lá, a orgulhosa Princesa de Song estava sentada no chão, respirando com dificuldade, sangue negro escorrendo de seus poros, entre seus lábios e de seus olhos.
Effie contemplou seu estado deplorável por um instante, depois perguntou:
“Ei, Seishan. Você está mais perto de curar a peste?”
Tremendo, Seishan ergueu os olhos e a observou com os olhos marejados.
“Você quer dizer mais perto do que ontem? Bem… claro. Um pouco mais perto, eu diria.”
Sua voz estava rouca e frágil.
Effie permaneceu em silêncio, observando-a com uma expressão sombria. Na penumbra do santuário interior, profundas sombras se projetavam em seu rosto. Ela ficou em silêncio por um longo tempo. Finalmente, porém, ela disse:
“… Não a cure, Seishan.”
Effie inclinou-se para ela e disse em voz baixa:
“Em vez disso, faça com que fique mais forte.”

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