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    Após ler as primeiras linhas, Sunny percebeu que as runas ancestrais haviam sido deixadas por Nether. Por que mais os Santos de Pedra construiriam seu assentamento ao redor do imponente obelisco negro, protegendo-o mesmo enquanto eram consumidos pela Corrupção? A identidade do autor não era nenhum mistério.

    Conforme Sunny continuava a ler, porém, sua expressão foi mudando gradualmente.

    A princípio, ele presumiu que a escuridão com a qual Nether falava fosse uma personificação metafórica da verdadeira escuridão — ou talvez uma poderosa Criatura das Trevas. Afinal, o assentamento em ruínas estava localizado no Submundo, que Nether outrora reivindicara como seu reino. Portanto, ter uma conversa com a força elemental que habita o Submundo pareceria apropriado.

    Mas assim que a morte e a paz foram mencionadas, Sunny percebeu que, no contexto daquela conversa, a escuridão só poderia representar um ser — o Deus das Sombras, o deus da paz e do consolo.

    Isso chamou imediatamente a atenção dele. Nas inscrições deixadas nas paredes da Torre de Ébano, Nether perguntou:

    “O que é a vida?”

    E no poema esculpido neste obelisco negro, ele perguntava:

    “O que é a morte?”

    Ao que tudo indicava, o Demônio da Escolha tinha um grande interesse por filosofia.

    Mas, na verdade, havia um detalhe muito interessante escondido no poema de Nether que não tinha nada a ver com a pergunta dele, nem mesmo com o próprio Deus das Sombras. Estava lá, logo no primeiro verso…

    “Seguindo os caminhos trilhados pelas sombras…”

    Sunny inclinou um pouco a cabeça.

    Parecia que o poema descrevia uma jornada que Nether — provavelmente uma versão muito mais jovem dele do que o temível Príncipe do Submundo — havia empreendido. Ele explorou o Submundo e, nesse processo, ficou intrigado com as sombras dos mortos que cruzavam aquele reino de escuridão elemental para chegar ao Reino das Sombras.

    Então, ele seguiu em frente, enfrentando o Submundo para encontrar o trono do Deus das Sombras.

    Na verdade, essa era uma coisa que sempre deixara Sunny confuso. Os antigos pareciam acreditar que as sombras dos mortos faziam uma jornada literal, viajando fisicamente para o Submundo, atravessando suas profundezas escuras e finalmente chegando ao seu destino após descerem ao Abismo. Mas Sunny nunca teve certeza se isso era apenas uma crença supersticiosa ou um fato literal. Se a jornada das sombras era uma metáfora ou uma expressão de leis universais.

    Agora, ao que parecia, ele tinha uma confirmação — segundo Nether, era verdade.

    Contudo… nada disso estava acontecendo hoje. Sunny não sabia como as sombras dos mortos chegavam ao Reino das Sombras, mas parecia acontecer quase instantaneamente, sem a necessidade de uma jornada árdua.

    Então, o que mudou?

    Ele ponderou sobre a estranha dicotomia por alguns instantes, depois voltou a olhar para o obelisco com uma expressão surpresa.

    ‘A resposta parece óbvia, não é?’

    Isso porque o mundo não era mais o mesmo. Antes, as sombras precisavam viajar do reino onde haviam perecido até o Reino da Morte, e essa jornada levava algum tempo para ser concluída. Agora, porém, não havia reinos… havia apenas o Reino dos Sonhos. O Reino das Sombras há muito se tornara parte dele, então as sombras não precisavam viajar muito para alcançá-lo.

    ‘Fascinante.’

    Sunny não sabia como aquela informação poderia ser útil para ele, mas ainda assim sentia uma pontada de entusiasmo simplesmente por ter resolvido um novo mistério. O Deus das Sombras não era apenas o deus da paz e do consolo — ele também era o deus dos mistérios. Seria por isso que Sunny nunca conseguia saciar sua curiosidade?

    Balançando levemente a cabeça, ele voltou sua atenção para as runas antigas.

    “Mentira?”

    Foi bastante ousado da parte de Nether acusar o Deus das Sombras de ser um mentiroso. Mas revelou uma verdade maior.

    Sunny sabia que o Demônio da Escolha, e por extensão todos os outros demônios, sentiam algum grau de angústia devido à proibição imposta pelos deuses — pois eram proibidos de gerar descendentes. Dessa forma, seu direito à vida havia sido comprometido. Mas parece que, em algum momento, Nether aprendeu que aos daemons também era negado o direito de morrer.

    Tudo se resumia à pergunta que o próprio Sunny fizera ao Demônio do Desejo no Segundo Pesadelo. Por que o Deus do Sol escolheu aprisionar Esperança em vez de destruí-la?

    Isso porque os daemons eram filhos do Deus Esquecido.

    Segundo Weaver — se Weaver fosse confiável — os daemons não podiam morrer. Eles só podiam ser destruídos. E, ao serem destruídos, a essência do que os tornava indivíduos retornaria ao Deus Esquecido, tornando-o mais forte e mais próximo de despertar de seu sono. O Deus Esquecido era o Defeito da existência, e os daemons eram o Defeito dos deuses. Pelo menos, foi isso que Cassie viu em uma das memórias que herdara.

    Agora que Sunny estudou o poema de Nether, porém, ele passou a enxergar a situação dos daemons sob uma nova perspectiva.

    Se a morte era paz, se trazia a todos o consolo final… então isso não significava que aos daemons também a paz lhes fora negada? Ao mesmo tempo em que suportavam a terrível proibição imposta às suas vidas.

    Não admira que Nether tenha eventualmente se rebelado contra os deuses. Isso aconteceu muito tempo depois dessa conversa com o Deus das Sombras. Durante essa conversa, Nether ainda era jovem e não parecia nutrir sentimentos negativos em relação ao Deus das Sombras.

    E, no entanto, Nether havia prometido destruí-lo.

    Aquela proclamação não foi feita com malícia. Pelo contrário, pareceu misericórdia… Nether teve a morte negada, então prometeu trazer a morte a outro ser que carregasse a mesma maldição.

    Afinal, a morte era um aspecto do Deus das Sombras. O Reino das Sombras era o seu corpo. Ele engolia as sombras dos mortos e as desmantelava em pura essência da alma dentro de si. Então, como o Deus das Sombras poderia morrer? Ele não podia se engolir, então Nether se ofereceu para um dia devorar o Deus da Morte — como um favor.

    ‘Que… arrogância da parte dele.’

    Sunny balançou a cabeça em espanto.

    Ele não tinha certeza de quanto do poema era uma reconstituição factual de uma conversa real entre o Deus das Sombras e Nether, e quanto era uma interpretação literária. No entanto, era evidente que Nether tinha uma relação complexa com os grandes deuses muito antes de sua rebelião.

    Seria o Deus das Sombras o motivo pelo qual ele escolheu conquistar o Submundo e subjugar a verdadeira escuridão? Afinal, a verdadeira escuridão era o que as sombras temiam. Se Nether quisesse cumprir sua promessa, absorvê-lo — e o nada também — teria sido um primeiro passo fundamental.

    ‘Mas ele falhou.’

    No fim, nem a verdadeira escuridão nem o poder do Nada conseguiram destruir os deuses. Em vez disso, eles foram consumidos pelo Feitiço do Pesadelo.

    Não foi Nether quem os matou — foi Weaver. Então, em certo sentido, o único poder que poderia destruir os deuses…

    Foi o destino.

    E era precisamente esse poder que Weaver também queria derrotar.

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