Capítulo 2832 - Os Esquecidos
‘Esquecimento…’
Cassie deixou a lembrança ir embora, a palavra ecoando em sua cabeça com inúmeros significados. Essa mensagem que ela havia deixado para si mesma era o motivo pelo qual Nephis e Sunny partiram — era a origem de tudo o que aconteceu desde então.
Foi por isso que o Domínio Humano caiu enquanto seus governantes estavam ausentes.
Mas o que isso significava exatamente? Cassie ficou paralisada por um instante, dominada pelas vastas implicações escondidas por trás daquela única palavra. Ela estava prestes a compreender seu significado e entendê-lo…
Mas então, algo estranho aconteceu.
Assim que a palavra esquecimento surgiu em sua mente, o oceano escuro de memórias pareceu reagir. Era como se uma ondulação imperceptível se espalhasse por ele, e as memórias brilhassem.
Elas brilhavam e se moviam, girando lentamente em torno de um único ponto — ela, o núcleo informe de sua Vontade. Lentamente no início, e depois cada vez mais rápido, como um vasto e feroz vórtice… ou uma galáxia ilimitada de constelações cintilantes.
Cassie permaneceu imóvel por um momento, hipnotizada pela beleza daquela visão impressionante. Então, de repente, ela sentiu medo. Assim que o fez, o turbilhão de memórias avançou como uma torrente radiante, fluindo para dentro dela como um rio.
‘Argh!’
Cassie soltou um grito mental.
O rio de memórias era vasto demais, avassalador demais. Ela não conseguia lutar contra ele… ainda não. Tudo o que ela podia fazer era se afogar.
‘Não!’
Sentindo a consciência que ela havia reunido com tanto esforço começar a se fragmentar sob a pressão, Cassie cerrou os dentes e invocou sua Vontade. Usando-a como um escudo, ela conteve o fluxo de memórias e as afastou de si, ofegando como alguém que escapa de uma correnteza furiosa.
Ela conseguiu se salvar, mas algumas lembranças ainda invadiram sua mente, cegando-a como um relâmpago.
Ela viu…
O universo como fora, como deveria ter sido, ou talvez como teria sido um dia. Incontáveis reinos existindo separadamente uns dos outros, mas também ocupando o mesmo espaço.
Era uma confluência de reinos. Era a Chama.
Um vasto mundo repousava sob um céu infinito. O céu diurno que iluminava o mundo era o reino do Deus do Sol. O céu noturno que o envolvia em trevas era o reino do Deus da Tempestade. A pálida lua que cruzava o céu era o olho do Deus das Bestas, e iluminava os reinos mortais abaixo.
Os reinos mortais se estendiam por toda parte, povoados por todos os tipos de feras e criaturas — assim como por homens. Abaixo da poeira vermelha do mundo mortal jazia a escuridão pacífica do domínio do Deus das Sombras.
O reino do Deus do Coração, por sua vez, existia nos corações dos seres vivos. Havia uma grande árvore cujas raízes repousavam no Reino das Sombras, enquanto seus galhos sustentavam os céus…
Cassie deu um suspiro de espanto, rejeitando aquela lembrança estranha e inexplicável. Mas sua mente já estava consumida por outra coisa.
Petrificada e horrorizada, ela viu um esqueleto gigantesco erguer-se lentamente, enquanto seus ossos titânicos se formavam e se forjavam. Sua escala era verdadeiramente inconcebível, lançando uma sombra profunda sobre toda a existência.
Os pés do esqueleto esmagavam as fronteiras entre os reinos mortais, e o abismo vazio de seus olhos profundos lançava um olhar malévolo sobre o sol e a lua, como se quisesse contê-los.
No entanto, o esqueleto não era um ser completo… pelo contrário, enquanto Cassie assistia horrorizada, ele estava nascendo.
Carne escarlate crescia e se enrolava em torno dos ossos brancos como a neve, um oceano de sangue carmesim fluía pelas veias do tamanho de rios, imensos órgãos se formavam lentamente na extensão titânica da caixa torácica ilimitada, vastas estepes de pele pareciam cobrir a extensão vermelha dos músculos tectônicos…
À medida que o esqueleto horripilante se erguia e se endireitava completamente, com o crânio raspando no céu, começava quase a se assemelhar a um ser humano.
Cassie sabia que não sobreviveria contemplando a face profana do ser consumado.
Ela gemeu, afastando-se daquela lembrança. E, no entanto, outra já a perseguia.
Os deuses estavam mortos.
Seus cadáveres flutuavam desolados, expelindo rios de líquido dourado que brilhavam como estrelas no vazio. Dentro da sagrada vastidão dos Reinos Divinos, os últimos vestígios daqueles nascidos da Chama lutavam para sobreviver na ausência da divindade.
Um câncer vil se aninhava entre os reinos mortais devastados pela guerra. Já havia consumido muitos deles, formando uma massa de escuridão profana no âmago da existência. Essa escuridão estendia seus tentáculos aos mundos mortais ao seu redor, absorvendo-os lentamente.
As poucas almas infelizes que ainda sobreviveram ali estavam condenadas a um destino horripilante e terrível.
Isso… foi o nascimento do Reino dos Sonhos. No entanto, algo mais havia nascido ao mesmo tempo.
Ela nascera no espaço oculto entre os reinos, entre o sonho e a realidade, tecida a partir dos Fios do Destino. Sua vasta e insondável tapeçaria brilhava com luz prateada na escuridão, atrelada às almas das divindades caídas que consumira.
Era o Feitiço do Pesadelo.
O Feitiço do Pesadelo esperou pacientemente enquanto o Reino dos Sonhos absorvia lentamente todos os reinos mortais restantes, tornando-se vasto e aterrador. Esperou enquanto a escuridão profana estendia seus tentáculos em direção ao primeiro dos Reinos Divinos restantes — o Reino do Sol. Esperou enquanto o Pesadelo se esforçava para penetrar as paredes que cercavam os restos do Deus do Sol.
E somente quando as Sementes do Pesadelo floresceram nos corações do povo de Mictlan e das terras ao redor, o Feitiço infectou também o mundo moribundo. Ele dizimou a população do Reino do Sol, colocando à prova todos aqueles que carregavam as sementes da Corrupção em suas almas.
As próprias Sementes se tornaram os campos de batalha para as provações do Feitiço: aqueles que sobreviveram trilharam o Caminho da Ascensão e escaparam da Corrupção, aqueles que não sucumbiram a ela e se tornaram Criaturas do Pesadelo. O Feitiço impulsionava seus portadores rumo a um poder cada vez maior, sem conhecer misericórdia ou compaixão em seus métodos cruéis.
Mas, no fim, o Reino do Sol caiu.
Então, o Feitiço do Pesadelo recuou e esperou mais uma vez. Até a queda do Reino das Bestas. E assim, o Feitiço do Pesadelo recuou e esperou mais uma vez…
De novo e de novo.
No fim, restou apenas o Reino da Guerra.
Cassie escapou daquela lembrança horrível, já sabendo o que aconteceria em seguida.

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