Capítulo 2935 - Tempo Exterior
A Primeira Procuradora estava morta… devorada pelas mesmas abominações que havia criado. As abominações também estavam mortas.
Daeron do Mar Poente havia desaparecido. Cronos, o Rei do Povo do Rio, também. Até mesmo o Grande Rio estava morto, suas águas minguantes imóveis. Silêncio e desolação reinavam agora no Túmulo de Ariel, mergulhado em trevas.
O Destruidor do Tempo navegava pelo vazio escuro e desolado do Túmulo de Ariel, aproximando-se cada vez mais do Estuário. Na verdade, Sunny calculou que já deveriam tê-lo alcançado — mas não havia nada além de uma escuridão silenciosa ao redor deles. Sem água, sem névoa, sem correntes traiçoeiras…
Ele vinha se perguntando como encontrar o coração do Estuário sem a Luz Guia, mas parecia que isso não seria um problema. Ananke estava no leme do antigo navio, com as velas cheias de vento.
Diferentemente do Quebrador de Correntes, o Destruidor do Tempo não possuía uma habilidade inata de voar — não havia nenhuma árvore sagrada crescendo ao redor de seu mastro principal, nem nenhuma matriz rúnica para mantê-lo na vasta extensão dos céus. Em vez disso, ele era capaz de voar porque Ananke estava canalizando um Verso que o concedia.
Ela já era uma Moldadora experiente quando se conheceram no Pesadelo, e sua habilidade como feiticeira parecia ter se desenvolvido muito desde então. Ela também podia usar sua Vontade agora — então, não foi tão surpreendente vê-la manter o antigo navio flutuando no ar com maestria.
Mesmo assim, foi uma visão incrível.
“Devemos chegar à Arca em breve.”
Sunny olhou para ela e finalmente fez a pergunta que estava em sua mente desde o momento em que se conheceram.
“Quantas pessoas ainda restam naquela fortaleza do tempo?”
Ananke permaneceu em silêncio por um instante, olhando para o horizonte com um toque de melancolia em seus belos olhos. Por fim, disse simplesmente:
“Nenhuma.”
Ela examinou os instrumentos de navegação de bronze dispostos à sua frente no convés do Destruidor do Tempo e suspirou.
“A Arca sobreviveu a Verge, mas no fim, também desmoronou. Afinal, o tempo não poupa ninguém… tudo sucumbe à sua tirania. Nem mesmo os deuses escaparam do seu destino, então como poderia algo criado por mortais existir para sempre?”
Ananke balançou a cabeça negativamente.
“Para nós, parecia que apenas alguns anos haviam se passado, mas milhares de anos devem ter passado pela Arca antes que sua magia finalmente se dissipasse. Quando emergimos, o Grande Rio estava completamente diferente. O Túmulo de Ariel havia se tornado estranho para nós, e precisávamos explorá-lo como pioneiros.”
Sua expressão se tornou sombria.
“É claro que descobrimos que aquele lugar não era mais adequado para a vida humana. Não podia nos sustentar. Íamos morrer de fome, assim como os Profanados morreram… e pior ainda, não éramos os únicos que ainda habitavam o Túmulo de Ariel.”
Ananke fez uma careta.
“Tudo tem consequências, entende? Cronos quebrou o Grande Rio para salvar o Povo do Rio, mas ao fazer isso, ele desencadeou os eventos que um dia destruiriam a Arca — e condenariam o povo que ele queria proteger.”
Ela lançou um olhar para o vasto vazio que os rodeava.
“Este costumava ser o Estuário… um lugar onde o passado fluía para o futuro. Um lugar atemporal. Foi ali que Cronos e Daeron construíram a Arca. Eles usaram a natureza do Estuário para fortalecer a feitiçaria que a mantinha oculta fora do tempo e a ancoraram às águas do Estuário. Foi um projeto brilhante, de fato. Mas…”
Sua expressão tornou-se melancólica.
“Mas o rio estava morto. Suas águas estavam ficando rasas. A distância entre o futuro e o passado estava diminuindo, e logo o rio começou a secar. Tudo começou no estuário, e quando o estuário secou, a Arca se desprendeu. A magia que a sustentava ficou sem fonte, e nós ficamos sem um porto seguro.”
Ananke olhou de relance para Sunny e Nephis.
“Havia muitas coisas que precisávamos descobrir. O destino da Primeira Procuradora e da Orla, as áreas rasas do Rio, a desolação que nos deixou sem fonte de sustento… mas, acima de tudo, descobrimos que os Profanados também desempenhavam um papel importante.”
Ela balançou a cabeça negativamente.
“Eles detiveram os horrores que habitavam a aurora dos tempos, nos confins do Grande Rio. Com a partida da Primeira Procuradora, nada mais os impedia de nadar rio acima. Ao mesmo tempo, o comprimento do rio diminuiu consideravelmente, e a distância entre o que antes era passado e o que antes era futuro não era tão vasta quanto antes. Assim, os horrores do futuro distante também seguiram rio abaixo.”
O sorriso dela ficou um pouco sombrio.
“Mesmo com a Corrupção desaparecida, o Rio fervilhava de abominações terríveis. Não havia abrigo para nós em lugar nenhum, nem nada para nos sustentar… pelo menos não toda a população da Arca. Todos os dias, lutávamos desesperadamente pela sobrevivência — e a cada dia, a salvação parecia mais distante. Estávamos à beira da extinção… íamos morrer, assim como o resto deste mundo morto.”
Nephis falou em tom baixo:
“Mas, obviamente, você não morreu, Ananke.”
Ananke deu uma risadinha.
“Sim, isso é verdade. E por uma razão muito simples.”
Ela olhou para o horizonte e suspirou.
“Foi por causa de Cronos — do que ele me disse antes de nos separarmos pela última vez. Ele disse que se eu perseverasse tempo suficiente… se eu sobrevivesse tempo suficiente… então um dia, os Filhos de Weaver viriam e trariam a salvação consigo. E assim, eu me esforcei para sobreviver. Eu esperei.”
Sunny e Nephis permaneceram em silêncio, sem saber o que dizer. Ananke, entretanto, olhou para a frente e sorriu.
“Ah. Aqui está… a Arca.”
Eles também olharam para a frente. Ali, os ossos de uma serpente colossal flutuavam no vazio. De longe, o grande esqueleto parecia um anel impecavelmente branco, com contornos nítidos contra a escuridão infinita…
Devorando a própria cauda…

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