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    Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.

    De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!

    Ódio percorreu pelas veias de Vylon. Desejava interromper o ritual, além do mais, Liane não tinha culpa das casualidades, muito menos merecia ser torturado por aquele procedimento. Quando o selo provisório foi construído para manter Er’Ika dentro da criança, Cristal realizou inúmeras exigências para se livrar do problema de uma vez por todas.

    Aquela aberração, seja lá o que fosse, não era de origem nem divina e nem demoníaca, uma amálgama de mistérios cuja existência era perigosa demais para vagar livremente. Por isso, ela assumiu a função de terminar o processo de selamento. Os milagres usados durante o caos em Verdan eram apenas uma medida temporária, que desapareceria a qualquer hora.

    Vylon acreditava cegamente que a entidade Er’Ika recuperaria sua consciência e tal coisa não se repetiria, porém, como explicar isso para sua superior, a Pura Cristal? Ela viu do começo ao fim como a cidade virou de ponta-cabeça e como mesmo depois de devastarem os cultistas, ainda sobrou aquela ameaça que facilmente destruiria sem discernimento os inocentes e pecadores.

    Apertou os punhos, queria intervir e parar de uma vez aquele sofrimento, no entanto, não possuía coragem de se impor. Caso fizesse, perderia a posição de bispo e seria considerado herege, alguém contra a vontade da igreja e da deusa. Ao mesmo tempo que Cristal trazia palavras doces para a multidão, era igualmente capaz de destituir um figurão com o apontar do dedo.

    Vylon não queria perder sua posição, mas simultaneamente procurava um modo de salvar Liane. Um grito rangeu seus ouvidos, repleto de agonia que rachou os vitrais. Liane, que antes sofria imerso no silêncio, emitiu pulsos de energia, dessa vez comprimidos não de poder divino ou demoníaco, mas pura mana, força vital circulando pelo ambiente em alta-velocidade.

    Suas mãos lentamente mudaram para o vermelho, a ponta dos dedos ficaram pretos. Os olhos, ainda soltando rios de sangue para o piso de mármore, ganharam um fulgor azulado, afetando o ar que se encheu de estalos elétricos criando aros em volta do círculo que o prendia.

    Rachaduras apareceram na superfície, Cristal assumiu a função de fechar as falhas, executando a tarefa de tanto contê-lo na prisão quanto continuar o processo de selamento, reforçando o vínculo entre Er’Ika e Liane com fios grossos entre as almas. A expressão da santa, no entanto, era péssima, a divisão de tarefas estressou a mente ao limite, com suor descendo pela testa devido ao excesso de concentração.

    A respiração descontrolada, somada a exposição progressivamente mais poderosa de mana, causou um terrível contratempo para a moça, que já não sabia como lidar com tantas informações voando ao seu redor. Um pilar dourado despencou na cabeça de Liane, forçando sua cabeça a bater contra o chão e intensificando a agonia. Os demais fieis em volta da barreira se prontificaram, utilizando as reservas de energia sagrada para manter as proteções de pé.

    Cristal sentiu o tempo desacelerar, um resultado da adrenalina correndo enquanto tentava terminar o processo do selo, tecendo linhas arcanas e divinas para fechar por completo aquele monstro. Quando terminou, o oxigênio retornou ao pulmão, porém… já era tarde para sustentar as barreiras.

    Uma explosão de mana derrubou o teto da catedral, os vitrais despedaçaram com a forte ventania da explosão, enquanto as paredes caíram igual castelos de areia. Liane era o epicentro do desastre, liberto da prisão sagrada. No entanto, estava paralisado, imerso numa hipnose de tanta energia arcana fluindo pelo sangue. O brilho lentamente se perdeu, até sobrar nada além do garoto ali, com as mãos trêmulas e repleto de dor.

    Seu olho esquerdo, anteriormente azulado como o céu da manhã, tornou-se completamente carmesim, igual ao direito. Sangue impedia de ver qualquer coisa à frente, então apenas desabou. O procedimento firmou o vínculo mais uma vez entre a entidade e a criança, porém, a criatura estaria adormecida dentro dele por uma eternidade. Mesmo depois da morte, aquilo jamais retornaria para o mundo real, preso entre o plano espiritual e o mundo dos vivos.

    Cristal, após averiguar que sua equipe estava bem, aproximou-se da criança. Sequer houve reação, aliviando a mente tensa da santa. Ao confirmar que estava vivo, chamou Vylon:

    — Bispo, levarei esse pequeno para a sede, a Basílica de Presden. Ele ficará contido lá para evitarmos que isso se repita, e também garantir que o selo não seja quebrado. Arrume homens e mulheres para o caminho de volta, alguns dos meus morreram durante o desastre com o… monstro.

    Vylon ainda estava em choque, boquiaberto com o número de acontecimentos em sucessão. O que menos esperava, no entanto, era Jessia ter dado um passo em frente e ido rumo a Liane. A antiga bandida ignorou por completo a presença da santa, agarrando os ombros do menino para deitá-lo com a barriga para cima. Seu rosto estava péssimo, pálido e contido em sofrimento.

    — Você… o que pensa que está fazendo? — perguntou Cristal, pegando o pulso da mulher. — Saia de perto.

    Não houve resposta, ela estava travada feito uma rocha, encarando fixamente aquela face desmanchada. Muitas coisas aconteceram no passado para querer matar tudo e todos, então porque justamente agora uma culpa queria atormentá-la?

    — Não ouviu? Ordeno que…

    O punho de Jessia atingiu o rosto de Cristal. A santa caiu para trás, um estalo desagradável ecoou no ambiente. Ela, com as pupilas arregaladas, não sabia o que responder a paladina à sua frente, esbanjando a armadura branca que devia ditar o certo e o errado no mundo.

    — Enlouqueceu?! Como ousa por suas mãos em mim, paladina?!? Deseja ser excomungada?!?!

    — Que se foda. — Jessia puxou um símbolo de triângulo guardado por baixo da armadura, num colar, e partiu as cordinhas, lançando aos pés da santa. — Sabe, eu amo o dinheiro que me dão, até pensei que seriam diferentes do que sempre imaginei e vi… mas me enganei. Vocês são podres, são nojentos igual os nobres.

    — Nós protegemos os fracos e fizemos justiça! Eu não poderia permitir que aquele ser continuasse vagando livremente, é perigoso demais!

    — Eu tenho cara de retardada, sua piranha? Sei melhor do que qualquer um como aquela merda é perigo, porém, me recuso a aceitar que você, a mais santa de todas dentro da igreja, torturou uma criança e ainda por cima acredita estar na razão de levá-lo embora! Não deve ter nem noção do que o garoto sacrificou, e muito menos deve saber porquê ele ajudou o lixo de igreja de vocês, né? É claro que não, além do mais, quem se importaria com uma criança aleatória numa cidade grande?

    Ela arrancou os pedaços de armadura e a desmontou, jogando todas as peças no chão até sobrar uma cimitarra do qual comprou justamente para substituir a antiga. Cruzou os braços, se impondo entre Cristal, os fieis e Liane.

    — Esse moleque não vai a lugar nenhum. Vai ter que passar por cima de mim se quiser levá-lo.


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