Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.
De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!
Capítulo 174: Leal Serva
A primeira coisa que Liane fazia antes de sair de casa era colocar o par de luvas presenteados por Silva. Elas não apertavam, na verdade, pareciam ter as medidas corretas para as suas mãos atenuando uma presença feminina no garotinho por conta de sua aparência frágil. Não demorou para os outros tomarem nota disso, especialmente Celine, quem se responsabilizava por lavar roupas.
Às vezes, encontrava as luvas dentro do cesto. Na primeira vez, estranhou muito a existência delas, pensando serem de alguma outra pessoa e terem caído ali por coincidência… até que, durante o café da manhã, o mestre Liane revelou sem rodeio nenhum que Silva lhe entregou aquele par, e que usaria enquanto fosse possível.
Ela estranhou muito esse comportamento, pois era a primeira vez que demonstrava tanto carinho e afeto por um presente, diferente das outras vezes com as dezenas de embrulhos colocados na porta de casa. Depois que Liane partiu de casa, Celine se concentrou nas atividades rotineiras, de deixar a casa brilhando, preparar o almoço para madame Zana, lavar as roupas e tudo o que fosse necessário. No entanto, sua mente recriava a imagem das luvas na cabeça.
“Seriam as mãos…? Mestre Liane já murmurou alguma coisa sobre elas. Será que ele as odeia?”
Era seu palpite atual, considerando o número de vezes que viu seu mestre mexer os dedos, encarar as palmas e até suspirar de decepção. Depois de receber o presente, esses comportamentos reduziram grandemente. Por algum motivo, uma raivinha surgiu quando pensava a respeito. Ela queria também trazê-lo felicidade, mas aparentemente não encontrava uma solução.
Seu pulso apertou um pouco, acidentalmente quebrando a colher de madeira. Uma metade caiu dentro da sopa, enquanto a outra alimentou a fogueira abaixo do caldeirão. Veias pulsaram no pescoço, agora a comida ficaria com um gosto esquisito se não fizesse nada a tempo.
— Está tudo bem? — questionou Zana, sentada numa cadeira da cozinha. — Escutei o som de algo rachando…
— Não é nada, madame. A colher apenas quebrou.
Celine enfiou a mão na água fervente e conseguiu retirar a metade perdida sem se queimar, um truque aprendido durante suas práticas com a nova habilidade. Ela descobriu que poderia criar uma camada protetora sobre a pele que repelia qualquer coisa ao redor, assim, só usou em menor escala no braço e conseguiu evitar queimaduras ou até sentir calor.
Após jogar a parte quebrada para as chamas, subiu um pequeno banquinho para apanhar outra colher, voltando a mexer a sopa sem pressa. Os legumes cortados boiaram na superfície, enquanto um aroma terroso e doce subiu junto. Ao menos, cozinhar era uma atividade mais calmante do que o normal.
Ela nem mais pensava nos assassinatos, pois desde que passaram a morar com Sir Merk, as despesas eram cobertas e as duas só precisavam realizar tarefas domésticas. Disso, a adaga ficou de lado, a pequena assassina agora focava suas energias em melhorar o poder entregue por Er’Ika na esperança de um dia substituir os paladinos que protegiam o mestre Liane.
— Celine… — chamou a mulher ruiva, vendo-a colocar um prato de sopa na sua frente.
— Sim, madame?
— Você tem me acompanhado até aqui, mostrou muita lealdade ao Liane e também o protegeu o máximo que pôde, não é mesmo?
— Agradeço os elogios, madame.
— Não estou dizendo isso porque quero elogiá-la, na verdade, é por outro motivo.
As palavras deram arrepios pela coluna da garota, que se virou de uma vez e encarou os olhos parcialmente escondidos pelos fios de cabelo vermelho de Zana. As íris esverdeadas refletiam uma espécie aviso oculto, como se não pudesse falar nada ali.
— Madame, o que há de errado? Pode me explicar?
— Como você vê, não tenho mais condições para retomar o trabalho de assassina… o danos nesse corpo levarão anos para sararem, e quando passarem, eu já estarei longe do meu auge. Eu também não estou em condição de proteger Liane ou investigar quaisquer ameaças ao redor.
A maneira como a fala de Zana soava era tratando sua carne igual uma ferramenta, um meio de satisfazer as ordens dos superiores. De fato, ela se devotou tanto a Lâmina Fantasma que se tornou uma lenda viva, não à toa ganhou o título de Loba Vermelha e passou a trabalhar diretamente para a misteriosa líder da organização, cuja identidade era escondida com a vida dos próprios integrantes.
Se a situação andasse da forma que estava pensando, a conversa entraria em um rumo perigoso num piscar de olhos.
— Celine, você é uma garota muito inteligente… — continuou a ruiva, dessa vez esboçando um sorriso curto. — Creio que será ótima no seu trabalho daqui alguns anos, considerando também essa sua habilidade misteriosa.
Foi algo discutido antes. Após Zana acordar, um relatório detalhado foi repassado, e a menina jamais esconderia segredo de sua superiora, logo, também mencionou sobre a obtenção de um poder misterioso que vinha tentado entender e melhorar, mas sem muito sucesso.
— Serei direto ao ponto: nós precisamos trazer o seu talento à tona. Madame Isis sabe da minha condição, então farei uma sugestão em breve para colocá-la como protetora dele. Se você fosse uma covarde ou até uma fracote inútil, já teria corrido com o rabo entre as pernas e Liane não teria se apego tanto a ti, por isso, quero que assuma o meu lugar como guardiã de Liane oficialmente.
O queixo de Celine caiu, ela colocou-o de volta no lugar apenas para perder a respiração por um breve momento. Substituir a Loba Vermelha, a assassina idealizada pelas grandes organizações criminosas e temida no submundo? Soava, e era, um absurdo. No entanto, elas estavam falando de um garoto bobo que teve responsabilidade por salvá-la, por encantá-la pelo mundo e subverter sua visão sobre os humanos, que antes enojava e odiava tanto.
Ela respirou fundo e mais uma vez olhou na direção de Zana, sua chefe e agora mestra.
— Eu aceito esse fardo, madame. Me use como achar melhor.
Ajoelhou-se no chão, revelando a adaga escondida na coxa para as mãos dela. Depois da mulher aceitar sua submissão, um regime infernal começou na vida de Celine, um treinamento do qual se arrependeria de aceitar, mas que era necessário para um futuro melhor.
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