Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.
De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!
Capítulo 184: Interferência Oculta
— Isso não faz sentido…
A Santa Cristal estava de pé na frente de Liane, vendo-o deitado num altar de pedra e imerso no sono. Os símbolos ao longo do selo na alma do garoto tremiam, parecendo que se desvaneceriam no menor sinal de força. Ela meneou os dedos através da linha interligando o espírito da entidade e da criança, revelando uma estranha conexão escura igual piche, que lentamente caminhava em direção ao espectro da criança.
Tons pálidos tomaram a face da Santa. Ela elevou seu cetro acima do garoto e o envolveu com poder divina, criando uma película sobre a ponte interligando os espíritos. Vylon também estava presente na sala junto de Grey, todos se encontravam no subsolo da catedral, reservado para o alto escalão e para rituais importantes, no entanto, quando o paladino chegou gritando com todos a respeito do estado de Liane, eles escolheram correr para um lugar calmo para avaliar a situação em segurança.
Resquícios do selo, como o triângulo que era a peça angular para manter a entidade presa, estavam se deteriorando enquanto Cristal analisava o estado da criança. Fora o sangue cuspido, nenhum outro sinal de ferimentos apareceu, sendo um mistério ainda maior para a santa. Sabia que cedo ou tarde aquela entidade chamada Er’Ika se manifestaria de algum jeito, mas aconteceu muito rápido.
Pior ainda, a interferência colocou o receptáculo em um estado de adormecimento profundo, o que poderia ser um sinal para várias coisas: a criatura tentava dominar o seu receptáculo, o espírito causou dano psicológico permanente ou estava conversando com o garoto nos confins de sua mente. Esses eram os padrões que Cristal identificou ao longo do seu tempo de serviço como santa, e também por assumir a responsabilidade de selar e exorcizar espíritos desconhecidos. Temores se instalaram nas suas mãos agora trêmulas.
Se a entidade dominasse o receptáculo, a cidade inteira… não, talvez o país pudesse entrar em apuros. A dúvida sobre a índole da entidade, assim como seus objetivos, trouxe diversas paranoias a santa ao longo dos meses, ela não queria se encontrar com aquele monstro horrendo novamente e muito menos dar sofrimento ao pobre menino. De repente, os olhos de Liane se abriram.
Ele se ergueu quase num salto, seu tronco se elevou para cima. Cristal não perdeu o foco, ainda com a arquitetura do elo entre os dois diante de si, mas teve uma enorme dor no coração devido ao susto. O menino olhou para um lado e para o outro, então apertou o pescoço.
— A… a… a…
De repente, as cordas vocais não queriam funcionar. Seu músculos também tremiam, enquanto os olhos foram para um ponto isolado distante naquela sala. Uma sombra oscilava por trás dos olhos vermelhos, igual um fogo negro infernal que amaldiçoava a terra dos vivos. O coração de Liane apertou, palpitando mais alto com o andar dos segundos, enlouquecendo-o com um grito reverberando pelas paredes da catedral. A sua voz saiu do âmago, manchando a realidade com a própria loucura.
Grey pensou em intervir, mas a mão de Vylon o impediu. Cristal não havia terminado o processo no selo, intervenções poderiam ferir gravemente a alma do garoto se acontecesse. Teriam de permitir seu estado desolado se fosse para salvar sua vida. Depois do que pareceu uma eternidade, a santa abaixou a mão e o cajado, retirando o poder divino sobre o garoto.
Ele ainda tremia, esboçando tanto medo ao ponto de assustar os três integrantes da igreja. A santa estendeu o braço e tocou-o no ombro. Uma expressão aterrorizada surgiu na face enquanto virava a cabeça para Cristal, cuja preocupação não poderia ser ainda maior. Aquele desespero, aquela reação, só podia significar que Liane viu algo — uma visão terrível com base na consciência da entidade selada.
A santa envolveu a criança num abraço, afagando sua cabeça e tentando afogar o medo.
— Está tudo bem agora, você voltou para nós. Aquilo já passou.
O ar fluía descontroladamente pelos pulmões, dando a sensação de que espinhos rasgavam o peito. Ele apertou as robes da mulher, tremendo mais do que uma flor ao vento. Liane sentia que a qualquer instante sua carne apodreceria, desmanchando-o de volta para a memória bizarra.
Cristal lançou um olhar aos dois homens próximos a entrada, realizando um gesto com a cabeça para saírem. O baque de uma porta de madeira ecoou pela sala, e então, somente as labaredas de tochas e uma suave luz do teto entrou no lugar, permitindo um pouco de calmaria retornar a mente. Demorou um tempo para afrouxar o aperto, pois só naquele momento teve a segurança necessária para sobreviver ao pesadelo de pouco.
Ergueu o queixo um pouco, deparando-se com a face de Cristal. Os dois verdadeiramente não eram muito próximos, na verdade, Liane temia aquela mulher devido ao selamento, exceto por essa breve ocasião. Afastou-se, encolhendo numa bola, agora seu coração pulsava num ritmo normal novamente.
— Grey me contou que você desmaiou a caminho da casa de Ludio. O que aconteceu?
— Eu não sei, eu não sei… Quando apaguei, vi… uma pessoa. Era muito similar a Erika, mas não era ele. Era um monstro feito olhos e sombra, que me mostrou várias coisas assustadoras.
A santa se sentou sobre a mesa de pedra ao seu lado, tratando de segurar suas palmas para manter a calmaria. Foi extremamente efetivo, pois o calor dos dedos evitaram da cabeça entrar em combustão com o tanto de pensamentos fluindo.
— E o que ele revelou? Consegue se lembrar?
— Uma terra de gelo cheia de demônios, então vi uma torre de areia no deserto com um pássaro gigante e uma cidade protegida por um relógio próximo a um vulcão. Não entendi o que eram aquelas coisas… Quando voltei, a… coisa olhou para mim de novo.
“Uma visão”, concluiu Cristal. — Certo, deite-se um pouco aqui, você deve estar muito cansado. Eu vou apenas conferir o estado do seu selo, tudo bem? Não irá doer.
Liane acenou e deitou-se na cama de pedra, enquanto uma teoria era tecelada na mente da Santa. Visões eram fenômenos que aconteciam com qualquer um envolvido nas atividades espirituais, sejam elas divinas, demoníacas ou dos seres mundanos no mundo. Elas revelavam aos mortais segredos e se concentravam muitas vezes num tempo passado, sobre os tempos antigos daquele ser em específico, mas a descrição dada por Liane não parecia exatamente se correlacionar com isso.
Uma torre gigante, um domínio infernal e uma cidade protegida por um relógio. Eram três instâncias diferentes, sem aparente correlação, e que atiçou os nervos de Cristal pelo medo do que poderiam significar.
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