Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.
De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!
Capítulo 189: Presente de Aniversário
As paredes da Escola de Esgrima Nello eram altas e limpas demais. Tudo cheirava a ferro, grama molhada e suor. Silva se erguia sempre antes amanhecer, vestia o uniforme bordado com o brasão da família e atravessava os corredores silenciosos até o pátio de treino. Nenhum instrutor os acordava, os alunos quem se saiam da cama e arrastavam seus cadáveres rumo ao início do dia, desbravando suas espadas com um olhar afiado.
O instrutor não pegava leve com ela. Ninguém ali pegava. Os outros alunos eram todos filhos da elite, filhos de nobres, gente que aprendeu a usar a espada antes mesmo de saber escrever. Ela também, mas diferente da maioria, não estava lá para agradar aos pais ou ganhar repertório, muito pelo contrário, o motivo era para satisfazer o ego, para derrotar qualquer um no seu caminho.
Ela derrubou um jovem dois anos mais velhos com um golpe de espada, em seguida pisou contra seu peito e apontou a lâmina para seu pescoço. O olhar que recebeu era de puro medo, talvez a imagem de uma bela moça esmagando seu espírito de luta voltaria para amaldiçoá-lo em sonhos, ou despertaria algum tipo de desejo desconhecido dentro dele. De qualquer modo, a vitória foi garantida, no sinal do instrutor, ela recolheu a espada e colocou de volta na bainha.
Tirou o elmo da cabeça. Seu cabelo caiu nos ombros, preso por um laço simples ao invés dos enfeites caros promovidos pela aristocracia como forma de aumentar a beleza. No entanto, dentro da Escola de Esgrima Nello, o que importava era a eficácia e a arte de matar. O estilo e dinheiro não importava se você estivesse morto antes de seu oponente.
— Bom trabalho — elogiou o professor, um homem carrancudo e careca cuja cabeça era mais radiante que o metal da lâmina. — Saiam da arena. Os próximos, entrem logo!
Silva caminhou lentamente para fora do espaço e sentou-se num banco de madeira. Do seu lado direito, o príncipe Renviel cruzava as pernas e esboçava um sorriso arrogante. O motivo dos dois estarem juntos era devido à sua idade, ambos fizeram quinze anos e logo no início do semestre foram chutados diretamente para lá. Inevitavelmente, também compartilhavam classes, então acabaram só se acostumando a presença um do outro.
— Não acho que precisou ir tão longe ao ponto de humilhá-lo.
— Só quero sair daqui o mais rápido possível, Vossa Alteza.
O comentário foi seco e direto. Ela ainda lembrava da memória de casa, de quando entrou na carruagem rumo a Escola, mas as únicas pessoas que vieram cumprimentá-la antes de sua despedida eram seu pai, mãe, Sir Merk e Sir Joshua. Liane não apareceu, na verdade, desde o aniversário nunca mais o viu. Ela odiou aquela despedida com seu sangue, mesmo assim, não pôde culpar a amiga. Era um pedido direto do marquês, que plebeu seria louco de recusá-lo? Além do mais, Liane era uma pessoa submissa, qualquer sinal de perigo a faria recuar.
“Você deveria ter pelo menos vindo se despedir…”
Silva apertou o cabo da sua espada. Seu olhar voltado para o chão apenas mexeu os sentimentos conflituosos dentro de si. O dia acelerou rumo a noite, com aulas e o cronograma padronizado da Escola, cheio de treinos infernais. A nobre nunca economizou esforço, além do mais, seu sonho era desde o princípio acompanhar os passos de seu irmão mais velho, que também estudou e aprendeu muito aqui. No entanto, sentia-se vazia, isolada do mundo exterior, como se faltasse algo para satisfazê-la.
A lua subiu no horizonte, acompanhada de feixes negros que escureceram os céus. Silva perdeu as horas brandindo a espada contra o vento, dançando loucamente sobre a areia e fazendo o ar assobiar diante da sua arma. Suor escorria pelas costas por debaixo da armadura de couro, consumindo seu corpo entre calor e o frio noturno. Ela observou o céu acima. Uma cena similar aconteceu no dia do aniversário, quando Liane a puxou para perto, e naquele momento os dois foram envolvidos no luar.
O coração da garota pulou uma batida, sangue bombeou para o rosto e sem notar ela já estava de volta a atacar a ventania colidindo contra seu corpo. Então, após o que pareceu uma eternidade, cansaço finalmente a consumiu e ela voltou aos dormitórios.
Silva sentou na cama e respirou fundo, cansada demais para até pensar direito. Eis que, lembrou-se de uma coisa guardada abaixo da cama. Ela pegou uma caixa de madeira, modesta e sem muitos detalhes. Este era o último presente de Liane. Em nenhum momento o abriu por medo de esquecer da sua melhor amiga, de conter algo especial demais ao ponto de nunca se perdoar por destravar a caixa.
Naquele momento, Silva absorveu toda a coragem e tirou os ganchos, revelando o conteúdo dentro. Havia um par de luvas peroladas finas, com o símbolo de sua casa desenhado ao longo da peça de roupa. Por fim, havia uma carta enrolada com uma fita vermelha, num lindíssimo nó. A jovem engoliu seco e tirou o nó, lendo a carta.
Para Silva,
Esse provavelmente será o seu último presente. Fiz ele com todo carinho, lembrando de quando você me deu as suas luvas daquela vez. Eu quero retribuir o favor e também quero te desejar sorte na Escola de Esgrima, que você treine bem muito e volte pra gente conversar sobre suas aventuras lá!
Como também irei para a Academia de Magia, talvez a gente não se veja por um tempo, então fiz isso para você não esquecer de mim, tá? Se conseguir, vista as luvas, tem uma surpresinha nelas! Ah, e elas se reconstroem automaticamente e se limpam sozinhas, então pode usar quando quiser!
Com carinho, Liane.
Era uma carta bem fofa, curta e direta. Parecia típico de Liane, considerando que ele não tinha os costumes nobres de encher o papel com todo tipo de floreio bizarro, nem desenhar e muito menos alongar o que estava escrito. Era simples, mas extremamente efetivo.
Silva olhou para as luvas e tomou um longo banho antes de usá-las.
Mesmo com a função de limpeza, ela não queria sujá-las logo de primeira, seria desrespeitoso. Sentou-se na cama mais uma vez, colocando ambas com o maior cuidado do mundo. Eram leves, o tecido agradável e nem sequer apertavam seu antebraço. Um pequeno brilho saiu das serpentes, arrastando-se ao longo da cauda até a cabeça.
Pequenos carácteres ficaram à mostra, escrevendo algo como “Você é a minha melhor amiga!” em um lado e “Não desista, você é a melhor” no outro. Parecia tão idiota, tão bobinho, mas mesmo assim, foi o suficiente para atingí-la com a flecha de mil cupidos.
Silva as olhou e cerrou os punhos. Ela fez uma ousada decisão na sua mente, mas que a motivaria o bastante para superar tudo e qualquer um na academia em um ano:
“Liane, você será minha mulher!”
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