Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.
De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!
Capítulo 216: Esquecimento Brusco
Liane se enrolou em cordas das quais não gostava, mas que eram necessárias para manter sua identidade oculta. O que ele desejava era pintar um quadro para mudar sua imagem, pois chamar atenção dentro da academia não lhe importava muito desde que tivesse nenhum inimigo. Seraphina era a única contra ele naquele lugar, logo, desde que a colocasse do seu lado, pouco importava o que os outros lhe falassem ou que tipo de ameaças apareceriam sobre sua cabeça.
O objetivo final ainda era libertar Er’Ika por quaisquer meios necessários, então usar o beijo com Solaris para plantar uma outra ideia na mente de Delphiane e Seraphina como um plano de fuga para qualquer alegação lhe soava bom. Ele também sabia que a nobre faria questão de mudar o assunto da conversa caso colocasse seu maior desejo na mesa: o príncipe.
A garota da casa D’Munt faria de tudo para tê-lo na palma da mão, logo, se oferecesse uma ferramenta para alcançar isso, teria uma aliada provisória ao seu lado. O problema foi a promessa.
“Não existem poções que realizam mudanças drásticas nas pessoas. Talvez existem entorpecentes e componentes que causem um efeito na mente, mas se apaixonar é… improvável.”
Resumidamente, Liane fez um acordo que não era possível concluir à primeira vista. Seu plano dentro da academia era combinar o conhecimento mágico adquirido, o demoníaco e divino para contornar as limitações do selo, assim libertando Er’Ika sem que fosse por completo. Grande parte de seus problemas poderiam ser resolvidos com a ajuda da entidade, e então realizar o desejo de se separarem seria plenamente possível.
O garoto estava de volta no quarto. Grey dormia com um sono leve, um bater de asas lá fora o acordaria, mas Liane aprendeu em quase uma década como passar despercebido por lugares. Foi um talento que descobriu passando anos junto de sua irmã e Celine, e que demonstrou ser muito efetivo em assustá-las e fugir de fininho de certos lugares.
Ele contemplou o paladino deitado por um tempo, retraindo a pena para as profundezas da mente. Era muito errado manipulá-lo assim, fazê-lo acreditar que havia um cultista demoníaco escondido dentro dessas paredes da academia, quando na verdade se resumia a um truque de Liane. Enquanto mana consistia numa composição fundamental para aprimorar o corpo ou realizar fenomenos no ambiente, a energia demoníaca e divina eram mais subjetivas, mas também poderiam ser definidas como algo grudento.
Removê-las era um esquema complicado. Er’Ika, antes de ser selado, descobriu um meio de converter as energias e também dispersá-las, mas Liane nunca teve a chance de descobrir esse método, ao invés disso, só encontrou um meio de espalhá-la.
“Essa coisa também me ajudou muito…”
Havia um livro de capa dura em cima da mesa sob o Demonicon. O nome era Necromonicon, um nome pouco criativo e sem menção de um autor. Ele falava a respeito de diversas técnicas para controlar o espiritual, se comunicar com criaturas do além, mexer com os mortos e outros fatores interessantíssimos. Entre os rituais e truques, estava um de dispersão espiritual.
“Por causa dele, posso fazer rituais demoníacos sem ser pego. Basta realizar aquilo de novo e a energia se esvai para o ambiente, apegando-se a outras pessoas ao invés de mim.”
Esta era a razão pela qual a professora foi enquadrada como uma cultista demoníaca. A realidade era que muitas outras pessoas possuíam traço desse poder sem se darem conta, mas a quantidade era tão baixa que somente por toque seria perceptível.
“Ainda assim, eu posso ter sido meio… precoce. Acho que me animei demais quando vi uma chance de contactar Er’Ika.”
Liane queria imitar o jeito frio e calculista dos vilões que tanto leu, mas no final, ele não conseguia. Planejar prevendo todas as consequências e segurar os sentimentos era mais difícil do que pensava, as emoções às vezes lhe levavam a posições ruins. Estava prestes a fechar a porta atrás de si, quando um conjunto de dedos segurou a beirada e impediu de terminar o caminho.
O susto do garoto foi tão grande que ele teve que segurar o grito e engolí-lo. A assombração saindo detrás da porta e olhando-o parecia prestes a arrancar a alma de seu corpo, no entanto, ficou aliviado quando reparou que era somente Solaris. Ele respirou fundo, entendendo que Grey acordou com o ranger da madeira arrastando de maneira brusca.
Engoliu em seco, era hora de colocar uma máscara e atuar, acreditando que o paladino estivesse dormindo.
— Por que você veio aqui?
— Podemos conversar aqui fora?
Ele deu um olhar para trás, notando o lençol de Grey mexer. Sim, estava definitivamente acordado. Deixou a porta aberta, colocando os pés para fora, mas imaginava o que seria conversado naquela noite sem fim. Esse era o único detalhe do qual não encontrou resposta imediata, um meio de contornar a situação vergonhosa que se colocou.
Encostou as costas na parede, acabando por tentar olhar na direção de Solaris, mas sem muito efeito. Essa tarefa parecia impossível quando se lembrava da atrocidade cometida, e pior ainda, a princesa escondia parte dos olhos com a franja e uma sombra por cima.
— Aquilo… aquilo que aconteceu, foi de verdade?
Com certeza falava a respeito do beijo. Liane travou, sua mente corria a todo vapor procurando uma resposta ideal para a circunstância, um meio de contornar o problema, mas a única resposta plausível foi uma meia-verdade.
— Eu fiz aquilo porque Seraphina e Delphiane estavam me vendo, então quis encontrar um meio de dispersar a atenção deles. Os dois só procuram um meio de me difamar, eu fiquei ansioso e… Hah. Não sei, só sei que eu não menti contigo em nenhum momento.
— De verdade?
— Sim, com toda certeza.
— Entendo…
As mãos de Solaris se esconderam nas costas, Liane ficou incapaz de ler sua expressão ou prever seus pensamentos, na verdade, era impossível que isso acontecesse com o tanto de maquinações mentais que a princesa fazia. Seu corpo travou no lugar, querendo achar uma forma de apaziguar as coisas, porque entendeu que não havia convencido a garota.
Preso nos pensamentos, nem se deu conta de Solaris apoiando uma das mãos no seu ombro e inclinando a cabeça para perto, beijando seus lábios. A sensação foi diferente, ao invés do vazio e a ausência de gosto, existia uma espécie de choque elétrico naquele toque, uma sinceridade raramente encontrada no mundo.
Solaris recuou um passo para trás, seus olhos dourados pareciam ter ganhado um novo tipo de frescor, mostrando meiguice e escondendo a ferocidade de um leopardo. Liane perdeu a linha de raciocínio, sua cabeça congelou no tempo e procurou uma razão por trás daquela ação ilógica.
— Então tome a responsabilidade, como falou.
O rosto do garoto tomou um forte tom avermelhado, tão carmesim quanto os olhos, revelando numa das poucas vezes um estado diferente do seu semblante infantil. Ele falou aquelas palavras antes, apenas para esquecer no momento seguinte e ganhar um arrependimento profundo por esse erro.
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