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    Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.

    De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!

    Liane recriou — sem querer — uma cena clássica dos romances que muitas madames leram. A protagonista feminina posta contra a parede, enquanto o par romântico colocava um braço apoiado ao lado de sua cabeça, os dois num beco qualquer tomando o tempo dessa conversa. Se não fosse pela péssima expressão do jovem, isso soaria romântico, mas a carranca que tomou seu rosto, mesmo que a primeira vista fosse fofo dado os traços infantis da face, era um grandíssimo sinal de irritação.

    — O que infernos você tá fazendo?

    A sobrancelha se Solaris se levantou, a pergunta parecia retórica aos seus olhos.

    — Como assim?

    — Por que você começou a falar sobre a taverna e por que empurrou aquele cara? Nós estamos no meio de uma missão, não de um passeio.

    — Por que ele caiu em cima de mim e estava fedendo. Todos eles também pareciam fracassados…

    — Você não percebe que está se comportando da mesma forma que na academia?

    A comparação de Liane foi o suficiente para calar a boca de Solaris, que por um momento perdeu a força nas pernas por não conseguir refutar de imediato. Ele, no entanto, optaria por bater enquanto o ferro estivesse quente, já que também precisava tirar a ideia de casamento da sua cabeça antes que fosse tarde demais, logo, a melhor forma era causando raiva ou tristeza aos outros.

    — Nós não precisamos de uma pessoa para trazer problema, e eu não quero ficar perto de alguém chamando atenção de todo mundo porque os outros fedem. É tão difícil ficar em silêncio? Aqui não é a sua terra, você não pode fazer as mesmas coisas igual lá, se fizer, é o mesmo que pedir pra gente te chutar de volta.

    Solaris abaixou o rosto. Aquelas palavras mexeram num ponto sensível demais, ao ponto do próprio jovem achar que pegou pesado demais… Não, ele resolveu não convencer si mesmo disso. Caso quisesse se livrar de uma tentativa de casamento, o melhor era usar sílabas ácidas do que poupá-la e cair na armadilha que ele mesmo inventou. Era errado, com certeza, mas foi o melhor curso de ação que imaginou para resolver de uma vez o problema.

    Liane largou um suspiro, olhando de volta para a rua cheia de mercadores. Como foi de se esperar, os amigos daquele homem bêbado andavam pela área em busca de dar uma lição na princesinha. O jovem não quis imaginar como a cena seria terrivelmente feia caso Solaris evocasse chamas no meio da vila e queimasse a carne de cada um deles, então para poupá-los, realizou um gesto com a mão para que fosse acompanhado ao longo das vielas.

    Os dois caminharam lado a lado. Ele não esqueceu dos caminhos e nem do formato que as ruas tomavam, na verdade, o cenário ficou engravado na mente por mais tempo do que gostaria de admitir. Nunca esqueceu como enfrentou o cultista demoníaco com o crânio na cabeça, de como seu peito foi marcado por uma chama roxa e que até hoje carregava aquela cicatriz.

    Seu corpo era cheio de marcas, por isso preferia cobrí-lo com tudo o que podia, desde as luvas de Silva às botas altas, do colarinho puxado para cima para esconder o pescoço ao conjunto de roupas por baixo que tentavam esconder tudo. Um suspiro saiu de seus lábios, passou o dedo pela testa em busca de calma, mas era difícil acalmar seu coração turbulento.

    — Liane — chamou Solaris, após tanto tempo de silêncio —, eu sou inconveniente?

    “Um senso de baixa-autoestima apareceu.” O pensamento de Liane foi muito insensível, então para compensar, usou outra resposta: — Não. Você só tem dificuldade de entender coisas novas e subjetivas. Isso é normal, só que… é um problema.

    — Se eu me esforçar, talvez isso possa ser resolvido?

    — Eu não sei. Tem gente que continua assim mesmo depois de tentar muito. Faça como achar melhor, mas você precisa pelo menos entender como as coisas funcionam. É um perigo não ter ideia das consequências das suas ações, você deixa todo mundo em risco.

    Aquela resposta foi um prego no caixão. A face de Solaris caiu tanto que a qualquer momento ela tropeçaria e a primeira coisa a tocar no piso seria o rosto. Os lábios curvados para baixo e os olhos avermelhados depois de levar um esporro não combinava com a imagem forte daquela princesa, cultivada em outro país por meio de combates. Seria por causa da sua aproximação com Liane e também a proposta de casamento? De qualquer modo, o jeito mais emocional lhe incomodava.

    No final, ele cometeu ao erro de se render a intuição de ajudar os outros. Sua mão chegou ao topo de cabeça de Solaris e realizou um cafuné, da mesma forma que Zana fazia no seu cabelo quando era pequeno. Imediatamente a princesa virou o rosto surpreso na sua direção, querendo entender o que significava o gesto.

    — Pelo menos, não deixe de tentar. É pelo bem do nosso futuro, ainda mais do seu.

    O rosto de Solaris corou levemente, enquanto seus olhos acabaram desviando em outra direção. Pelo menos, ela não encarava mais o chão… E assim Liane percebeu a enorme falha na resposta.

    “É pelo bem do nosso futuro…”, repetiu mentalmente, praguejando a si mesmo mais do que qualquer um.

    Ele acabou de reforçar acidentalmente o relacionamento entre os dois, e queria dar um soco no meio da fuça por causa disso. Ainda assim, ambos passearam por mais um tempo ao longo da Vila da Redenção, passando pelos templos e aproveitando aquela manhã amena. O ar não estava pesado como da primeira vez que entrou na vila, quando gritos de mulheres e crianças dançavam sobre o céu, mostrando o lado ruim da humanidade numa sinfonia maldita.

    No final, Liane resolveu tentar se esquecer e esperou o tempo passar lentamente, até que a chance ideal aparecesse para retornarem a taverna. Lá, ele receberia uma versão resumida do que o monge Silon explicou, e no dia seguinte sairiam rumo as ruínas. Mal sabia Liane como suas palavras tinham mais poder do que gostaria, e que estava prestes a se encontrar novamente com os poderes sobrenaturais do outro mundo.


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