Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.
De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!
Capítulo 223: Ansiedade Constante
A Floresta da Rosa Negra estava estranhamente quieta. Não havia o canto dos pássaros, nem mesmo o assobio do vento na copa das árvores, somente o som dos cascos dos cavalos roçando contra a estrada de terra. A inquietude de Liane se provou mais real conforme se aprofundaram na trilha, renovando um sentido de autopreservação criado no tempo que praticou magia ao lado de Er’Ika.
Antigamente, seus sentidos captavam tanto a energia divina quanto demoníaca simultaneamente devido a uma certa sensibilidade a forças no ambiente. Talvez fosse devido a uma série de acontecimentos, como o incidente na Vila do Dente seguido pelas ocorrências frequências contra sua vida, sempre envolvendo poderes de demônios e seus feitiços.
Mesmo treinando dentro do templo com a ajuda de Vylon, Grey e Cristal, ele nunca pôde realizar milagres, mas conseguiu reutilizar o feitiço de sono que aprendeu após absorver as memórias de Milea vários anos atrás quando iniciou uma série de rituais. Isso poderia ser um dos fatores pelo qual estava tão sensível agora, sentindo um nervosismo subir pela espinha conforme se aproximavam das ruínas.
Ainda assim, ficou de boca fechada o restante da viagem, nem sequer intervindo com a conversa dos mais velhos. Quem manteve uma certa entrevista foi Cristal, que tentou abordar Astaloph de todas as formas possíveis, mas Silon respondia por ele em todas as ocasiões. Ficou óbvio como alguma coisa estava sendo escondida por meio do monge, que mantinha uma fachada estranha para protegê-lo.
A carroça parou próximo à caverna indicada, Vylon tratou de amarrar os cavalos numa tora de madeira que trouxeram com o restante dos suprimentos. O plano era bem simples: ele, Silon e Astaloph seguiriam na frente para averiguar as ruínas, enquanto os demais ficariam para trás cuidando da carroça. Mais tarde, quando conseguissem montar uma rota segura que evitasse perigo, trariam outra parte do grupo e assim cada um poderia realizar sua checagem.
Aqueles que tinham maior preferência eram a santa e Solaris por razões óbvias, porém, Cristal seria levada para conferir as inscrições antigas caso quisesse, enquanto a princesa seria mantida do lado de fora com uma escolta — Vylon ou Grey. Com isso decidido, o bispo se despediu de seus companheiros e rumou para a escuridão da caverna.
— E lá se vão eles… — comentou o paladino, encostando-se numa das rodas da carroça e cruzando os braços. — Agora, só podemos esperar.
A santa soltou um suspiro e fechou um livro que portava no colo, o rosto encoberto por decepção não escondia nada além de um sentimento de frustração por trás dos olhos esverdeados. Ela preferia nunca usar a força contra aqueles que faziam parte de seu próprio culto, pois até onde procurou, Astaloph não detinha reclamações ou alguma denúncia contra sua conduta desde que entrou para um convento.
— Que estranho. Este homem está no berço de Lithia há tanto tempo, mas esconde um passado tão misterioso. Ainda quero entender o porquê aquele monge cuida dele, não me lembro da menção do nome Silon nos pedidos de informação que fiz aos escribas.
— Provavelmente Silon foi chamado depois de ser noticiado que pessoas importantes viriam inspecionar a descoberta. Ele deve estar se borrando de medo depois de se encontrar com a santa e com um bispo.
— Grey, você está sendo maldoso.
— Estou falando a verdade, irmã.
Os olhos de Liane se concentraram na silhueta dos homens desaparecendo dentro das penumbras. Sua visão acompanhou até onde conseguia ver, e quando desapareceram, continuou parado naquela mesma direção. Um tipo de corrente se arrastava pelo chão, movendo-se pelas paredes daquela caverna, invisível aos olhos de todos, mas existia na visão do garoto.
O palpitar do coração retornou. Havia um tipo de presença inundando o ambiente, uma coisa milenar se escondendo nas ranhuras das pedras e sussurrando nomes para o abismo. Ele se sentiu tentado a dar um passo à frente e correr com todas as forças para a caverna, rasgar o que estivesse no caminho e matar o que o impedisse de se mexer, um desejo que fazia sua boca salivar.
Tremores tomaram os dedos, estática atravessou as luvas peroladas. A vontade se intensificava quanto mais olhava para lá, mas uma batida nas costas o tirou do transe. Era Solaris, exibindo um sorriso curto, com seu jeito pouco emotivo comum.
— O que você está fazendo?
— Só… pensando… Não foi nada.
Ele deu as costas e voltou à Cristal e Grey, sendo acompanhado pela garota morena ao lado, que parecia cada vez mais atrelada a ele do que o normal. O grupo se acomodou nos arredores da carroça, cada um perdido em seus próprios pensamentos. O tempo passou devagar, abafado pelo calor de uma floresta que parecia contida em si mesma.
O silêncio foi interrompido por um estalo seco de galhos partindo. Cristal levantou os olhos do livro. Grey descruzou os braços devagar, deslizando a mão rumo a espada no quadril. Liane olhou para o mato, calculando os tremores no chão, reparando numa sequência de passadas curtas.
Desta vez, Solaris se levantou, o rosto mantendo aquele mesmo desinteresse fingido que só convencia quem não a conhecia de verdade.
— Visitas…
As árvores adiante se moveram. Do meio dos arbustos, três homens emergiram — todos com roupas pesadas de viagem, armas presas às costas e o olhar turvo de quem não tinha vindo por conversa. Liane reparou no distintivo metálico na lapela do homem da frente: um crânio atravessado por uma adaga. Era um grupo de mercenários, e não dos mais discretos.
— Ora, ora… que surpresa encontrar um grupo tão seleto acampando por aqui — disse o primeiro, com uma voz arrastada e grossa, similar a um vilão brega dos romances que Liane era acostumado a ler. — Não querem compartilhar um pouco da hospitalidade?
— Dê meia-volta. Agora — respondeu o paladino, voltando-se aos estranhos e franzindo as sobrancelhas.
— Que jeito mais frio de tratar um velho conhecido — O mesmo homem cuspiu para o lado, erguendo as mãos para o alto em um sinal de rendição. — Mas não estamos aqui por vocês, não exatamente. Só queremos a mocinha loira. Ela foi um pouco… descuidada numa certa taverna. Parece que nosso companheiro ainda tá cuspindo sangue.
Solaris piscou duas vezes, recebendo os olhares de todos naquele lugar.
— Ele quem encostou em mim!
— E você quebrou dois dentes dele. Então, como vai ser?
Não houve nenhuma resposta. Na verdade, mais parecia que Grey estava se preparando para sacar a espada e decepar os braços da primeira pessoa que chegasse ao seu alcance. Para o líder mercenário, no entanto, isso mais soou como uma terrível afronta.
— Hah, se não quiserem ajudar, então vamos resolver à moda antiga.
Mais passos vieram dos flancos. Os olhos de Liane desenharam aros pelos arredores, vendo as silhuetas de cada pessoa ali, ao todo seis.
Grey deu um passo à frente, colocando-se entre o grupo e os recém-chegados.
— Liane, proteja Cristal. Isso vai ficar feio.
O líder dos mercenários tirou a clava das costas e deu o primeiro passo para uma sangrenta batalha.

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