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    Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.

    De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!

    Dentro do culto de Lithia, haviam paladinos, frades, freiras e monges. Os mais abençoados pelo poder divino eram as freiras e paladinos, exercendo muitas vezes atividades santas dentro e fora do templo, como enfrentar demônios ou interferir em fenômenos sobrenaturais acontecendo numa região. Os monges e os frades, por outro lado, mais se enquadravam como estudiosos, pessoas investidas nos manuscritos antigos e no arquivamento de material sagrado.

    Não à toa ambos os lados formavam alianças ao longo do tempo, tanto que, mesmo com o estilo de vida isolado dos monges, eles inevitavelmente entravam em contato com os frades e cedo ou tarde eram chamados para prestar atividade fora dos monastérios onde moravam. Por causa disso, não era estranho ver Silon e Astaloph como colegas, esse tipo de conexão era mais que normal considerando o estilo de vida celibato que costumavam levar durante a vida.

    Era uma ocorrência comum, o que surpreendeu Liane, que, se bem lembrava, nunca viu um monge. Verificando mais de perto, teve certeza de que as costas do homem Silon foram cobertas por músculos protuberantes, mas possuíam uma envergadura levemente encurvada para frente, como se tivesse aparecido após passar inúmeras sessões sentado diante de um altar ou mesa de escriba. 

    Quanto ao outro, o homem magrelo com ciência de poderes demoníacos mostrava uma aura bem fraca, de quem morreria com um golpe suave na cabeça. Aquilo trouxe uma anedota para a mente de Liane, que teve certeza de que encontraria alguém muito diferente caso a pessoa tivesse conhecimento real de demônios e dos rituais. Primeiramente, essa pessoa devia tê-los praticado no passado, então sua constituição física, no mínimo, era para ser diferente — obrigatoriamente mais resistente devido a degradação mental pelo constante contato com forças além da compreensão.

    “Será que… ele praticou rituais que sugavam a energia vital?”

    O palpite tomou sua atenção. Não era irrealista, além do mais, uma gama de diferentes efeitos vinham como consequência dos rituais descritos dentro do Demonicon e também do outro livro encontrado na biblioteca da Academia Aquaria. A pergunta que ficava era: o que Astaloph fez para estar tão ruim?

    Essas perguntas seriam deixadas para mais tarde, pois o grupo foi levado logo de manhã de carroça às ruínas. Seria uma viagem lenta, monótona, guiada por um condutor com um olhar de peixe morto, vulgo bispo Vylon disfarçado com roupas de gente comum. O motivo principal para estarem ali era a figura ilustre do autor do Demonicon, não as ruínas em si. Ainda assim, não fazia mal olhá-las.

    Liane manteve os olhos fixos na estrada atrás da carroça, distanciando da Vila da Redenção conforme os cascos dos cavalos arrastavam a terra. Foi pouco tempo lá, mas no final, nem pretendiam permanecer na cidade de qualquer modo. Ele verificou os próprios bolsos uma última vez, como se quisesse ter certeza do equipamento guardado nos cintos por baixo do manto sobre os ombros.

    Solaris estava sentada ao seu lado, balançando as pernas e a cabeça, estranhamente feliz sem razão específica. Provavelmente isso se devia ao momento anterior em que conversaram, talvez a frase mal-colocada de Liane ressoava pelas memórias, o que por si só era um péssimo sinal. 

    Ele permaneceu ignorante quanto a esse fato, não porque desconhecia os pensamentos altos da garota, mas porque preferia deixar de lado para resolver os mistérios se desdobrando diante de seus olhos.

    — Então, Astaloph… — chamou Cristal, quebrando o silêncio da viagem. — Tem alguma coisa específica que devemos tomar nota quanto as ruínas que você encontrou?

    — As aranhas, Santa — respondeu Silon no lugar do frade. — Quando exploramos na primeira vez, conseguimos evitar um combate direto com aranhas gigantes, mas isso quer dizer que elas ainda estão lá e podem causar problemas se estiverem grande número.

    — Ah, mas basta queimar elas até virarem cinzas. — Solaris abriu um enorme sorriso com a sugestão que ela mesma deu, sedenta por um combate depois de um passeio tão tedioso.

    — Não funcionará — interveio Liane, sem desviar a atenção do caminho pelo qual passaram. — Você  pode obstruir a passagem das ruínas e pode acabar destruindo qualquer coisa lá dentro. Eles disseram no relatório que o local poderia ser um tipo de cemitério, a possibilidade de existir materiais inflamáveis como madeira ou coisas pouco resistentes são altas, então nem pense em usar seus feitiços de fogo.

    Aquilo foi cirúrgico, ao ponto de Grey sentir orgulho pelo quão certeiro o comentário de seu protegido acertou a convencida princesa de Coraci. Sim, tinham outros fatores a se tomar cuidado quanto a operação em si, primeiro que a vida de Cristal, Liane e Solaris eram a prioridade máxima, logo, os três permaneceriam do lado de fora enquanto o bispo e os dois associados investigariam as ruínas.

    Isso permitiria passar furtivamente das aranhas, economizando energia e também evitando uma possível catástrofe dentro das cavernas onde habitavam os monstros. Outra nota a se tomar era também quanto ao caminho. Eles haviam acabado de entrar na Floresta da Rosa Negra, que era conhecida por seus fenômenos estranhos e também monstros mutantes. 

    Liane, no passado, nunca se deparou com criaturas monstruosas lá dentro, exceto por ocasiões esquisitas como uma mudança repentina de clima ou uma silhueta passando rapidamente no fundo. Dessa vez, ele estava preocupado que a ocasião realmente trouxesse um tipo de animal esquisito para um confronto. A recompensa pela criatura seria ótima, além do mais, estudiosos ofereceriam uma fortuna pela pele e carcaça desses seres, mas trocar vidas por algumas moedas de ouro era absurdo.

    Um suspiro pesado saiu de seus pulmões. A preocupação não abandonava seu peito. Havia alguma coisa errada da qual não conseguia apontar, um detalhe faltando impossível de se ver pelos olhos. Seus dedos tamborilavam a madeira da carroça, ele sentiu uma mão roçar o braço, e ao virar a cabeça de leve para o lado, reparou em Solaris querendo se aconchegar no seu ombro. 

    Não se importou muito, mantendo-se quieto e deixando-a fazer o que bem quisesse. Talvez pudesse aliviar um pouco a barra depois de ser tão duro nos últimos dias, mas ainda precisaria de alguma forma quebrar esse laço esquisito firmado entre os dois.


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