Ei, você é curioso? Se for, que bom, deixo saberem o quanto quiserem de mim! Pra começo de conversa, eu sou um sapo mágico, tá ligado? Eu sei que minha foto de perfil engana, mas é sério! Infelizmente, estou preso no fundo do poço, minha sabedoria não pode sair desse lugar, mas você pode sempre vir aqui e jogar uma moedinha ou perguntar ao sapo do poço sobre sua sabedoria.
De qualquer forma, esse sapo já foi autor de outras coisas, sabia? Ele também ensina e faz trabalhos relacionados a escrita! Bizarro? Com certeza é um sapo mágico, oras! Agora, se encante com minha magia e leia todas as minhas histórias (e entre no discord), simsalabim!
Capítulo 224: O Medo do Diretor
O diretor Trion não gostava de desconhecidos vagando pelas paredes de sua prestigiada academia. Anteriormente, a santa Cristal lhe avisou sobre uma atividade estranha, e como Grey, o paladino encarregado de proteger Liane, deu o depoimento de que uma professora possuía energia demoníaca. À primeira vista, achou ser um engano absurdo, mas logo concordou que havia pouquíssimo motivo para um paladino que estava também protegendo uma importante peça no tabuleiro político da Igreja de Lithia fazer escândalo a respeito.
Aquela situação sensível queria tirar os últimos fios de cabelo branco da sua cabeça, pois realizar uma atividade ostensiva e que chamasse muita atenção poderia colocar os estudantes e perigos, e no pior das hipoteses, atiçar a atividade de cultistas que trariam mais problemas com as facções nobres do reino de Kirstein. Quando a catástrofe aconteceu em Verdan, o número de mortos e feridos foi minimizado pelo uso de magias e pela união com a Igreja de Lithia para salvar as pessoas, no entanto, a presença dessas baixas foi uma enorme dor de cabeça — filhos da nobreza, de famílias ricas ou influentes o suficiente para colocarem pressão no pescoço do diretor e puxar cordas para arrancá-lo daquele cargo.
Felizmente, ele foi protegido pela verdadeira dona da Academia, aquela que fundou a instituição e quem lhe ofereceu a cadeira como diretor, Isis Aquaria. A família Aquaria tinha um histórico rico em contato com magia, mas nunca deram um passo tão grande em fornecer um local para estudo, tanto para plebeus quanto famílias nobres. Em circunstâncias normais, os segredos a respeito do arcano seriam guardados para eles, só que por algum motivo esse local foi aberto a todos que mostrassem um nível de talento.
Nada vinha barato, por outro lado. Se Trion vacilasse e um acontecimento similar se repetisse, quem sofreria as consequências seria ele mesmo, independente de ser sua culpa ou não.
Esses pensamentos lhe afligia enquanto usava magia para controlar uma pena para redigir documentos. Era tão conveniente, seu pulso nunca mais sentiu dores depois de aprender a controlar objetos por meio da magia, só que infelizmente outras questões sempre o puxavam ao limite.
“Será que esses cultistas descobriram sobre Liane e querem libertar a criatura dentro dele? Ou será que é outra coisa? Impossível que a jovem Solaris esteja envolvida nisso, e Imo… não, o rapaz é idiota demais para escolher algo assim. Sua honestidade revelaria na mesma hora. Quem poderia ser?”
Batidas vieram da porta do seu escritório. Imediatamente o velho se voltou naquela direção.
— Entre.
As maçanetas giraram e deram lugar a um jovem de cabelo preto e olhos azuis profundos. Seu uniforme continuava impecável como sempre, mas já a expressão… parecia mais desolada do que qualquer outra coisa.
Essa pessoa era Delphiane Aquaria, filho de Isis Aquaria, e alguém que indiretamente estava acima do próprio diretor por uma questão de status. Ele também se enquadrava como gênio, a magia de gelo demonstrada durante o teste de admissão dos alunos era digna de alguém de uma família de magos.
— Em que posso ajudar, jovem mestre? — indagou Trion.
— Eu vim fazer uma denúncia a uma certa pessoa. Uma de minhas amigas, Seraphina, tem mostrado comportamentos repentinamente diferentes e estou preocupado. Você poderia mais tarde checar para mim?
— Claro, quem é essa pessoa?
— A nova aluna chamada Liane. Ela tem feito rituais demoníacos nessa Academia.
O diretor gelou. Soava-lhe absurdo demais acreditar que esse aluno, que era protegido pela igreja e inclusive passava tempo diretamente com o bispo Vylon e a santa Cristal, estava diretamente ligado àquela crise.
— Posso perguntar como você tem tanta certeza disso?
— Eu e Seraphina a flagramos duas vezes realizando rituais. Uma vez foi na sala de depósito, por isso a fechadura estava queimada, a outra aconteceu nos andares superiores da Academia e teve o envolvimento da princesa Solaris.
Trion engoliu em seco.
O silêncio no escritório se tornou espesso, as palavras de Delphiane ecoaram pelo seu cérebro, soando mais como acusações extremamente arriscadas que poderiam virar um país de cabeça para baixo, mas simultaneamente moveu peças na sua mente a respeito da santa Cristal e o paladino Grey. Ainda assim, acreditar em uma ligação direta de Liane com cultos demoníacos era uma barreira difícil de atravessar.
O velho passou a mão pela barba rala, desviando o olhar para a pena suspensa que continuava a mover-se por reflexo do feitiço, desenhando rabiscos sem sentido no papel. Ele perdeu total controle do feitiço e agora nem mesmo a pena se movia corretamente, o que servia para dar arrepios na espinha.
Pensou em Liane, um rapaz quieto, estranho aos olhos de muitos, mas protegido por forças que até mesmo ele, Trion, considerava delicadas demais para interagir por boa vontade. A Igreja de Lithia não designaria um paladino qualquer para ficar em sua guarda se não houvesse algo de imenso valor ali. O risco de tocar nesse assunto com descuido poderia incendiar a academia inteira.
— Jovem mestre… Compreende o peso daquilo que está me dizendo?
Delphiane sustentou o olhar e sem tremor na fala retrucou:
— Compreendo perfeitamente.
Trion fechou os olhos por um instante. A denúncia somada as séries de circunstâncias — a fechadura queimada, o envolvimento de Solaris e a aparição de fantasmas nos corredores da Academia. — tornavam tudo mais complicado de digerir. Um fio de suor desceu pela lateral de seu rosto. Se estivesse lidando com simples rumores, teria descartado sem pensar, mas agora o peso da família Aquaria tornava impossível fingir indiferença.
— Farei a devida averiguação — respondeu o diretor —, mas não comente nada com outros alunos. Isso poderia espalhar pânico.
Delphiane assentiu em silêncio, mantendo uma expressão imutável, quase impassível. A frieza nos olhos azuis não refletia medo, mas um tipo de convicção para se livrar do mal pela raiz.
Quando o jovem saiu, o diretor deixou o corpo pender na cadeira, apoiando a testa nos dedos. Um mero rumor de espíritos zanzando pela noite se transformou em denúncia oficial de alguém cujo sobrenome pesava mais que montanhas.
O pensamento final que lhe corroeu foi o mais perigoso: se Liane realmente estivesse ligado a um ritual demoníaco, a própria Academia ruiria debaixo de seus pés, assim como aconteceu na noite de Verdam, a noite que ainda aparecia em seus piores pesadelos.

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